Mary Cain

Apontada, enquanto juvenil, como uma das maiores promessas do Atletismo dos EUA, Mary Cain acabou sendo uma das vítimas do outrora respeitado treinador Alberto Salazar e do programa de excelência patrocinado pela Nike, Projecto Oregon. Experiência que a meio-fundista, agora com 23 anos, acaba de tornar pública, em entrevista ao New York Times.

Aos 16 anos, tudo parecia correr pelo melhor a Mary Cain. Ainda juvenil, a atleta nova-iorquina somava então recordes, fixando novas marcas nos 1.500 e 5.000 metros, ao mesmo tempo que, nos 800 metros, realizava mesmo a melhor marca mundial da categoria, ao fazer menos de dois minutos na distância!

No entanto, tudo haveria de mudar, mas para pior, com o convite do treinador Alberto Salazar para integrar o Projecto Oregon, o programa de excelência da Nike para o Atletismo.

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Segundo revela a atleta ao New York Times, o programa de treino desenhado pelo treinador cubano, naturalizado norte-americano ainda criança, tinha a característica fundamental de ser um plano «desenhado por e para homens», que não tomava em linha de conta as especificidades do corpo feminino.

Vítima de humilhações no treino

«A equipa de treinadores, composta apenas por homens, estava convencida de que eu só conseguiria tornar-me melhor caso perdesse peso, e mais peso, e mais peso…», recorda Mary, salientando o facto de, na altura, o projecto não contar com qualquer técnico de apoio psicológico para os atletas ou nutricionista.

Perseguida por não possuir  aquilo que os seus treinadores consideravam ser o peso, Mary Cain terá sido alvo de humilhações e más práticas de treino
Perseguida por não possuir aquilo que os seus treinadores consideravam ser o peso ideal, Mary Cain terá sido alvo de humilhações e más práticas de treino

A norte-americana recorda que, na altura, Salazar havia fixado como peso ideal para ela os 51 kg. Sendo que, de acordo com o testemunho da atleta, o treinador não só a obrigava a pesar-se em frente aos colegas, como forma de a pressionar psicologicamente, como chegava a humilhá-la publicamente, sempre que o peso ficava acima do desejado.

Resultado também desta política de treino, Mary terá estado cerca de três anos sem período menstrual, ao mesmo tempo que, devido à debilidade em que o seu organismo se encontrava, foram pelo menos cinco as fraturas ósseas que registou.

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«Sentia-me só, assustada, enjaulada. Foi aí que comecei a ter pensamentos suicidas», recorda Mary, que, ao New York Times, assume que chegou mesmo a auto-mutilar-se por diversas vezes.

A americana estava então a chegar ao seu limite

Salazar desmente Mary Cain, Nike promete investigar

As acusações da jovem atleta foram, no entanto, já negadas por Salazar, que comentou as declarações da ex-pupila.

«O pai de Mary é médico e os seus pais estiveram profundamente envolvidos nos seus treinos e estado de saúde durante todo o período em foi treinada por mim. Nenhum dos seus pais, nem Mary, revelaram nenhum problema que agora refere a atleta. Para sermos claros, nunca a animei a ter um peso pouco saudável ou, pior ainda, a envergonhei diante dos outros», assegurou Salazar ao The Oregonian.

O ex-treinador garantiu ainda que o projeto tinha um nutricionista e um psicólogo desportivo, aproveitando a ocasião para revelar uma mensagem partilhada com Mary Cain, no último mês de abril.

«Muito obrigado por esta grande viagem. Estou emocionada em voltar a trabalhar novamente juntos e realmente quero isto.»

Entretanto, a Nike já anunciou que vai investigar as declarações de Mary Cain. Através de um comunicado, a norte-americana revelou que levaram a «muito a sério» as acusações a jovem atleta, o que faz com que seja aberta «uma investigação imediata para escutar os ex-atletas do Projeto Oregon».

«Sempre procuramos na Nike situar o atleta no centro de tudo o que fazemos e estas acusações são completamente contrárias aos nossos valores.»