Vanessa Pereira admite que o seu olhar sobre o desporto e o mundo em geral foi alterado desde que foi mãe e que luta todos os dias para mudar mentalidades, mostrando que é possível ser desportista de elite e mãe em simultâneo.

Este foi o seu primeiro Ironman internacional após ser mãe. Até que ponto competir tendo em mente o seu filho é fundamental para o resultado? Nos momentos complicados, e em comparação aos Ironmans anteriores, o seu filho vem constantemente à sua cabeça ou as coisas acontecem como no passado?
Foi o meu segundo Ironman após ser mãe. O primeiro realizei a 12 de junho deste ano, em Coimbra, no Campeonato Nacional de Triatlo Longo, no qual venci. Desde que tive o meu filho, era um sonho e um objetivo realizar um Ironman. Esse sonho foi adiado 4 meses após ser mãe devido ao cancelamento do Ironman Cascais, em outubro de 2020. Foi sem dúvida algo emocionante ter competido em Coimbra, algo comparável  ao meu primeiro Ironman, há 10 anos. Foi a primeira vez em que estive afastada do meu filho! Durante aquelas 9h41 de prova, tudo o que pensava era no caminho que percorri desde que fui mãe até estar ali e terminar a prova com um sorriso para ele e d’ele. Foi um momento único e inesquecível! Era esse o exemplo que lhe queria passar. A mãe é feliz, luta e acredita pelo que ama! Hoje é ele que está sempre na minha mente a cada momento em competição (e em cada treino). 

Hoje a maternidade é bastante discutida no desporto de elite e, felizmente, já começam a surgir resultados de mães com sucesso. É realmente muito complicado retornar ao mesmo nível após ser mãe? 
Ainda vivemos numa sociedade na qual ser mãe significa a mulher “ter de parar” a sua vida e “cuidar única e exclusivamente” do seu filho. Desde que descobri estar grávida sempre lutei contra essa mentalidade. Desde cedo notei os olhares e comentários quando me viam com a minha barriga a treinar. Após ser mãe o julgamento continuou (“Foi mãe e já está a treinar…”),  como se fosse uma má mãe por deixar o meu filho recém-nascido 1h-2h para ir treinar. Felizmente sou muito teimosa e tenho as melhores pessoas ao meu lado que me ajudaram e ajudam diariamente. Sim, foi e é complicado, ainda mais ao mais alto nível, mas acredito num futuro melhor. Assim irei continuar a lutar. 

O pequeno Afonso faz parte integral da mãe Vanessa Pereira, inclusive nos treinos
O pequeno Afonso faz parte integral da mãe Vanessa Pereira, inclusive nos treinos

Mas como foi e tem sido conciliar os treinos da Vanessa Pereira mãe com o seu filho? Devido ao Afonso, o volume de treino foi muito menor, por exemplo? E os treinos em si, muito diferentes do que fazia antes de ser mãe? E olha o triatlo em si com outro olhar após ser mãe?
Não foi fácil, mas a própria modalidade exigiu muita organização, vontade e motivação desde o início. Muita coisa mudou, mas a paixão e alegria em cada treino e competição são as mesmas, com ainda mais compromisso e vontade de ser um exemplo de mãe, mulher e de atleta para o meu filho! 
As horas de treino reduziram e são agora a horas muito diferentes. Não sou eu que mando, é o Afonso, o meu filho. Felizmente, por ter um parto natural, sem episectomia e sem diasteses, ao fim de uma semana já consegui recomeçar a fazer exercícios. 
Foi na corrida que senti um maior impacto, o peso da barriga no último mês alterou a minha técnica de corrida. Foi bom voltar a correr sem o peso extra, mas senti que todo o meu corpo estava desalinhado. Só ao fim de algumas semanas é que voltei a sentir-me bem a correr. 
Mas sem dúvida que a privação do sono, a dependência constante a alguém, a desregulação dos horários são algo que me tira as energias todas para treinar com qualidade. Com o tempo adaptei-me e tudo acabou por entrar na nova rotina. 
Parar, respirar, adaptar, readaptar. Olhar para o meu filho, esquecer-me de tudo o resto e reencontrar o foco! Ele é sem dúvida a minha maior motivação, não só diariamente, mas em todas as minhas escolhas. Penso primeiro na minha saúde e em estar bem para cuidar dele. Cada treino e competição passaram a ter uma luz, uma força que me supera e faz esquecer todo o cansaço, horas de sono e descanso insuficiente. 

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O que a Vanessa Pereira aprendeu ao ser mãe?
Confesso que, desde que fui mãe, passei a conviver diariamente com medos até então desconhecidos ou nunca pensados. Medo de morrer, perder, falhar, educar, de querer voltar a ser o “eu de antes”… Aprendi que todos estes medos nos desafiam, mas fazem chegar mais além do  que a minha mente julga ser capaz. 
Aprendi que sou muito mais forte do que imaginava. Ser mãe diariamente já é ser uma verdadeira atleta! E não importa o quanto nós mudamos, os nossos sonhos devem sempre permanecer!