Foto: My Best Runs

A lutar contra um cancro na próstata desde 1999, Bill Anderson, 72 anos e o 10.º corredor com mais quilómetros na lista oficial dos EUA, perdeu a corrida contra o linfoma no final de 2020. A doença nunca o impediu de correr pelo menos uma milha (1,6 km) todos os dias ao longo de mais de 44 anos.

«Bill Anderson era um lutador», comentou o seu irmão e diretor do site My Best Runs, Bob Anderson, acrescentando que «eu sei que ele não deixou de se sentir orgulhoso por ter conseguido correr sempre a sua milha, até 10 dias antes de morrer».

Bill Anderson começou a correr no dia 27 de setembro de 1976, em Forth Worth, Texas, EUA, sendo que, a partir daí, o americano nunca deixou de correr pelo menos uma milha todos os dias.

«O meu irmão Bill nunca teve uma lesão», recorda Bob, algo que o próprio Bill explicou em 2018 os motivos para tal acontecer: «Os ténis são o segredo desconhecido para evitar lesões. No meu caso, eu procuro ter os meus sempre em excelentes condições».

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A par dos ténis, «em segundo lugar corro sempre dentro das minhas possibilidades; em terceiro faço por desfrutar em todas as corridas; e, em quarto, conheço-me suficiente bem para conseguir antecipar quaisquer problemas antes destas acontecerem».

Num post publicado no Facebook, foi a própria filha de Bill, Barb, a comunicar que «a caminhada terminou», não deixando de recordar que tinha apenas dois anos quando o pai começou a correr, tendo este continuado por «44 anos, dois meses e 25 dias».

«Objectivos? Fazer pelo menos uma milha no exterior com ténis de corrida», acrescenta.

Passados alguns anos, «quando eu estava no colégio, comecei a correr com ele. A primeira vez que corri seis quilómetros estava com o meu pai e tínhamos cerca de meio quilómetro pela frente, toda uma colina à frente. Eu estava pronta para desistir, quando ele me disse, calmamente: ‘Neste ponto é realmente apenas uma questão de caráter.’ E eu não parei.»

Bill Anderson era o décimo corredor com mais quilómetros somados, nos EUA. Foto: My Best Runs

«Corri com ele várias distâncias, em vários locais, por vezes em corridas oficiais e às vezes apenas à volta do bosque. Ele, no entanto, correu em todos os estados, em dezenas de países, sob incríveis variações de temperatura e condições climatéricas, fusos horários, neve, vento, chuva, cirurgias ao cancro da próstata, cancro da bexiga, Parkinson, nove ciclos de quimioterapia, uma apendicite e a idade…».

Dois dias antes desta publicação, no dia 21 de dezembro, Barb recorda que a sua mãe praticamente o empurrou pela porta da frente, «seguindo-o, a partir daí, uma última vez de carro, embora preocupada com o seu estado mental». Sendo que, no dia seguinte, 22, «corri com ele […], sem saber, mas de alguma forma sentindo, a aproximação do fim da corrida».

«Recordámos as nossas corridas mais memoráveis ​​juntos – como daquela vez quando um pequeno buldogue surgiu do nada e correu ao nosso lado durante pelo menos um quilómetro. Ambos chegámos a pensar que o cão ainda teria uma paragem cardíaca, até que, em determinado momento, desistiu. Quando voltámos para casa, ainda entrámos no carro com o objetivo de ir procurá-lo, pois estávamos convencidos de que ele estava morto, perdido ou ambos. Nunca o encontrámos»

Finalmente, no dia 23, «depois de ser levado à pressa para o hospital, ele próprio anunciou, com dignidade, força e sem pesar, que a sequência havia acabado», revela a filha daquele que se despediu como o décimo corredor com maior número de quilómetros somados nos EUA.

«O meu pai sempre foi meu herói», recorda Barb, terminando com uma mensagem emotiva:

«Pai, hoje eu fui correr e, apesar de ter chorado durante metade do percurso, corri com um novo propósito e acabei dessa forma. Amo-te.»