Trail 2019

É normal em algum momento de uma prova de Trail corredores optarem por caminhar ao invés de correr. Um erro? Nem pensar…

Aquilo que nos leva enquanto trail runners a correr ou a andar num dado momento e percurso da prova é uma das questões que tem vindo a ser estudada por Jackson Brill, um trail runner que é também estudante de doutoramento no Locomotion Laboratory da Universidade do Colorado. Sob a direção do professor Rodger Kram e em conjunto com vários outros colegas investigadores, Brill revelou, num artigo da revista norte-americana Outside, algumas conclusões interessantes a que chegou sobre o tema.

Entre elas, a certeza de que «a nossa pesquisa veio dar permissão aos atletas para que andem ao invés de correrem sempre que assim o entenderem», afirmou Brill meio a brincar.

A questão basilar

Segundo os investigadores, tudo começa com a seguinte interrogação: «Há realmente alguma diferença substancial entre correr e andar nas encostas mais íngremes?».

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Começando esta análise pelo exercício em condições ditas normais, ou seja, em terreno plano, uma das primeiras e maiores diferenças é o facto de que, quando andamos, mantemos sempre um pé no chão, enquanto que, quando corremos, não se toca o chão entre cada passada. No entanto, nas encostas mais íngremes, e mesmo a correr, somos obrigados a manter sempre um pé na terra.

E se esta última afirmação lhe causa estranheza, saiba que este é um facto já confirmado pela ciência, nomeadamente na sequência de uma investigação liderada por uma antiga estrela das pistas, Clarissa Whiting. Na ocasião, dez trail runners de Elite foram desafiados primeiramente a correr e depois a caminhar em terreno plano.

Recolhidos os resultados, os mesmos atletas foram então convidados a fazer o mesmo numa passadeira especial, com uma inclinação de 30 graus – apenas para que o leitor possa ter uma referência, as passadeiras normais não conseguem mais do que uma inclinação de cerca de nove graus (30 graus é, por exemplo, a inclinação que uma pista de ski de cor preta costuma ter). Embora os corredores sempre tivessem um pé no chão, havia diferenças distintas entre correr e caminhar…

A importância da passada e dos picos de aceleração

É verdade que as diferenças entre correr e caminhar não se limitam a ter ou não o pé no chão, mas passam igualmente pela passada e, mais concretamente, pela cadência.

Ao corrermos numa encosta, a cadência é cerca de 40% mais rápida do que quando andamos, com os pés a ficarem cerca de 40% menos tempo no chão. O mesmo padrão acabamos por encontrar, embora de forma não tão pronunciada, quando em terreno plano.

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Voltando ao estudo da Universidade do Colorado, o aspecto mais determinante surgiu através de um acelerómetro preso à cintura dos atletas que participaram na investigação e que mediu a ascensão e queda do seu centro de massa: quando caminhamos em terreno plano, há dois picos de aceleração distintos, um ao pousar e outro ao arrancar. Já quando corremos é uma série de saltos de uma perna para a outra, produzindo apenas um pico de aceleração, assim que pousamos e de imediato decolamos.

Utilizados igualmente na situação da esteira inclinada, os acelerómetros acabaram registando os mesmos padrões, confirmando que correr em subidas íngremes é realmente correr e não um tipo de caminhada rápida e saltitante.

Novo estudo

Apuradas estas conclusões, Brill e Kram voltaram à investigação para elaborar um novo estudo, o qual se encontra ainda sob análise e em que voltaram a contar com o contributo de dez trail runners de Elite. Desta feita, para correrem em encostas com zero, cinco, dez e 15 graus de inclinação.

O objetivo era tentar apurar o que leva um corredor no trail a passar, de forma natural, do acto de correr para o caminhar e vice-versa, determinando igualmente se as nossas tendências naturais correspondem ou não àquela que é a abordagem mais eficiente.

Já depois da década de 90 do século passado, estudos concluíram que a tendência é corrermos, mesmo que a velocidades mais lentas, quando caminhar seria mais eficiente (energeticamente falando). A explicação para isso terá a ver com o conforto da parte do próprio sistema muscular, mesmo que tal signifique gastar um pouco mais de energia.

No seu estudo, Brill e Kram descobriram que este mesmo padrão persistia quando em superfícies íngremes de até dez graus, com os atletas a mudarem inadvertidamente do andar para o correr ainda que a uma velocidade mais lenta do que a transição energeticamente ideal.

Com a inclinação a 15 graus, a diferença desapareceu e os atletas começaram a correr exatamente quando se tornou mais eficiente do que andar, transmitindo assim a ideia de que será o desejo de economizar energia e a necessidade de ser o mais eficiente possível aquilo que prevalece.

A diferença do exterior

Finalmente, a investigação de Kram aponta ainda para uma outra diferença subtil entre correr em terreno plano ou em trajetos íngremes.

Segundo o investigador, quando corremos num local plano não existe muita ambiguidade sobre a opção de correr ou caminhar, tornando-se muito fácil ao organismo chegar à conclusão qual o correto e qual o errado, também em função da velocidade.

nas montanhas são muitas mais as situações em que essa ambiguidade se coloca, com o corredor a ter muitas vezes a sensação de que, correndo, estará mais confortável. Isto para pouco depois chegar à conclusão que, afinal, é andando que se tornará mais fácil. Ou seja, nunca existe um equilíbrio estável mas uma oscilação entre andar e correr.

Já no caso do estudo de Whiting, a investigadora recorreu a eletrodos colocados em quatro músculos distintos da perna para assim comparar as diferentes ativações musculares nas mais variadas condições de corrida.

O sóleo, um dos dois principais músculos da barriga da perna, revelou 36% menos de atividade na passada durante a corrida em plano inclinado do que durante a caminhada, no mesmo plano inclinado. O que, diga-se, é consistente com a ideia de que a fadiga muscular local desencadeia a transição.

Dito de outra forma, caminhamos até que as pernas – e os músculos da barriga da perna em particular – comecem a sentir cansaço. A partir daí começamos a correr, o que, embora de início nos faça sentir melhor, acaba por nos deixar muitas vezes sem fôlego, altura em que voltamos a caminhar com este círculo a repetir-se continuamente.

O futuro

No seu estudo, Brill também testou a frequência cardíaca como um substituto para descobrir o ponto de transição mais eficiente, mas o facto desta variar muito consoante o indivíduo tornou esse indicador inútil para aplicação no mundo real.

Entretanto, no seu próximo estudo, Brill pretende recolher dados de trail runners a caminhar, a correr e até mesmo a realizarem a sua própria combinação dos dois processos enquanto escalam uma montanha real, já que o objetivo, recorda, é ser o mais rápido possível, não o mais eficiente possível.

Enquanto tal não é possível, também devido à pandemia, o também investigador promete seguir a abordagem levada a cabo até aqui, de tentativa e erro, recorrendo igualmente à sua intuição sobre o tipo de passada com que nos sentimos melhor a cada momento (tomando como princípio a manutenção de uma passada a cada entre 15 e 30 segundos). Algo que, ainda assim e segundo o próprio assume, e apesar de ter sido «ótimo fazermos todas estas pesquisas (…), assim que começo a correr deixo de pensar seja no que for».