E que tal uma Volta a Portugal em bicicleta em plena pandemia… a partir do telhado? Isto foi o que fez Rodrigo Machado, que, entre outras coisas, é o corredor da Lisbon Running Tours. Foram 1669,34 km a percorrer o nosso país por uma janela.

Como e quando surgiu esta Volta a Portugal no telhado?
Percebi que ia ficar confinado ao meu espaço algum tempo. Como as minhas atividades profissionais estão diretamente relacionadas com uma boa forma física, ficar parado não era boa solução. No entanto, sou uma pessoa do ar livre e dos grandes espaços e sempre tive sérios problemas motivacionais a treinar em espaços fechados, concretamente em casa. Tinha a bicicleta estática e instalei-a na sala por baixo de uma janela que tenho no teto, uma vez que vivo no último andar. Nos primeiros dias ia pedalando alguma coisa e, olhando para cima, via o céu, nuvens e pouco mais. Assim, pensei que, se conseguisse colocar a bicicleta em cima de algo seguro, sairíamos ambos pela janela e os meus treinos poderiam passar a ser ao ar livre e a ver a vista ampla e desafogada que tenho. Com algum engenho e socorrendo-me apenas de materiais que tinha em casa, consegui fazer o que queria. Nesse dia em concreto, estava um céu limpo, um sol radioso e o treino foi muito gratificante. No dia seguinte, em conversa em rede com uma amiga e em modo de humor, perguntei-lhe: «Onde vou hoje?» Ela sugeriu-me Ericeira, vi no Google Maps a distância que seria e sentei-me para o treino do dia decidido a fazer os 41 km. Durante o trajeto, e no meio dos meus pensamentos e a sentir-me bem, decidi que continuaria e tentaria pedalar o equivalente a uma volta completa ao país como forma de me manter motivado.

Este desafio serviu, de certo modo, como uma motivação para reduzir o constrangimento do confinamento social?
Serviu e muito! Foi a melhor decisão que tomei! Como disse acima, sempre tive muitos problemas de me manter motivado a treinar se não tiver objetivos concretos, desafiantes e, ao mesmo tempo, uma envolvência e um tipo de atividade que me mantenha animado e me crie aquela sensação tão boa e única de me superar. Talvez por isso nunca tenha treinado em ginásio.

E como foi escolhido o percurso? Qual foi a sua ideia?
Na altura decidi que ia dia a dia vendo o que fazer. Nos primeiros dias até lancei o desafio aos meus seguidores nas redes sociais de me sugerirem um destino… Foi curioso e divertido ver estas sugestões e assim fui seguindo. Depois comecei a tomar decisões como se realmente estivesse no percurso, o que eu iria fazer e onde desejaria ir. Marcava a rota no Google Maps, via a distância que dava e saía para a etapa do dia. Houve dias em que saí sem destino e, no final, via pela distância onde tinha chegado, algo que por vezes faço nas minhas viagens. Parto de manhã sem saber o destino.

Pedalou sempre à mesma hora? Manteve essa rotina?
Não, nunca tive rotina. Era para mim fundamental e para o meu estado emocional neste confinamento a procura constante de fazer as coisas com vontade, animado e tirando o máximo prazer das mesmas. Gosto de fazer grandes viagens sozinho. Essa forma faz com que eu seja o dono total do meu tempo e das minhas decisões e assim poder viver a minha experiência em pleno e tirar o máximo partido disso. Esta “Volta a Portugal a pedalar a partir do meu telhado” era uma experiência nova e virtual, mas havia um fator comum às minhas outras aventuras: eu! Por esta razão era importante manter certas características que fazem partem de mim e da forma como encaro os meus desafios.

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Quantos dias foram precisos para o Rodrigo terminar esta Volta a Portugal no telhado? E, em termos gerais, como decorreu?
No total foram precisamente 30 dias a pedalar que, por uma razão ou outra, intervalei com alguns de descanso e recuperação física. Sou atleta de várias disciplinas e o meu corpo nunca se deu bem com a rotina física, o que é precisamente o tipo de atividade ao pedalar em uma bicicleta estática. No geral, a experiência foi positiva. Parecendo que não, e por estar sempre no mesmo local, aprendi coisas novas e tive também experiências giras. O primeiro contratempo surgiu com a chuva. Para mim não fazia sentido parar, ao mesmo tempo que também não fazia sentido deixar que a sala se enche-se de água… Assim, nessa manhã, resolvi o assunto com plásticos, molas e criatividade. Não parei da mesma forma que, estando em uma viagem real de bicicleta, jamais a chuva me impediria de prosseguir. Aproveitava esse tempo para fazer vídeo chamadas para familiares e amigos, responder a mensagens e e-mails e assim nos mantermos juntos socialmente enquanto afastados fisicamente. Esses momentos eram gratificantes e ajudavam muito na distração e motivação de um treino tão estático e confinado. Para o final já não conseguia ter a mesma animação do início. Comecei a acusar desgaste e saturação e houve dias em que me sentei para treinar com pouca ou nenhuma vontade. Mas este desafio surgiu precisamente com este objetivo: motivar-me e obrigar-me a treinar enquanto fechado em casa.

E qual foi a etapa mais longa desta Volta a Portugal no telhado? Quantos quilómetros e horas? E de onde para onde?
A etapa mais longa foi cerca de 83 km, que realizei em praticamente 3 horas, entre Castelo Branco e Alter do Chão. O dia estava lindo, muito Sol, mesmo a queimar… A seleção de músicas que me acompanhavam estava perfeita e impelia-me a continuar e assim a motivação estava ao máximo. Foi nesta etapa que reparei e comecei a divertir-me com vizinhos ao longe que já identificavam a minha presença regular a pedalar no telhado e de alguma forma tentavam interagir comigo. Houve mesmo quem me tirasse uma fotografia e que me fez chegar.

Leia na sexta-feira a conclusão desta entrevista, com as 10 aprendizagens retiradas por Rodrigo Machado desta aventura.