João Andrade acredita que a Badwater 135 é provavelmente a Ultramaratona em todo o mundo mais difícil para um ultramaratonista ser selecionado, mas a verdade é que, após uma jornada de três anos, foi um dos escolhidos para a prova de 7 de julho. O português revela agora como foi a luta por esse lugar de sonho e como tem decorrido os treinos.

Depois de saber que foi selecionado, o João Andrade tem estado a preparar-se para a Badwater 135. O que foi que o fez interessar-se nesta prova em concreto?
O que me fez interessar foi a busca de uma mudança positiva na minha vida e de um novo rumo. Posto isto, havia que analisar como conseguir ser selecionado para a prova em apenas três anos, ou seja, no presente ano de 2020. A Badwater é provavelmente a Ultramaratona em todo o mundo mais difícil para um ultramaratonista ser selecionado, isto por variadíssimas razões, e não é por acaso que muitas vezes a designam como as Olimpíadas das Ultramaratonas. Para ter acesso à Badwater temos de começar por preencher os requisitos mínimos e, para aumentar as chances de seleção, temos de buscar o que podemos chamar de requisitos máximos. No ano passado, mais de 6000 atletas tentaram se inscrever e prevê-se que este ano tenham sido bem mais. E isto apenas para 100 vagas disponíveis… Os requisitos mínimos compõem-se pelo atleta ter terminado com sucesso pelo menos três provas de 100 milhas contínuas ou mais e pelo menos uma nos últimos 18 meses. No entanto, e como diz o Chris Kostman, diretor da prova, nem todas as provas de 100 milhas são criadas iguais. Então, existem provas de 100 milhas ou mais extremamente exigentes que qualificam para a Badwater. Entre elas está a BR 135 Ultramarathon no Brasil, de 135 milhas, que tem um tempo limite de 60 horas mas que, para o atleta qualificar para a Badwater, tem de a completar em menos de 48 horas. Eu tive a felicidade de a terminar em apenas 37 horas. Eu corri três provas nas distâncias de 115, 135 e 175 milhas nos últimos 14 meses incluindo a grandiosa PT 281+ Ultramarathon, BR 135 Ultramarathon e a Estrelaçor, e também a Badwater Cape Fear, prova da mesma organização a qual adiciona mais pontos ao Curriculum Vitae. Para além disso, a organização promove a ideia e requisito do atleta ir aos Estados Unidos numa edição anterior à data do seu registo, para dar apoio e ser pacer de outro atleta como parte da equipa de apoio, que é obrigatória na Badwater 135. Eu e o meu treinador Tiago Aragão fomos o ano passado dar apoio à grande atleta uruguaia Silvia Amodio, não só para eu cumprir o requisito, mas para ambos podermos aprender e preparar melhor a minha prova este ano. Fiz bastantes mais Ultramaratonas curtas de menos de 100 km como treino para ganhar uma plataforma como ultramaratonista desde que comecei esta jornada, mas as que mencionei acima são as que se destacam e as únicas que contam para a Badwater 135.

A Badwater 135 trata-se de uma prova especialmente difícil, não apenas em resultado da distância, mas também e em particular devido às condições meteorológicas especialmente difíceis no Vale da Morte. De que forma tem vindo a preparar-se para esse momento?
Desde o primeiro dia que o objetivo se apresentava como muito desafiante, não só pela prova mas pelo tempo que me propus para ser selecionado, ou seja, apenas três anos. Como em tudo na vida, procurei rodear-me dos melhores profissionais no treino e avaliação de performance desportiva, como o meu treinador Tiago Aragão e, na nutrição, com o Dr. Tiago Almeida, sendo estas as áreas principais. Depois complementei a equipa incluindo o meu personal trainer Miguel Romano e o meu massagista Pedro Monteiro, além de contar ainda com o apoio na área da medicina desportiva e ortopedia com o Prof. Leandro Massada. Foram muitos os apoios que recebi desde que comecei nesta jornada, os quais sou muito agradecido, pois o investimento é elevado para poder fazer este percurso. No entanto, quem quer tem mesmo é de arranjar soluções e correr atrás. Com esta equipa de profissionais procurou-se sempre fazer uma evolução gradual, com atenção à prevenção de lesões e outras possíveis complicações de forma a conseguir treinar e realizar provas de muita exigência nas melhores condições.

