Foto: octavioperez_preparadorfisico_instagram

Dando continuidade ao domínio que já registam no fundo e meio-fundo, os atletas africanos começam agora a atacar a disciplina do Trail. Na última edição da TransGranCanaria, dos quatro quenianos que participaram pela primeira vez numa Maratona em montanha, duas corredoras e um corredor acabaram por subir ao pódio.

Com um percurso de 42,3 quilómetros e 850 metros de desnível, a edição deste ano da Maratona da TransGranCanaria registou, pela primeira vez, a presença de quatro atletas quenianos, que também se estreavam neste tipo de prova.

Apesar desta dupla novidade, Sarah Jerop e Monica Cheruto acabaram, nas senhoras, arrecadando, respetivamente, o segundo e terceiro lugares. Ao passo que, entre os homens, Ben Kimaty foi segundo, enquanto o seu compatriota Hilary Chirchir ficou-se pelo 13.º posto.

Sem qualquer experiência sobre aquilo que são as especificidades de correr em montanha, estes quatro corredores integram, no entanto, o projeto Sky Runners Kenya, que tem sede em Iten, no Quénia, e que visa lançar a carreira profissional de jovens promessas e atletas com projeção internacional.

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Num campo de treino dirigido pelo espanhol Victor Navarro e coordenado pelo preparador físico Octavio Pérez, tudo com o patrocínio da marca FBR, este projeto garante moradia gratuita e assessoria profissional para mais de 40 corredores quenianos.

Entretanto, e com a chegada do momento da estreia, Octavio Pérez, ele próprio um recordista mundial de 4×800 metros e autor do livro Preparador no Corredor de Montanha, recorda, em declarações reproduzidas no jornal espanhol A Marca, que «era uma incógnita prever qual seria o seu rendimento. Chegaram com três semanas de preparação. Não entendiam que as descidas em montanha fossem cansativas, que não é como no asfalto, em que conseguimos recuperar do cansaço. Mandei-os fazer séries em descidas e eles fizeram-nas em subidas».

De resto, quando surgiu o convite para que um lote de atletas quenianos participasse na Transgrancanaria, Pérez decidiu pedir ao seu contacto em Iten para que promovesse uma corrida de montanha de 25 quilómetros para escolher os quatro atletas que se estreariam neste tipo de prova.

No entanto, ele não entendeu o meu pedido e levou-os para um desfiladeiro, onde os colocou a correr no asfalto e não em terra. Ainda assim, com esses tempos, fizemos a seleção dos atletas», recorda o preparador físico.

Nascidos para subir

Cumprida esta primeira etapa, os quatro atletas quenianos escolhidos chegaram à Gran Canaria e viram pela primeira vez o trajeto, assim como as suas descidas técnicas, usuais numa prova de Trail.

«Fomos treinar e, na primeira subida, tudo correu bem, até que chegámos à descida, com cerca de oito quilómetros, até Tunte. Quando os vi a enfrentar o trajeto, era como se tivessem corrido a vida toda em montanha. Acabaram de imediato com os meus medos, resultantes do facto de, duas semanas antes da prova, ainda não os ter a todos comigo e não saber por isso como se iriam adaptar», recorda o mesmo interlocutor.

Também sem experiência em abastecimentos neste tipo de provas, foi igualmente preciso que Octávio Pérez ensinasse os quenianos como deveriam fazer numa prova de Trail.

«Por causa do coronavírus, não podíamos servi-los diretamente. Dissemos-lhes como deveriam fazer ao chegar às mesas, como tirar a sua bebida e tudo o mais. No entanto, para eles, tudo isso era novidade. Tal como era novidade correr com uma mochila, carregar o equipamento obrigatório ou até mesmo não atirar nada para o chão. O Kimaty, por exemplo, deixou cair uma bolsa de gel numa altura em que estava prestes a cortar a linha de chegada e, mesmo assim, parou para se baixar e apanhá-la antes de passar a linha», revela Pérez.

No entanto, e embora tendo sido o primeiro a passar a meta, a marcação dos tempos em função das saídas intervaladas de forma a cumprir os protocolos sanitários levou com que Kimaty fosse segundo classificado, ficando atrás de Andreu Simón, com o tempo de 2h41m28. Já o queniano Ben Kimaty terminou a corrida com o tempo de 2h43m24.

O mesmo aconteceu, de resto, na corrida feminina, com Sarah Jerop, a primeira atleta mulher a cruzar a linha de meta, a alcançar o terceiro lugar na classificação, com o tempo de 3h15m50, quedando-se atrás da segunda classificada Monica Cheruto (3h15m40) e da vencedora Vírgnia Pérez Mesonero (3h14m39).

«Com a ajuda do tradutor do Google, explicámos-lhe no início que eles iriam partir por lotes. A pessoa encarregue de anunciar as regras também o fez, em inglês, mas suponho que eles não perceberam muito bem o que era dito. Quando terminaram e ficaram a saber que, mesmo tendo sido os primeiros a cruzar a linha de meta, não foram vencedores, apanharam uma forte desilusão. Porque a verdade é que, para eles, só a vitória vale», comenta Pérez.

De resto e a confirmar esta abordagem, o facto dos quatro terem partido a toda a velocidade, o que fez com que, aos 10 quilómetros, já levassem quase cinco minutos de vantagem sobre o segundo. «Isto fez com que ficassem sem referências na corrida. A estratégia era controlar os principais rivais, sobretudo os espanhóis, mas a verdade é que, com o início de corrida que fizeram, todos os planos foram por água abaixo», afirmou Octavio à Marca sobre a estreia dos quenianos no Trail.

O handicap do treino de força

Contudo, a verdade é que os resultados conseguidos na Gran Canaria demonstram que os quenianos também poderão, com o tempo, dominar no Trail.

Foto: octavioperez_preparadorfisico_instagram

«A verdade é que, também aqui, há um antes e um depois, um pouco à imagem daquilo que aconteceu quando os quenianos decidiram sair da pista para o asfalto. A subir, com os seus 48 quilos de peso, dificilmente alguém conseguirá acompanhá-los. E a descer, é quase inato. A única questão é saber se vão conseguir aguentar em termos de musculares, porque nunca fizeram treino de força. Por exemplo, eu estipulo-lhes exercícios de força, mas eles, como não gostam, não fazem. Contudo, a partir do momento em que fiquem um pouco melhor preparados, não tenho dúvidas de que serão capazes de enfrentar qualquer adversário», diz Pérez.

Aliás, recorda o mesmo interlocutor, a vida destes quenianos é dedicada na totalidade ao treino e ao descanso. «Uma coisa que me surpreendeu foi a quantidade de horas que dormem, chegam a dormir quase 12 horas. Penso que esse é outro fator que explica o seu elevado rendimento: treinam, descansam, vivem em altitude…».

Montanha será objetivo exclusivo

Entretanto, e depois dos resultados obtidos na TransGranCanaria, Sarah Jerop, Monica Cheruto, Ben Kimaty e Hilary Chirchir vão passar a dedicar-se em exclusivo à montanha através do projeto Sky Runners.

Neste momento, os quatro quenianos têm já em agenda a possibilidade de participar, no próximo mês de maio, numa nova prova de Trail em França, parte do circuito Skyrunner World Series. Sendo que o objetivo passa também por conseguirem encontrar um patrocinador que lhes garanta a presença em mais provas do género na Europa.