Para comemorar os seus 40 anos, e impossibilitada de festejar com os amigos e familiares, Inês Henriques resolveu ir a Fátima, uma corrida de cerca de 53 km completada em 4h22. No final, o silêncio e o vazio do Santuário acabou por ser a melhor prenda que poderia ter recebido nesta data tão especial.

Há quanto tempo ponderou este desafio pessoal?
Necessitei de começar a treinar em circuitos diferentes para, psicologicamente, conseguir gerir melhor a situação do confinamento social.
Devido ao isolamento, não poderia celebrar o meu aniversário com amigos, mas queria fazer algo diferente, uma fez que eram os meus 40 anos e queria ter um momento marcante. Comecei a pensar em ir a Fátima a correr cerca de uma semana antes, mas a decisão foi tomada no sábado anterior, quando estava a fazer um treino longo de 20 km de marcha.
Como não podia ir no dia 1 de maio, devido às restrições de circulação, tinha de ser antes, quarta ou quinta-feira.
Informei o Jorge Miguel, depois pedi ajuda à minha irmã e lá fomos nós na quarta-feira.

E a escolha do local? Alguma razão especial?
Pela nossa Senhora de Fátima.

Mas é uma pessoa religiosa?
Acredito que existe algo que nos ajuda, mas que nós temos de fazer a nossa parte.

É normal a Inês Henriques fazer este tipo de sessões longas na sua programação normal de treinos?
Desta forma não. Realizo treinos longos até 40 km a marchar, mas sempre em circuito.

Escreve o seguinte na sua página do Facebook: «A chegada foi emocionante (…) O sentimento foi muito similar ao que tive quando cortei a meta nas competições de 50km de Marcha quando conquistei as medalhas.» Uma prova concreta de que vencer um desafio pessoal é tão grande ou similar do que ganhar uma medalha olímpica ou mundial?
Para mim, e em termos de sentimento, foi algo muito similar. Realizar mais de 50 km a correr, num percurso tão difícil, e conseguir ter prazer é sempre algo fantástico de superação. E eu estava a necessitar de superar-me! E conseguir chegar e alcançar o meu desafio naquele lugar foi algo maravilhoso.

Também escreve que, quando chegou, o Santuário de Fátima era praticamente seu, por estar deserto. Foi a melhor chegada que poderia ter?
Sim! E as imagens que a minha irmã captou demonstram isso: harmonia e paz…

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O desafio em si foi mais complicado do que imaginou?
Já o tinha realizado em 2004, após os Jogos Olímpicos de Atenas, em cerca de 5h00. O que me marcou mais na altura, e o que recordava agora, foi da descida acentuada para Minde e, posteriormente, uma subida.
Queria chegar o mais rápido possível, mas queria também desfrutar do momento e não ficar fisicamente muito desgastada. De alguma forma surpreendi-me da relativa facilidade com que o consegui fazer.
É verdade que, nos últimos 10 km, com algumas dores musculares, principalmente nos gémeos, uma vez que não estou habituada a correr distâncias tão longas e isso refletiu-se nos últimos quilómetros, mas, em termos cardiovasculares, estive sempre bastante bem.  

Como viveu esta pandemia?
Não é fácil para ninguém, mas eu sou uma privilegiada por viver numa aldeia e numa vivenda com jardim e muito terreno em que tenho sempre muitas atividades para fazer.
Estou a treinar só uma vez por dia, marcho na estrada e corro na mata próximo de casa. O resto do trabalho de complemento do treino realizo em minha casa, que agora também passou a ser o meu ginásio.

Curiosamente, se não estivéssemos a viver a pandemia, provavelmente não teria feito este desafio. Ou não?
Se não existisse a pandemia estávamos em altura de competições e nunca o poderia fazer nesta altura.

A parte mais gratificante e a mais complicada deste desafio?
O mais complicado foram os dois dias seguintes, que mal conseguia andar com as dores musculares, uma vez que não tive massagem para recuperar.
O mais gratificante foi chegar e o santuário ser só meu e de Nossa Senhora de Fátima.

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