El Comandante Ricardo Ribas acredita que Portugal vive um grande momento no Atletismo, com muitos talentos. O problema é construir uma estrutura para os jovens atletas e… as redes sociais.

Na sua opinião, o que define um corredor?
Tem que ser um apaixonado pela corrida. Ninguém o vai buscar a cama, ninguém para treinar… Ou se gosta ou não se gosta! Depois, a capacidade de sofrimento. Todos temos, uns mais, outros menos, mas a paixão pelo treino e pela corrida é o mais importante.

Como encara o atual estado do Atletismo nacional?
Talentos em massa que até dá gosto de ver. E quem não vê isto é porque não quer ver ou porque gosta de criticar por criticar.
No entanto é necessário dar condições de estabilidade emocional aos jovens atletas. E não falo a nível monetário, falo ao nível de estabilidade emocional futura, a nível escolar, profissional, familiar. Na minha opinião, um atleta júnior não pode estar dedicado ao Atletismo a 100%, isso é impossível, vai correr mal no futuro, deve-se criar uma estrutura a pensar no amanhã. É essa uma das maiores lacunas em Portugal. Agora, ao nível de valores desportivos, os últimos resultados dos Sub-23 falam por si.

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E as diferenças entre a sua geração e a atual?
Na minha opinião, a grande diferença é o mundo digital, as redes sociais, que fazem com que esta geração não se consiga concentrar. Levar o telemóvel para a pista durante o treino era algo impensável no meu tempo.
Agora treina-se muito e bem, mas, ao nível de descanso, o tal treino invisível, a nova geração o desconhece. Eu próprio, em 2016, tive essa necessidade de o fazer, deixar de ser atleta de Facebook, regressar ao atleta que fora aos 24, 26 anos, às 21h30 estar a dormir. Não é a descansar, era mesmo a dormir. E, de tarde, dormir 3h00 de sesta. Eu dormia 14h/15h por dia. Mas dizer e criticar que esta geração não quer treinar, isso não concordo. O que acontece é que se perde muito tempo nas redes sociais e descansa-se um pouco menos. São os pormenores que fazem os grandes momentos, o cronómetro nunca para, está sempre a contar.

Se não enveredasse pelo Atletismo, qual carreira gostaria de ter abraçado?
Não sou pessoa de “se”. Tenho as minhas paixões e depois é colocá-las em prática. O “se” não nos leva a lado nenhum. Se me perguntas “se” mudava alguma coisa se voltasse o tempo, claro que sim, fiz muitas asneiras, mas também foram elas que me ajudaram a ser a pessoa que sou hoje.

Como vê o seu futuro? O que pretende fazer? Estar ligado ao Atletismo ou esquecer por completo a modalidade?
É uma questão muito pertinente de responder, é daquelas questões que os nossos governantes deveriam fazer quando olham para os atletas de Alta Competição, Alto Rendimento, atletas que levam a bandeira de Portugal ao mais alto nível, uns a ganhar medalhas, outros a bater recordes, mas ninguém se lembra de perguntar «O que estes campeões vão fazer no futuro se eles não têm tempo de se valorizar para mais tarde  entrar no mercado de trabalho?»
O Atletismo deu-me tudo, era impossível abandonar uma modalidade que tanto me apaixona, mas felizmente tive o cuidado de preparar o momento do adeus. Fiz uma formação auxiliar de Fisioterapia e Massagem, onde já exerço; completei o Curso de Treinador GrauII, que me ajudou a colocar um projeto de prestação de serviço no planeamento de treino dedicado a atletas de pelotão, ajudá-los a evoluir, o “Training The Online Distance”; sou o diretor comercial de uma marca desportiva, CCI Sport, onde o objetivo é fazê-la chegar aos clubes de Atletismo; tenho uma marca de roupa patenteada e registada, onde um dia gostava de colocá-la no mercado; sou presidente do Clube de Atletismo Team Elcomandante, sediado na Associação de Atletismo de Braga, onde temos 72 atletas federados; e tenho uma grande paixão pela hotelaria, onde, quando posso, vou ajudar o meu cunhado a fazer pizas na Pastelaria Doce Recheio.


Os meus amigos dizem que não sabem como consigo gerir o tempo. Eu adoro colocar todos os meus neurónios disponíveis a trabalhar e, se houve competências que o Atletismo me deu, foi a de gestão. Um atleta de alta competição é dos melhores gestores do mundo, tanto a nível de tempo como de emoções. Se muitas empresas soubessem, talvez muitos ex-atletas não passavam por dificuldades, como é do conhecimento de todos, já que dizer que representou a seleção por 34 vezes é bonito, mas não chega nem serve de nada no nosso dia a dia.

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Por último, quais conselhos o Ricardo Ribas pode dar para um atleta mais novo?
Jamais, em tempo algum, se dedicar exclusivamente ao Atletismo sem ter o futuro minimamente assegurado, será o maior erro das suas vidas. Dificilmente vão ter capacidade emocional total, a não ser que tenham um poder e um apoio muito grande a nível familiar.
E ter calma. A resiliência é o principal trunfo na vida de um desportista.Por último, como surgiu a alcunha “El Comandante” e até que ponto a mesma define o atleta Ricardo Ribas?
“El Comandante” define na perfeição o atleta Ricardo Ribas. Rigoroso, líder, perfecionista, disciplinado.
A alcunha surgiu já como treinador. Num treino, um grupo fazia muita confusão e tive que erguer a voz. O Manuel Mendes disse: «Isto é pior do que na tropa, o El Comandante não brinca.» Depois comecei a festejar as vitórias com esta alcunha, também os meus atletas, e acabou por ficar…

Fotos cedidas por Ricardo Ribas