Lenda do ultrarunning, a norte-americana Pam Reed acaba de tornar-se na 17.ª pessoa em todo o mundo a concluir 100 corridas de 100 milhas (160 quilómetros). Um feito alcançado ao longo de quase três décadas.

Numa altura em que também comemora 60 anos, Pam Reed atingiu a impressionante marca de 100 corridas de 100 milhas na Grandmaster Ultras, em Littlefield, Arizona, EUA, prova que a americana terminou com o tempo de 25h02m54. Foi a primeira entre as mulheres, terceira da classificação geral.

Importa dizer que, para este dado agora anunciado, conta toda a qualquer prova com ou acima das 100 milhas. Ou seja, mesmo que Pam tivesse corrido 491 milhas num evento, como fez por exemplo no Self-Transcendence Six-Day Race de 2009, só lhe seriam creditadas 100 milhas.

Ao longo de três décadas, Pam Reed correu ultras variando entre os 50 km e corridas de vários dias, tendo mesmo sido a primeira mulher a vencer o Badwater 135, um feito que alcançou em 2002 e repetiu em 2003.

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De resto, quando lhe foi dito em 2019 que já tinha corrido um total de 89 provas de 100 milhas, a norte-americana afirmou-se surpreendida.

«Na minha mente, da forma como contei, é verdade que pensei que já tinha feito isso», comentou Reed à Runner’s World. «Mas contei 220 milhas que corri numa prova de 48 horas como duas de 100 milhas, assim como a minha corrida de seis dias, como quatro corridas de 100 milhas. No entanto, a contagem não era assim. Quando descobri que estava a apenas 11 corridas de alcançar algo que só um punhado de pessoas havia conseguido, decidi ir em frente.»

Dez corridas num só ano

Reed fixou então como objetivo atingir a marca das 100 corridas de 100 milhas antes de completar 60 anos, em fevereiro de 2021. Para tal, tinha de correr 10 corridas com pelo menos essa distância em 2020. Assim, e além da mão-cheia de provas de 50 km, 60 km e 100 km, além de um meio IRONMAN, 2020 seria mesmo o seu ano mais preenchido.

Até aí, o máximo que Pam Reed havia feito tinha sido cinco ou seis provas num ano, entre as quais outras distâncias pelo meio.

Dificuldade acrescida foi o surgimento da pandemia de COVID-19, a qual veio cancelar muitas das corridas que a norte-americana queria fazer, o que a levou a que tivesse de se inscrever em corridas virtuais, percorrendo percursos com amigos perto de Jackson, Wyoming, onde mora.

«Eu realmente não planeio muito», reconheceu Reed. «Se uma corrida acontecer, eu vou em frente. Caso fosse necessário, eu fazia percursos ligando para um amigo meu, que fez um percurso de cinco voltas escalando uma montanha. Mas eu não queria fazer isso cinco vezes. Posso ser uma chorona, mas fiz. As 100 milhas são sempre difíceis, não importa como os façamos.»

Entretanto, como 100.ª corrida, Reed decidiu fazer a Arrowhead 135, uma corrida de inverno no norte de Minnesota, habitualmente realizada em fevereiro mas que acabou por sendo cancelada por causa da pandemia, levando a que a americana optasse então pelo Grandmasters Ultra.

Pam Reed e o seu cinto de “campeã”. Foto: Pamela J. Reed Twitter

No final, e apesar de ter terminado em terceiro – à passagem das 39 milhas chegou a liderar -, Pam Reed viu consagrado o seu feito, não apenas com uma generosa fivela de cinto, como também uma placa e um bolo comemorativo dos seus 100 metros.

«Eu sou muito abençoada por ter um corpo que me permite a continuar a fazer isto», comenta Reed, considerando que «é ótimo que tantas pessoas já tenham conseguido isto. Eu estou muito orgulhosa. O meu objetivo na vida é ser capaz de correr até morrer e estou a falar 100 por cento a sério quando digo isto. Eu só quero viver a minha vida ao máximo e, na minha opinião, isso é poder correr, andar de skate, esquiar, nadar, andar de bicicleta e sair o quanto puder.»

Os conselhos de Pam Reed, a corredora que fez 100 corridas

Aliás, e procurando aproveitar a experiência de uma mulher com 60 anos mas também com um currículo na corrida impressionante, a Runner’s World pediu a Pam Reed conselhos que pudesse dar aos mais jovens quanto a alguns temas específicos da sua vida. Aqui ficam:

  • A energia que a impulsiona
    «Eu sou finlandesa, um quarto sueca e um quarto norueguesa, acho que há algo nisso. Eu conheço muitos finlandeses e eles são hardcore. Aliás, morando em Jackson, estou cercada por pessoas hardcore. Apenas tenho muita energia e estou sempre a querer fazer coisas novas. A energia ajuda-me a fazer o que faço»
  • Pratica várias modalidades
    «Faço bastante ioga, frequentemente duas vezes ao dia. Faço acupuntura, faço massagens regularmente. Quando era ginasta, conseguia colocar o peito no chão entre as pernas. Hoje em dia não preciso de fazer isso. Simplesmente ajusto a minha ioga para se adequar ao que quero fazer como corredora. Sou intuitiva naquilo que faço e não faço»
  • Não use tantas roupas
    «Não consigo dizer o número de vezes que começo com mais roupas do que preciso. Aprendi com as corridas no inverno que não podemos suar demasiado porque vamos ficar com mais frio. Acontece que, no verão, é uma camisa de algodão, mangas de braço e meias de nylon masculinas»
  • Aprenda a abastecer-se adequadamente
    «Aprendi que corro melhor com Tailwind, manteiga de nozes e manteiga de amêndoa do Justin. Eu uso géis GU quando corro Ironmans, mas geralmente não consigo tê-los nas 100 milhas. Exceto uma vez em Leadville, em que comecei a vomitar durante oito horas de corrida e não parei até ingerir um GU, ainda com cerca de 21 quilómetros para percorrer»