Depois da campeã nacional de Ultra Trail revelar a sua música de eleição na corrida, oportunidade para refletirmos se devemos correr com ou sem música, num artigo escrito por Raquel Costa.

Desde criança é normal realizar movimentos ao som da música, como por exemplo bater com os pés no chão ou com as mãos nas pernas ou na mesa. É uma tendência natural seguir as batidas da música, sendo consensual que os movimentos rítmicos corporais são melhor sincronizados quando acompanhados por música motivadora.

Passando para a corrida, de que forma esta tendência natural pode contribuir para o desempenho?

A literatura tem revelado que a música possui um papel significativo no sucesso das sessões de exercício, tornando relevante a escolha da seleção musical de forma a contribuir para o prazer e para a motivação do exercício físico.

Entre os benefícios referidos, podemos destacar:

  • CORRER COM MÚSICA ORIGINA MELHOR SINCRONIZAÇÃO DA PASSADA
    A música estimula os nossos sentimentos e ações. Aliás, a ação determina a cadência dos movimentos, melhorando o desempenho durante os exercícios. O ritmo da música pode influenciar no desempenho e eficácia dos exercícios. Recomenda-se portanto músicas mais rápidas para exercícios de maior intensidade e músicas com batidas mais espaçadas para intensidades moderadas. Neste sentido, reconhece-se que o ritmo da música permite adequar a intensidade da atividade.
    Estudos recentes revelam melhor tempo nas provas em pista ou em passadeiras quando utilizada música em comparação com a não utilização de música.
    Assim, ao sincronizar a passada, corremos com mais eficiência, mais rápido e durante mais tempo.

LEIA TAMBÉM
O estado da corrida: corre-se menos e mais lento

  • CORRER COM MÚSICA AUMENTA A MOTIVAÇÃO
    A música pode ser considerada um poderoso aliado na incorporação do hábito da prática de exercício físico, pois tem uma representação neuropsicológica extensa, ou seja, tem acesso direto à efetividade e às áreas límbicas que controlam os nossos impulsos, emoções e motivação. Parece também ser capaz de ativar áreas cerebrais terciárias, localizadas nas regiões frontais, responsáveis pelas funções de sequências motoras.
    A energia que a música gera pode motivar o indivíduo a começar e manter o ritmo desejado, bem como a regular a intensidade do seu exercício.
    A escolha musical melhora o estado de espírito e humor, promovendo mais alegria, vigor e ânimo, o que permite encarar de forma mais positiva o cansaço, tensão e dores musculares.
  • CORRER COM MÚSICA AJUDA A ATRASAR A FADIGA
    Investigações evidenciaram que a utilização da música durante o exercício age como um fator de distração, levando ao aumento dos pensamentos dissociativos, isto é, pensamentos que não estão voltados para fatores ligados ao esforço, como por exemplo frequência cardíaca, respiração ou dor muscular.
    Neste sentido, o uso da música durante o exercício pode mudar o foco de atenção voltado aos fatores relacionados à sensação de fadiga (e.g., frequência cardíaca elevada, respiração ofegante e cansaço muscular), bloqueando a sensação de dor ou desconforto gerado durante o esforço físico.
    Uma dissociação eficaz pode promover um estado de humor positivo, evitando que direcionemos a atenção para as sensações fisiológicas de fadiga.
    Contudo, investigações mais recentes referem que a música apenas pode reduzir a atenção durante o exercício submáximo (intensidade leve e moderada de exercícios) e, por sua vez, desviar a mente das sensações de cansaço. Por outro lado, em intensidades elevadas, a perceção de fadiga anula o impacto da música porque os processos de atenção são dominados pelo feedback fisiológico, como por exemplo o aumento do débito respiratório (ou ventilatório) e a acumulação de lactato sanguíneo.

Após esta exposição de teorias fisiológicas e psicológicas, bem como uma breve revisão do observado na literatura, na quarta-feira vamos publicar um artigo com aplicação prática da utilização da música durante sessões de corrida.

LEIA TAMBÉM

Foto: Quino Al on Unsplash