Pedro Pires viveu um sonho na Maratona de Sevilha, já que alcançou, aos 55 anos, o seu melhor tempo pessoal, o tão ambicionado Sub-3h00, registo sonhado por todo o corredor anónimo. Este é o seu relato…

Em Espanha já corri as maratonas de Madrid, Barcelona, Valência e Badajoz. No entanto, para mim, Sevilha tem mais encanto. O apoio que sentimos dos portugueses que se espalham ao longo do percurso é absolutamente extraordinário, mas também o tempo e o percurso, cada vez melhor.

Este ano, Sevilha era especial, já que coincidia com a minha 50ª Maratona de estrada (10.ª vez em Sevilha). E tinha acabado de fazer 55 anos. Tudo números redondos, portanto…

Por isso, motivação não me faltava, motivação que tanta falta faz ao longo da preparação. Comecei em agosto, primeiro com o objetivo de Valência. Pelo meio fiz as maratonas de Lisboa e Porto em ritmo de treino e acabei Valência com um novo recorde pessoal, de 3h06.

Se baixar das 3 horas em Sevilha parecia impossível, até porque o meu melhor tempo à Meia era de 1h28, julgava que seria possível baixar das 3hm05.

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Era agora ou nunca! Superei todos os meus recordes aos 54 anos, mas tenho consciência de que os níveis de performance e recuperação já não são os mesmos e que as pilhas devem estar a acabar.

Treinei muito desde dezembro, incluindo as malditas séries que tanto bem fazem, mas também os treinos longos, muitos acima dos 30 km.

Não havia fim-de-semana que, entre sábado e domingo, não corresse mais de uma Maratona. Introduzi algumas modificações no regime alimentar e consegui emagrecer 3 quilos. Comprei os géis e bebida de hidratos do “Kipchoge” e até uma camisola de alças mandei fazer. Por fim, ouvi falar dos Nike Vaporfly% e, se fosse verdade, faziam-me ganhar uns minutos: check!

Parti para Sevilha com os meus dois filhos. Tal como aconteceu na minha primeira maratona, em Madrid 2017, acompanharam-me na minha 50.ª Maratona. Infelizmente, a minha mulher (também maratonista e a quem dedico a prova) não conseguiu estar presente.

Após estarem presentes na primeira Maratona, os filhos de Pedro Pires 
presenciaram a 50.ª Maratona do pai, em Sevilha
Após estarem presentes na primeira Maratona, os filhos de Pedro Pires
presenciaram a 50.ª Maratona do pai, em Sevilha

Chegámos, comemos na Pasta Party, demos um passeio breve por Sevilha, disse-lhes onde deviam estar para me darem o abastecimento líquido e fui descansar. É fundamental que, na véspera, não se cometam excessos quando há objetivos a cumprir.

A tática estava decidida: ir com o balão das 3 horas até conseguir e depois deixá-lo ir embora quando as pernas deixassem de responder.

Em princípio, os primeiros 21 km aguentava ir a 4m15/km. E, mesmo que a segunda parte passasse para 4m30/km, fazia menos de 3h05. Mas a verdade é que, para mim, acima de 3h03 era muito pouco para compensar o esforço a que me tinha submetido desde agosto…

E assim foi…

A prova da vida de Pedro Pires aconteceu na Maratona de Sevilha

Comecei com o balão e acabei sem o balão. O ritmo do “pacer” era forte (abaixo da velocidade de cruzeiro) e passámos na Meia com 1h28m50, o que dava alguma folga para a segunda parte. Sentia-me bem, excecionalmente bem, estranhamente bem e mantive-me junto ao balão até aos 35 km. E depois… fui-me embora!

Cortei a meta e chorei, já que nunca pensei que tal fosse possível! Alcancei o tempo final de 02h56m31, um ritmo médio de 4m11, alcançado um honroso 8.º lugar no meu escalão, V55. E ainda superei o meu recorde na Meia-maratona!

Este recorde está gravado em mim, no meu coração e, literalmente, na minha pele.

Pedro Pires fez uma tatuagem com o tempo alcançado na Maratona de Sevilha
Pedro Pires fez uma tatuagem com o tempo
alcançado na Maratona de Sevilha

Um obrigado a todos os que contribuíram para este recorde, em primeiro lugar à Catarina Varges, pela pachorra que teve, aos meus filhos pelo apoio dado, ao meu companheiro de treino que torna tudo mais fácil, aos amigos da “Maratona de Bratislava” pelas incríveis palavras de incentivo, aos meus padrinhos de Maratona e a todos que, ao longo de todas as centenas de provas já feitas, me têm brindado com a sua amizade.

No entanto, e ainda agora terminei esta, e já estou com saudades… Maldito vício que não me larga. Um abraço a todos os corredores anónimos.

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