Trata-se de uma espécie de realização de um sonho, iniciado ainda em 2014, mas que só agora Armando Teixeira vai conseguir concretizar. Graças ao apoio da Junta de Freguesia de Alvoco da Serra e da Salomon, o Vertical Sense Ride 4 Challenge tem lugar este fim-de-semana, numa perspetiva não apenas de competição, mas também da defesa de uma das paisagens mais significativas de Portugal.

«Tudo começou ainda em 2010, 2011, quando fui desafiado pelo meu treinador, Paulo Pires, para fazer o primeiro campo de treino de Trail na Serra da Estrela», começa por contar Armando Teixeira. «Foi assim que nasceu o primeiro Estrela Camps, sendo que eu, na altura, já fazia provas de Trail no estrangeiro ao mesmo tempo que treinava na Serra da Estrela.»

Já quanto à ideia do KM Vertical, diz Armando Teixeira, «surgiu um pouco mais tarde, por volta de 2014, e devido à excelência das condições e beleza que a Serra da Estrela oferece. Na verdade, o traçado onde vai ter lugar as 24 horas KM Vertical deste fim-de-semana, entre a Torre e Alvoco, é algo que já existe há muitos anos, há muito que se encontra marcado e, apesar de ser um percurso difícil e extremamente técnico, as gentes da região sempre o utilizaram. Apenas era desconhecido para os de fora. E eu, que treinava naquele trilho mítico com cerca de 3.700 metros e que sobe 1 km na vertical, ficava maravilhado. Juntamente com uns amigos, pensava que era o sítio ideal para fazer uma prova deste género».

Entretanto, «e após a realização da primeira edição do KM Vertical nesse mesmo ano, o trilho passou a ser limpo e remarcado de forma regular pela Junta de Freguesia de Alvoco, sendo que, com o passar dos anos, passou também a fazer parte de todas as atividades de montanha, como caminhadas, corridas, etc. É, de resto, um dos trilhos mais belos que temos em Portugal», afirma aquele que é, ele próprio, um dos mais destacados atletas de Trail nacionais de sempre e que, inclusivamente, já figurou no TOP 20 mundial da modalidade.

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Aliás, a ideia deste Vertical Sense Ride 4 Challenge surgiu, igualmente, nesse mesmo ano de 2014, recorda. E logo aí agregado à ideia de se prolongar por 24 horas, numa perspetiva de eco-responsabilidade.

«Achei que uma paisagem tão bela como esta, que já foi várias vezes fustigada pelos incêndios, merece que olhemos para ela com outros olhos e a cuidemos. Foi por isso que, ainda nesse ano, decidi falar com os meus colegas e, em seguida, com a Salomon para propor este desafio. O qual, aliás, já era para ter acontecido o ano passado [2020], só que a pandemia veio atrasar tudo e só agora é que vai ser possível levar por diante».

Contribuir para o reflorestamento da Serra da Estrela

Sobre a prova propriamente dita, Armando Teixeira explica que a ideia é passar 24 horas a subir e a descer um percurso que tem zonas onde a inclinação «chega a ser de 30%». Com o propósito, na vertente desportiva, de fixar a distância mais rápida conhecida do percurso durante esse mesmo período de tempo.

Ao mesmo tempo, o atleta quer chamar a atenção para o perigo que este ecossistema corre, em grande parte devido aos incêndios e que acabaram agravando a desertificação.

Através de uma união de esforços com o Movimento Estrela Viva, o qual tem previsto levar a cabo uma ação de reflorestação com a plantação de «200 árvores autóctones», já em outubro próximo, Armando Teixeira quer aplicar todos os fundos recolhidos com as 24 horas de KM Vertical na plantação de, «pelo menos, mais 200 árvores».

Para tal, o atleta da Maia precisa do apoio de todos os portugueses, nomeadamente através da compra de quilómetros – 2€/km – que farão que Armando se mantenha a correr durante as 24 horas, ao mesmo tempo que os fundos servirão para comprar e doar árvores para a reflorestação da Serra da Estrela. Como fazer para participar? Simples, basta ir ao site www.kmvertical.pt!

Um treino em pandemia

Quanto à preparação, o português assume que, especialmente com a pandemia, não foi algo fácil, já que «trata-se de uma prova muito específica, num percurso com cerca de 3.700 metros, um desnível positivo de 1.000 metros e zonas onde a inclinação chega aos 30%. Ora, eu sou uma pessoa da cidade, moro na Maia, onde não há grandes montanhas em redor. Assim, e consequência também do ano atípico que passou, acabei por, num ano inteiro, ir apenas uma vez treinar à Serra da Estrela. Tirando isso, e além de algumas idas a zonas um pouco mais montanhosas próximas de casa, fiz treino de condicionamento e de força no ginásio e, em casa, na bicicleta».

De resto, «trata-se de um desafio, também para a minha equipa», explica, descrevendo-o como «um desafio em termos logísticos, embora, no final, o segredo para alcançar os objetivos propostos, resida na estratégia e na força mental».

A par destes aspetos, a preparação tem passado igualmente por um trabalho de retaguarda com o meteorologista Vítor Baía, «o homem que acompanhou, em termos meteorológicos, o João Garcia nas suas subidas às grandes montanhas do mundo e que é uma pessoa que conhece a Serra da Estrela como ninguém».

Assim, previsto para a região e para o fim-de-semana de 1 e 2 de maio está, segundo Armando Teixeira, «uma descida acentuada da temperatura, vento forte, aumento da humidade, o que faz antever que possa mesmo existir neve no ponto mais alto da serra».

Armando Teixeira é um atleta experimentado em terrenos difíceis como aqueles que irá encontrar neste KM Vertical
Armando Teixeira é um atleta experimentado em terrenos difíceis como aqueles que irá encontrar neste KM Vertical

Panorama que, ainda assim, não o preocupa, o qual recorda que, «inicialmente, o nosso objetivo até era fazer este desafio no inverno, algo que só a pandemia conseguiu impedir. Pelo que, nesta altura, mais problemático só mesmo se o vento e o frio se conjugarem…».

A ajudar à confiança surgem as sapatilhas escolhidas pelo atleta para enfrentar as agruras da montanha, as Salomon Sense Ride 3, das quais, assume, «sou um fã incondicional, desde a origem. Embora reconheça a enorme evolução que registaram da 3 para a 4, com uma melhoria da tração, do amortecimento, do Contagrip e da estabilidade».

«É, sem dúvida, uma sapatilha com a qual eu me identifico, acima de tudo por ser muito versátil – tanto dá para correr como para andar no dia-a-dia», comenta o hoje em dia também investigador e treinador de atletas de Trail.

FOTOS: Matias Novo