El Comandante. Ricardo. O Ribas. Um dos grandes nomes do Atletismo nacional, Ricardo Ribas deu o seu adeus ao mundo competitivo, deixando um legado que agora será prosseguido fora das pistas e das estradas. Entre hoje e quarta-feira, acompanhe a entrevista a um dos atletas que deixou marcas em várias gerações.

Antes de tudo, ao olhar para trás, trilhou o caminho que sonhou ou superou todas as suas expetativas?
Eu alcancei todos os meus sonhos, consegui tudo aquilo que me propus, sempre com os pés bem assentes na terra. Objetivo a objetivo, fui a caminhar degrau a degrau até ao topo do Olimpo. Olho para trás sem mágoa e sem frustração alguma, fiz tudo o que estava ao meu alcance.

Porque agora a reforma? Não em 2020, não em 2022? Porque 2021?
Confesso que ainda tinha umas contas a ajustar com a Maratona… Nas duas últimas desisti e tinha uma marca em mente. Mas também sempre disse que, quando julgasse que o meu corpo não reagia como eu pretendia, jamais me iria arrastar em competição. Todavia, também cheguei a conclusão de que não posso ficar chateado com a distância que muito me valorizou na carreira. Fizemos as pazes e decidi terminar porque era a única distância onde eu poderia fazer algum resultado.

Qual a corrida no Atletismo que mais mágoa, dor deixou na memória do Ricardo Ribas? Porquê?
É impossível não falar no Nacional de Corta-Mato de 2016, nas Açoteias, onde estava no meu melhor momento de sempre ao nível de Corta-Mato. Analisei os meus adversários e, como sou uma pessoa de ideias fixas, meti na cabeça que, naquele dia, só um atleta me poderia ganhar, que era o Rui Silva. O problema foi o Nelson Cruz ter ido embora… Mas não o menosprezei, que eu o conheço há muitos anos, simplesmente nunca o vi à minha frente. Ataquei a faltar 1 km e cheguei a meta a festejar. Quando disseram que tinha sido segundo, não acreditei.
Eu ainda brinco com isso, que nunca fui, mas sei o que é ser campeão de Cross Longo por uns 30 segundos. Quando encontro com o Nelson Cruz, brinco sempre com ele. Não posso dizer que ganharia a prova, isso jamais poderei dizer, mas o que posso garantir é que não dei tudo para o conseguir, estava desconcentrado. Posso dizer que chorei com o segundo lugar. E chorei muito!

E qual a corrida que não esquece hoje, aquela que recorda sempre quando acorda?
A Maratona de Dusseldorf, em 2016, onde consegui a marca de qualificação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. A organização tinha uma lebre até aos 26/28 km a marcar o ritmo. Era um grande amigo meu, o brasileiro Daniel Chaves. Para quem precisa de marca e vai à justa, os 26/28 km não é nada, aquilo ainda nem começou… Então decidi perguntar ao Chaves se ele estava disposto a fazer mais quilómetros, que eu pagava o que ele quisesse. Negociámos eu, ele e um atleta alemão, que também queria alcançar a qualificação olímpica. O Chaves foi até aos 36 km de prova. No final, ele disse-me que o melhor eu já lhe dera, ter alcançado a marca olímpica. Hoje o Daniel está qualificado para os Jogos de Tóquio e diz que aprendeu a correr a Maratona comigo.

O que o Ricardo Ribas retirou do Atletismo para a sua vida diária?
O Atletismo deu-me tudo. Tenho uma grande dívida com o Atletismo. Eu conheci o mundo, culturas diferentes… Se não fosse o Atletismo, jamais teria visitado alguns países. Percorri todos os cantos do planeta, tenho grande amigos no mundo devido ao Atletismo… Não há dinheiro que pague a riqueza que o Atletismo deu-me.
A nível pessoal, ganhei uma confiança enorme, acredito mais em mim. Jamais irei duvidar das minhas competências como um grande profissional, seja em que área for.

O Ricardo Ribas, ao ver hoje o Atletismo, é algo muito diferente do que via quando era mais novo? Quais as principais diferenças?
Escolas completamente diferentes. Apanhei a escola e a mentalidade do Atletismo que servia para fugir do interior e ir para os grandes centros, com 3,4 clubes a apostar em centros de estágios, onde havia 4,5 treinadores em Portugal, onde se pagava muito bem a nível monetário para, quando se abandonasse a modalidade, estarmos minimamente orientados. A par disso, tentava-se arranjar uma profissão: bancário, GNR, polícia, professor… O objetivo era organizar o futuro do atleta.
Depois veio a escola do Atletismo dos recibos verdes, o Atletismo que eu chamo Chapa ganha, Chapa gasta. Ou seja: ou és dos melhores do Mundo ou então não consegues ter a estabilidade emocional que um atleta tanto precisa para conseguir o sucesso.
Pode haver pistas, pode haver condições, pode haver o que quiser, mas, se um atleta não tiver estabilidade emocional, por muito bom que seja, será complicado atingir o desempenho ideal. E sei do que falo.

Na terça-feira, as referências na carreira e na vida pessoal, assim como o treino que detestava de fazer… e nunca o fez!