Vanessa Pereira terminou recentemente o Europeu de Ironman na 14.ª posição, uma prova que foi bastante dura, fruto dos percursos no ciclismo e corrida, uma prova que vai ficar guardada para sempre na sua memória.

Escreveu na sua página do Facebook, na véspera da prova: «Talvez eu seja louca», «louca» por estar a competir no Europeu. Até que ponto essa loucura foi justificada? Porque decidiu competir no Europeu? Alguma razão em especial?
A Covid-19 e todo o contexto da pandemia fez com que muitas provas fossem canceladas. Eu treino porque gosto, dá-me prazer e faz-me feliz, mas, acima de tudo, eu treino também para competir. Tinha como objetivo este ano, um ano após o parto, tentar uma prova internacional e conseguir averiguar como estava a minha performance. O Europeu era uma excelente oportunidade, já que lá iria encontrar as melhores atletas. Contudo, a prova era na Finlândia, país nórdico, onde teria 99% de probabilidade de encontrar um dia de prova com frio e chuva. E esse é o meu ponto fraco! O meu corpo tem dificuldade em se adaptar bem a temperatura fria. A maioria dos meus DNF (Did Not Finish) foram por hipotermia. Por isso, e apesar de ter sido uma decisão lúcida, foi também muito maluca, pois sabia desde o início que iria estar em desvantagem.  

Como foi a prova em termos gerais? Que comparação faz com os Ironmans anteriores, por exemplo? O que teve de diferente, de especial?
O Ironman da Finlândia foi o meu 23.º Ironman. Foi uma prova que me surpreendeu muito, pois não esperava um percurso tão duro, quer no ciclismo, quer na corrida, percursos marcados pela forte altimetria e vento. Este Ironman fica marcado na minha memória como uma vitória pessoal. Foi uma prova difícil, todo o segmento da Maratona foi feito em pleno dilúvio e deparei-me com uma luta interior constante para não parar. Felizmente saí interiormente vitoriosa e alcancei a meta.  

Os tempos de Vanessa Fernandes no Europeu de Ironman
Os tempos de Vanessa Pereira no Europeu de Ironman

Poderia resumir um pouco como decorreram os segmentos? Em relação à Maratona, com o tempo final de 3h21, foi este o tempo que a Vanessa Pereira esperava?
A natação foi apenas uma volta de 3,8 km (2,4 milhas) no lago de Tahko, local onde também se situava a meta (excelente para os espetadores). Foi uma natação muito calma e solitária, onde apenas consegui acompanhar o segundo grupo até aos 1500m. O percurso de bicicleta, de 180,2 km e de duas voltas, foi um pouco solitário também, entre florestas e campos. Sentia-me muito bem até aos 60 km, quando o vento e a chuva aumentaram consideravelmente. Foi a partir deste momento que comecei a perder posições e a deixar de ter força e energia. Sabia que, para conseguir continuar e terminar, tinha de alimentar-me bem e pensar naqueles que trazia no coração e que deixei em casa, todos os que me seguiam e a apoiar. É neles que penso para conseguir ter forças! O percurso da Maratona, de 42,2 km e quatro voltas, tornou-se mais apelativo para os espetadores, o que foi sem dúvida uma grande ajuda. Ter crianças, famílias e idosos a gritar e a incentivar os atletas é precioso para qualquer pessoa que esteja a competir, foi um momento de ouro para mim. As condições do percurso eram duas, metade estrada, metade asfalto, e com um acumulado de 400m, o que tornou a Maratona mais difícil de toda a minha carreira, uma verdadeira sobrevivência! Não foi o tempo que esperava, mas, tendo em conta o percurso, foi uma das melhores maratonas da minha carreira no geral.

Teve alguma estratégia em particular?
A estratégia foi pensar volta a volta e nunca parar em qualquer abastecimento. Tentei sempre beber em andamento, sabia que, se parasse ,imediatamente o meu corpo arrefeceria e ficava por ali. Por isso, continuei e só parei na meta!