Miguel Carneiro viveu há dias uma «emoção boa» ao propagar a importância do desporto inclusivo, algo que não é tão evidente como pensava. Uma emoção vivida após 200 km a pedalar com os Irmão Brothers e parecida com a que viveu no Deca Ultra Triatlo: 38 km a nadar, 1800 km a pedalar e 422 km a correr em 256h50m (leia aqui).

Antes de tudo, como foi, como viveu essa experiência?
Foi uma experiência incrível, não é fácil arranjar palavras para o que sentimos quando estamos envolvidos num evento destes e sentir todo o amor é união envolvidos.

Penso que já fez este trajeto no seu passado, como preparação para outras provas. Qual a diferença agora para essas experiências anteriores?
Já fiz Tróia-Sagres imensas vezes. Eu sou natural de Sagres e aproveito para fazer este trajeto como preparação. Por norma vou sempre junto à Costa Alentejana mas, no passado dia 19, optaram por fazer o percurso por dentro, apanhando a serra de Odemira, o que aumentou a dificuldade do percurso.

E como conheceu os Iron Brothers?
Fiquei a conhecer o projeto através das redes sociais, mas conheci o Pedro e o Miguel numa competição de natação, em Cascais. Enquanto muitos se iam desafiar a nadar aquelas distâncias, eles iam em dupla a nadar num ritmo fenomenal para quem levava um bote e o peso de uma pessoa. Achei algo fantástico!

Miguel Carneiro foi um dos rostos neste desafio dos Iron Brothers, que querem que o desporto seja mais inclusivo
Miguel Carneiro foi um dos rostos neste desafio dos Iron Brothers, que querem que o desporto seja mais inclusivo

E a ideia de Tróia-Sagres?
O projeto veio da cabeça do Miguel com o objetivo de tornar o desporto mais inclusivo. Eu fiquei a saber através das redes sociais e imediatamente pedi ao Miguel para fazer parte do projeto. Já tinham os Jovens Destemidos para fazer o trajeto, só faltava mesmo quem levasse a bicicleta.

O que lhe deu mais emoção? O Deca Ultra Triatlo ou esta iniciativa?
Sao eventos diferentes e ambos me encheram de emoções boas. A diferença é que no DECA, em vez de 12 horas, foram 256 horas. Tivemos alguns problemas mecânicos durante o trajeto, o que exigiu um maior esforço físico da minha parte, e senti a dificuldade de transportar alguém durante grandes períodos, fazendo admirar ainda mais o projeto dos Iron Brothers. Toda aquela dificuldade, por alguns instantes, transportou-me para o ciclismo do DECA.

Acredita que somos uma sociedade onde a inclusão no desporto é uma ilusão?
Sim! A medida que tenho conhecido a APCL tenho vindo a notar que realmente o desporto não é tão inclusivo como eu pensava, está ainda longe de ser inclusivo ao ponto que deveria ser.

E como fazer da inclusão a palavra de ordem de todos?
Acredito que projetos como o dos Iron Brothers é das maiores palavras de ordem. É necessário mais projetos assim, englobar a sociedade e consciencializá-la. Acredito que possa ser uma batalha longa mas com um desfecho feliz.

Concretamente, o que aprendeu com este desafio? O que retirou para a sua vida?
Eu fiquei de coração cheio. Levei o Zé comigo aqueles quilómetros e, ao contrário do suposto, ele é que puxava por mim a toda a hora. A alegria no seu rosto, as suas palavras de força quando apareciam subidas. Eu mal conseguia respirar e ele enchia-me de energia. Fui o caminho todo preocupado com ele, se estava confortável, se tinha fome, se necessitava de alguma coisa e ele só me dizia para irmos, que queria conseguir fazer aquele trajeto. «Puxa Miguel!”, gritava ele enquanto sorria. Percebi que podes conhecer uma pessoa num dia e, no mesmo dia, essa pessoa pode se tornar muito especial para ti.

E o que mais recorda hoje, já passado alguns dias?
«Puxa Miguel», «Força Miguel», «Mais uma subida», «Está quase…». Das coisas que mais recordo são as palavras que ele gritava o tempo toda da sua cadeira, sem nunca perder o ânimo e a energia.