Uma atleta norte-americana de origem iraquiana, Mais Abousy, acaba de tornar-se na primeira mulher a completar um IRONMAN indoor. Mais precisamente ao cumprir 80 voltas a uma piscina olímpica, pedalar 180 km numa bicicleta estática e correr 42 km numa passadeira…

Mais Abousy, triatleta de 39 anos, contou à Runner´s World que, apesar das dificuldades, nomeadamente já na última das três modalidade, a corrida, foram as mensagens de ânimo escritas pela filha e que ia retirando da sua bolsa a cada novo quilómetro que lhe deram força.

No entanto, uma vez terminado o IRONMAN Indoor, nem mesmo o facto de tudo ter acontecido de forma não-oficial retirou a Mais Abousy a felicidade de ter mostrado a si própria possuir a força necessária para aquele que será o seu verdadeiro desafio: terminar um IRONMAN no seu país de origem, o Iraque.

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Um passado marcado pela guerra

Mais Abousy nasceu no Iraque, país que acabou abandonando em 1991 com apenas dez anos na sequência do eclodir da primeira Guerra do Golfo, revela a revista norrte-americana.

Juntamente com a família, Mais fixou-se no estado da Pensilvânia, onde, logo no primeiro dia de escola, ouviu um colega de classe, filho de um soldado norte-americano que havia combatido na Guerra do Golfo, falar de «como o pai havia morto os maus, mostrando o nosso dinheiro, o dinheiro iraquiano».

À Runner’s World, Abousy explica que foi nessa altura que decidiu que, embora tendo passado a ser norte-americana, teria de ser também uma boa embaixadora do Iraque. Caso contrário, «apenas seremos os maus».

O surgimento da corrida

Quanto à corrida, foi algo que surgiu já muito depois, cerca de duas décadas passadas sobre esse momento, até porque, reconhece, durante muitos anos a ideia de corrida enquanto desporto nunca fez muito sentido para si. «Até como natural do Médio Oriente, a corrida servia apenas como a forma de fugir de algo», recorda.

Foto: Abousy Mais Instagram

No entanto, a verdade é que só a partir do momento em que se mudou para Washington para tirar advocacia e passou a ver a quantidade de pessoas que corriam na rua é que decidiu experimentar a loucura do running. Sendo que, mesmo depois disso, só com a saída do governo em 2013 é que Abousy, então já advogada do Departamento Federal do Comércio, decidiu aceitar a sugestão do marido para que libertasse a frustração acumulada correndo.

Dessa primeira vez em que decidiu calçar as sapatilhas e correr, acabou fazendo mais de 16 km até ao Aeroporto Ronald Reagan. À medida que corria, sentia que o stress laboral se ia dissipando e foi assim que se apaixonou.

A primeira Maratona

Já «viciada», Mais Abousy decidiu tentar a sua primeira Maratona no ano seguinte, em 2014, correndo os 42,195 km de Chicago. E foi por volta do km 20 que a iraquiana viu uma enorme bandeira palestiniana com os espectadores a aplaudirem entusiasticamente os corredores palestinianos.

«Percebi que a corrida é um desporto em que qualquer um pode transportar a bandeira que quiser, que será vista por todos e todos a respeitarão», comenta.

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Foi também a partir daí que tomou a decisão de regressar, no ano seguinte, à Maratona de Chicago com a bandeira iraquiana, aproveitando igualmente para angariar fundos para a Fundação das Crianças Iraquianas, organismo que ajuda as crianças vulneráveis e alvo de abusos, negligência e exploração.

A partir desse momento, Abousy não só cumpriu o prometido, como passou a participar em muitas outras corridas e provas de triatlo, sempre com o mesmo objetivo. Aliás, a atleta estima que, até hoje, já tenha reunido cerca de 30 mil dólares que entregou à fundação.

«Sinto que devo algo às pessoas que deixámos para trás no Iraque», afirma. «Nós tivemos uma oportunidade de ouro para podermos viver as nossas vidas, ao passo que eles, não… Como tal, considero que devo estender-lhes a mão e dar-lhes uma ajuda

A pensar no Iraque… apesar da pandemia

Entretanto, em 2020, irrompeu a pandemia de COVID-19 e praticamente todas as corridas acabaram sendo canceladas. Algo que serviu para Mais Abousy chegar à conclusão de que não precisava de uma prova oficial para conseguir o seu objetivo final: fazer um IRONMAN no seu país natal, o Iraque.

Foi assim que decidiu tornar-se na primeira mulher a cumprir um IRONMAN indoor, desafio que exigiu muito treino de corrida na passadeira, assim como muitos quilómetros na bicicleta estática que possui na sua garagem.

No momento de levar a cabo a sua meta, ainda contou com vários amigos iraquianos naturalizados americanos que nadaram, pedalaram e correram ao seu lado em diferentes turnos. Aliás, um veterano da guerra do Iraque correu mesmo a Maratona consigo.

«Apesar da vontade de vomitar e de não sentir o meu pé direito, durante largos momentos ouvia a música e sentia os meus entes queridos a meu lado, animando-me e fazendo-me sentir poderosa, importante, relevante», recorda a triatleta, que, em particular nos últimos 10 minutos, contou com uma companhia digna de registo: o sub-Secretário Adjunto Principal para o Iraque e o sub-Chefe da Missão da Embaixada do Iraque nos EUA.

Ambos fizeram-lhe sentir-lhe que «já não era a iraquiana que vivia nos EUA ou a norte-americana que tinha vindo do Iraque, mas a iraquiana-americana que ali estava».

O passo seguinte de Mais Abousy após o IRONMAN Indoor

Entretanto, e depois de concretizado o IRONMAN Indoor, Mais Abousy continua a preparar o IRONMAN que pretende realizar no Iraque, ao que tudo indica no início de 2022. Neste momento, traçou já uma rota possível que começa com a prova de natação no lago Habbaniyah, em cujas margens brincava quando era pequena, seguindo-se o trajeto de bicicleta na estrada conhecida como a Autoestrada da Morte.

Foto: Abousy Mais Instagram

Já a Maratona, decorrerá percorrendo todos os distritos de Bagdad para terminar em Assassin’s Gate.

Ainda assim, certo é que não será nada fácil, já que Abousy terá de circular por estradas bombardeadas, lutar contra as condições difíceis do deserto e enfrentar todas e quaisquer ameaças à sua segurança. Algo que, ainda assim, não chega para fazê-la desistir do seu propósito, o qual passa por fazer o mundo ver os iraquianos «como são agora. A parte boa, não a má».