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O CORREDORES ANÓNIMOS foi criado para falar do Mundo da Corrida, procura centrar num único local as questões que movem os corredores. Pretendemos falar com os principais nomes do desporto, como é o caso de Carlos Sá, mas também oferecer aos nossos leitores as notícias e as novidades da modalidade, assim como esclarecer dúvidas com os nossos especialistas. No entanto, neste trabalho, não poderia faltar a presença do corredor do “pelotão”, o anónimo, aquele que não falha o seu treino, o corredor que leva a corrida no seu coração, o mesmo que, aos fins-de-semana, preenche de cor e alegria as ruas de Portugal e do mundo, seja a fazer uma caminhada, uma prova de 10 km, uma Meia-maratona, uma Maratona ou um Ultra-trail. Este atleta amador merece o nosso destaque tanto ou mais que o profissional, já que faz da corrida a razão da sua existência, uma prova de todos e para todos. Hoje apresentamos o nosso primeiro CORREDOR ANÓNIMO, ou melhor, a nossa primeira CORREDORA ANÓNIMA…

 

Margarida Bleck Cunha Reis, de 47 anos, será uma das dezenas ou centenas de portugueses presentes na “Medio Maratón Gran Bahía Vig-Bay”, agendada para o próximo domingo, uma prova realizada no litoral da Galiza que passa por Vigo, Nigrán e Bayona. Casada, trabalhadora a tempo inteiro, mãe de um filho com 15 anos, descobriu a corrida há um ano. «Viciei-me», confessa.

A nossa CORREDORA ANÓNIMA vai participar pela primeira vez na “Medio Maratón Gran Bahía Vig-Bay, embora não seja virgem na distância. O seu melhor tempo foi alcançado em janeiro último, em Viana do Castelo, um honroso 1h56. Agora é a vez de desbravar as ruas espanholas, numa prova considerada de uma beleza ímpar por ser disputada ao longo da Costa, mas também por ser «muito bem organizada».

«Como fica próximo do Porto, achei que seria uma boa prova para participar», refere Margarida Reis, que não espera alcançar um grande tempo, tudo devido a um inesperado esgotamento muscular, o que fez com que abrandasse os treinos no último mês.

«O meu rendimento baixou muito, mas espero concluir a prova com um sorriso aberto e, acima de tudo, divertir-me.»

margarida3Do habitual treino específico de seis semanas que costuma fazer antes das meias-maratonas, teve de reduzir a carga para quatro treinos por semana, divididos resumidamente do seguinte modo: um treino de séries, dois de 10 km e um de cerca de 15/18 km.

«Penso que a minha maior dificuldade será manter o ritmo médio que tenho como objetivo durante os 21 km. Acho que não vou conseguir, mas farei o meu melhor. Tenho apenas a certeza de que vou concluir a prova, embora num ritmo inferior ao desejado.»

Hoje «viciada» no running, Margarida Reis não era uma adepta da corrida, embora sempre tenha praticado algum desporto. Por exemplo, foi nadadora de competição, praticante de ginástica aeróbica durante muitos anos e jogadora de golfe. Mas tudo mudou há cerca de um ano…

«Por motivos pessoais deixei de fazer exercícios com regularidade, apenas caminhadas e passeios de bicicleta. No ano passado uma grande amiga ofereceu-me um voucher de um mês para um ginásio e, para além das aulas de ginástica, comecei a correr na passadeira. Fui evoluindo de dia para dia e a ganhar o gosto pela corrida. Quando terminou o prazo do voucher não continuei por motivos financeiros e a minha monitora, a quem me tinha já aficionado, pediu-me para não deixar de fazer exercício, que eu era ainda uma excelente atleta e que devia começar a correr na rua, que era grátis e fazia bem à saúde. No dia seguinte fiz-me à estrada sozinha… Comecei a correr duas a três vezes por semana, sem falhar, e a colocar a mim própria metas e objetivos. Competitiva como sou, em poucos meses já estava a correr os 10 km.»