Que tipo de treinos o João Andrade tem vindo a fazer, também em termos de distâncias, para enfrentar os desafios que a Badwater 135 coloca?
Nesta fase sigo um plano de treino estruturado que inclui 6 dias de corrida por semana com um dia de descanso total. Irei rondar volumes de 160 a 200 km semanais durante alguns períodos desta fase, para além do treino de reforço no ginásio, das aulas de pilates e do plano de treino de sauna de três a quatro vezes por semana para me preparar para o calor extremo, o que, na fase final antes da prova, deverá rondar a uma hora por sessão. Pelo menos duas vezes por semana em treinos de endurance ou resistência, como parte do treino de corrida, corro com roupa adicional de material respirável para tentar simular as altas temperaturas. Isto inclui gorro, camisola de manga comprida, casaco, luvas e leggings, entre outros pormenores, que irei continuar a usar, já que nada se compara às temperaturas que se fazem sentir na Badwater 135, ou não estivéssemos a falar do local mais quente do planeta terra, o Vale da Morte, e ainda por cima no dia mais quente do ano. Evidentemente, dou sempre atenção aos treinos de recuperação, nunca esquecendo o tão importante descanso.

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E quais as expectativas que tem, em termos de resultados, para uma prova como a Badwater 135?
Uma prova como a Badwater 135 é tão grandiosa e desafiante que só poder estar na linha de partida ao lado dos melhores ultramaratonistas do mundo já é uma grande vitória, inclusive para mim, João Andrade. No entanto, o objetivo será, antes de mais, concluir a prova e trazer para Portugal a tão cobiçada fivela de cinto da Badwater 135, que é a medalha desta prova por muitos considerada o Santo Graal das Ultramaratonas. Mas os meus objetivos vão para além disso, não o vou esconder. Os meus recentes resultados entre os 5 e 10 primeiros em algumas das provas mais exigentes do mundo com apenas três anos de corrida, aliado à minha evolução e melhoria de performance devido ao programa de treino do meu treinador, colocam-me numa situação para aspirar por algo mais. Penso que, se tiver uma prova “redonda”, difícil de prever em provas tão extremas, poderei fazer algo ainda mais especial. Mas o foco agora é em treinar arduamente e nunca esquecer de sermos bem humildes e de respeitarmos uma prova desta magnitude. Mas o ser humano alimenta-se de sonhos e eu vou atrás do meu.

Segundo puder ler, este desafio também tem uma vertente solidária. Pode explicar-nos de que forma?
Sempre acreditei que, se em algum momento da vida nós tivermos condições de levar uma mensagem ao mundo que muitas vezes não é tão ouvida, que o podemos e devemos fazer. Assim, aliei-me a duas instituições de caridade logo desde o início desta jornada, com cerca de 10000 libras esterlinas angariadas ao todo até à data. Uma das instituições está sediada no Reino Unido, a Bigmoose, que tem o objetivo de dar uma nova oportunidade aos sem-abrigo da cidade de Cardiff, no País de Gales, dando-lhes formação como baristas e depois emprego no seu café Bigmoose. Aliado a isto, a Bigmoose providencia vários apoios a nível da saúde mental, a facilitação de habitação, entre outros, com vista à criação de uma plataforma para dar aos sem-abrigo uma possibilidade de criar uma nova vida passo-a-passo. Decidi também apoiar a SPEM Portugal, a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, que tem como missão contribuir para a melhoria das condições de vida dos portadores de Esclerose Múltipla, familiares e cuidadores. Mas os custos de participação na Badwater são também eles muito elevados e unindo tudo criei um programa para ajudar a financiar uma parte da minha jornada até à Badwater enquanto angariamos fundos para estas duas instituições de caridade. Com a minha recente seleção para a Badwater, o programa irá entrar agora numa nova fase e este será anunciado até dia 15 de março nas minhas páginas do Facebook e Instagram.

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