Russel Kelsey

Porque a superação humana parece não conhecer limites, este é um caso que vale, sem dúvida, noticiar: Russel Kelsey preparava-se para participar na Race Across America 2020 quando a pandemia de coronavírus deixou o mundo em suspenso. Mas não a concretização de outro sonho do britânico: fazer 100 quilómetros, todos os dias, durante 100 dias!

A Race Across America 2020 acabou por ser cancelada devido à pandemia de coronavírus, mas não foi por isso que Russel Kelsey não decidiu abraçar o desafio dos 100 km por dia ao longo de 100 dias. Pelo contrário, o britânico terá encarado esta invulgar tarefa como preparação para a prova de resistência em ciclismo, de 4.800 quilómetros.

No entanto, e com o cancelamento da prova norte-americana, o britânico, residente em Dulwich, Londres, optou por levar a cabo o treino, mas dentro de sua casa, numa bicicleta fixa, aproveitando o tempo para arrecadar fundos a favor do serviço de saúde britânico.

Kelsey chegou a pedalar durante mais 11 horas seguidas, permitindo-lhe, em conjunto com o esforço de vários outros envolvidos, um total de 231 mil libras esterlinas, mais de 255 mil euros.

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Quanto às principais dificuldades resultantes de tantas horas em cima da bicicleta, terão sido as feridas causadas pelo muito tempo passado sentado no selim, mas também os monótonos e cansativos quilómetros, sempre no mesmo lugar, obrigando a malabarismos para encarar todas as 100 sessões, assim como os 100 quilómetros de cada uma delas.

Com o desafio ainda a decorrer, Russel Kelsey levanta-se todos os dias bem cedo para cumprir os seus 100 quilómetros diários, que, geralmente, pode levar entre as duas horas e meia e as quatro horas. «Dependendo do tipo de rota definida na bicicleta e de quanto me esforce», afirma o britânico.

No entanto, e se pensa que os resultados são também fruto da experiência de muitas décadas de Kelsey a andar de bicicleta, desengane-se. O inglês só começou a andar de bicicleta há cinco anos, sendo que bastaram dois meses, para escobrir que a bicicleta já lhe havia salvo a vida!

Foto: Russel Kelsey
Foto: Russel Kelsey

«Em 2015 estava de férias com a minha filha quando, de repente, caí no chão, resultado de um feocromocitoma, um tumor suprarenal que pode estar a crescer dentro de nós sem que nos apercebamos mas que acaba por rebentar quando atinge dimensões muito grandes», recorda Kelsey. «Este problema liberta grandes quantidades de adrenalina no organismo, muitas vezes levando à morte por hemorragia coronária ou cerebral. Quando desfaleci, o meu ritmo cardíaco em repouso era de 160 e a minha pressão arterial era de 150/120».

«Eu só sobrevivi porque tinha um historial desportivo razoável e tinha começado a andar regularmente de bicicleta dois meses antes. Tinha subscrito um dos desafios do Strava, que concluí nas semanas anteriores ao desmaio. Andar de bicicleta ajudou o meu organismo a detetar o tumor, mas também contribuiu para que eu fosse suficientemente forte para aguentar a elevada libertação de adrenalina no meu sistema», afirmou.

De resto, Kelsey diz-se um afortunado por ainda estar vivo, ao mesmo tempo que defende que o ciclismo continua ajudando-o até hoje.

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«Segundo os médicos, existe 10% de hipóteses do tumor voltar a aparecer, apesar do primeiro ter sido cirurgicamente removido, o que ainda significou seis meses de baixa. Mesmo assim, acredito que sou um afortunado, até porque 90% destes tumores só são descobertos após a morte da pessoa. Foi o ciclismo que me salvou e é nele que eu busco, hoje em dia, consolo e seneridade, além de que ajuda a acalmar-me. Algo que é muito importante, depois de uma vida cheia de adrenalina como eu vivi.»