A nossa CORREDORA ANÓNIMA não corre por tempo, mas pela sua saúde e para manter a boa forma física. «O segundo objetivo é conseguir relaxar e abstrair-me dos problemas e do trabalho. Passei a ter outros propósitos e deixei de ser uma pessoa muito estressada como era. Sou muito mais feliz desde que comecei a correr.»

Ao olhar para o que a corrida trouxe para o seu dia-a-dia, Margarida Bleck Cunha Reis não se contenta com as palavras. No seu longo discurso, uma conclusão: ganhou tempo para si própria, o mesmo tempo que tem de ser gerido ao segundo.

margarida«É inacreditável como a corrida mudou o meu dia-a-dia e a minha própria vida, é uma grande diferença. Como casada, trabalhadora e mãe que sou, tive de me organizar de outra forma, de maneira a encaixar os quatro treinos semanais na minha agenda. No entanto, com vontade tudo se consegue. É verdade que não é nada fácil de gerir, ando sempre de um lado para o outro. Aproveito todos os minutos para adiantar algo, nunca paro e o descanso é muito pouco. Tenho de estar sempre a equilibrar as coisas para tentar fazer um pouco de tudo e cumprir com as minhas responsabilidades. Mas sem sacrifício nada se consegue na vida. Deixei de ter tempo para ler, ver televisão e de viver um pouco apenas para o meu filho. Passei a organizar o tempo também para mim, o que não fazia há muitos anos.»

Margarida Bleck Cunha Reis sente-se hoje forte e cheia de “genica”. «Perdi algum peso e ganhei massa muscular», refere. «Sinto-me uma nova pessoa, de quem gosto muito mais. Tornei-me mais confiante e feliz.»

Boa forma física e o alívio de stress são os principais benefícios que a corrida trouxe a sua vida, além de disciplina, já que CORREDORA ANÓNIMA confessa que a principal dificuldade da modalidade «é conseguir treinar com assiduidade todas as semanas, gerir todas as responsabilidades de casa, trabalho e filhos. Acredito que muitas mulheres desistem por isso, não é fácil…».

Margarida Reis recorda que, no início, quando começou a correr com regularidade, saía para as ruas sozinha. Mas a competitividade que traz em si fez com que se juntasse a um grupo. «É muito raro treinar sozinha hoje em dia». Grupo que acaba por ser fundamental para não falhar os treinos, embora acredite que não seja preguiçosa…

«Por norma não sou preguiçosa mas há dias em que custa mais treinar. Mas a minha regra é nunca pensar no assunto, o que tem de ser é. Treinar faz parte do essencial do dia tal como comer e dormir. Quando é dia de treino é para cumprir, toca a vestir e sair de casa, faça sol ou chuva! Nunca paro para pensar. Por vezes custa sair de casa, mas depois sabe sempre bem, sempre!»

margarida2Com o tempo de 52m00 nos 10 km, Margarida Reis não esquece a sua primeira Meia-maratona, que ocorreu na sua cidade, o Porto, em setembro do ano passado. Agora sonha com uma maratona, «a prova mítica do atletismo e onde testamos a nossa capacidade física e mental». Quando corre, a nossa atleta corre por prazer, mas admite que esforça-se por melhorar o tempo, «mas com muita calma e ponderação».

Por último, a questão obrigatória: como analisa o “boom” da corrida no nosso país?

«Acho maravilhoso este movimento, dá-me imenso prazer ver as pessoas a mexerem-se, a cuidarem-se, a fazerem exercício ao ar livre, é algo muito saudável. Haja muitas modas como esta! Sem dúvida que este “boom” foi em grande parte causado pela crise dos últimos anos em Portugal, que tirou as pessoas dos ginásios por motivos financeiros. A alternativa foi fazer exercício ao ar livre, algo grátis. Também o aumento de provas e eventos, como as corridas e caminhadas, começou a cativar as pessoas. Portugal não tem uma cultura desportiva e acho que, aos poucos, essa realidade está a mudar. Acredito inclusive que este “boom” será notado no futuro no desporto nacional em termos de resultados, mas daqui a uns anos e gerações.

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