Esta semana João Lima revelou no final deste ano que vai colocar um ponto final no seu histórico trabalho de recolher as classificações das provas portuguesas. Uma enorme perda para a corrida nacional, ao mesmo tempo que levanta uma questão: como é possível que este trabalho não tenha obtido durante os seus 11 anos de existência nenhum apoio, seja ele privado ou público?…

Acredito que uma decisão destas não foi fácil de tomar. Concretamente, o que aconteceu? Porquê agora e não no ano passado ou há dois anos, por exemplo?
Não, não foi fácil de tomar, daí ter estado dois meses a maturar. Com a evolução da pandemia e a diversificação de um novo tipo de provas, não reais, apercebi-me que estávamos a viver o final de um ciclo. Claro que as corridas físicas voltarão, mas em concomitância com outras formas. O tempo que iria exigir abranger estas novas formas foi o que me levou a considerar, daí ter sido agora e não antes. Creio que foi a melhor altura para o fazer. Se tivesse sido, por exemplo, em 2018, iria parecer que a viagem tinha sido interrompida bruscamente, ao contrário deste momento. A principal razão? Basicamente, necessito de mais tempo livre.

Curiosamente, com menos provas em 2020 e teoricamente com menos trabalho, o João Lima tomou esta decisão. Este repouso inesperado acabou por fazer com que refletisse sobre o próprio projeto em si? Por exemplo: por ter mais tempo agora, percebeu que estava a perder muito da sua vida privada devido a atualização do site, roubando companhia à sua família, algo que conseguiu comprovar agora com a redução de provas, já que, por vezes, quando estamos no meio do furacão não conseguimos perceber o que nos rodeia?
O menos trabalho neste ano é mesmo em termos teóricos e não reais. Se a nível de colocar resultados, desde março, foi praticamente inexistente, o resto não o foi. Não são os resultados que consomem mais tempo. Após a prova é pesquisá-los e colocá-los on-line. Ok, uns são mais complicados de arranjar e outros de tratar. Os que já estão em PDF, maravilha, mas há vários que estão repartidos por vários ecrãs de 10 ou 20 linhas em cada. É necessário fazer copy/paste das linhas de cada ecrã para um Excel e depois transformar em PDF. Imagine-se isso em classificações com vários milhares de atletas… Mas é uma vez e está feito, ou quase, pois 3/4 semanas depois tenho que confirmar se houve modificações, o que é usual devido a chips não lidos ou atletas desclassificados. Ora, este trabalho de resultados, tal como disse, praticamente não houve. O que dá imenso trabalho é o calendário. E, sem o calendário, o histórico não sobrevive pois tem que se saber que provas são realizadas. Por prova tem que se procurar a sua página, se tem, se está no Facebook ou nas associações, se já divulgaram a data ou não. É uma pesquisa constante e estamos a falar dum número aproximado de dois milhares! E mesmo depois de obtida a data, há que ir verificando se a mesma se mantém e se há alterações à distância, algo muito comum em trails, por exemplo. No caso deste ano, em março já tinha obtido um número razoável de datas. De seguida foi procurar qual a nova data, porque inicialmente foram adiadas para altura posterior, verificar se essa data posterior se mantinha ou foi cancelada para o próximo ano… Agora sabemos que quase todas foram canceladas, mas 25 realizaram-se e tinha que garantir que as restantes não o eram. Ou seja, aquilo que se costuma fazer para cada prova, neste ano foi a dobrar ou triplicar. Além disso, e com a perspectiva de um dia a página ser melhorada para base de dados, aproveitei a paragem das corridas entre abril e junho para preparar todos os dados para essa plataforma. Foram dois meses muito intensos. Posto isto, não, este ano não foi de modo algum de repouso…

Compreende que um projeto desta qualidade não encontre nenhum parceiro comercial (ou mesmo institucional) para o manter em pé ao longo destes anos?
Não!

Portanto, sente-se de certa forma frustrado, magoado com este término.
Logicamente que tenho pena que termine, pois foi algo que dei muito de mim, mas a forma como estou a encarar é de orgulho por tudo o que fiz até este interregno de provas. Se ninguém der seguimento, fica um belo histórico até este ano.

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Quando o João Lima resolveu criar este projeto, qual era o seu objetivo? Poderia resumir estes 11 anos de trabalho?
Apercebi-me que a maioria das classificações das provas desapareciam após algum tempo. Maioritariamente por ligações quebradas ou por colocarem a classificação da última edição sobre a anterior. Como considero que as classificações são um verdadeiro património das nossas corridas, lembrei-me de as ir recolhendo e disponibilizar para que todos tivessem acesso a elas, 24 horas por dia, 365 dias por ano ao sabor de um clique. Para recuperar resultados antigos, comecei a pesquisar pela net, nas mais diversas páginas e em todas as revistas da especialidade nacionais, desde o seu número 1. Tive a sorte de várias pessoas terem em papel classificações antigas e digitalizei-as.

E o que deu mais prazer ao João Lima? E o mais complicado?
Gostei de tudo, mas conseguir obter classificações muito antigas teve sempre um sabor especial. A mais antiga que tenho é de 2 de Maio de 1910, ainda do tempo da monarquia, da primeira Maratona realizada no nosso país. O mais complicado? Conseguir conciliar tudo com o escasso tempo livre que tinha quando trabalhava. Ninguém consegue imaginar o número de horas que este trabalho exige.