Após criticar os critérios de escolha da Federação Portuguesa de Atletismo para o Europeu de Corta-mato de Lisboa, no dia 8 de dezembro, Ercília Machado volta ao ataque, desta vez mostrando… factos!

Em Portugal é raro ver atletas a levantarem a voz, mostrarem a sua indignação perante injustiças que, segundo os mesmos, são evidentes.

Deste modo, só por isso a atitude de Ercília Machado já tem valor e é meritória, já que permite o debate entre todos, mesmo que seja através das redes sociais.

O seu primeiro post foi a prova disso, pois levantou muita discussão no Meio da Corrida nacional, uns a defenderem as argumentações de Ercília Machado, outros o contrário, com a atleta a receber inclusive alguns insultos pessoais, algo realmente lamentável.

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Por isso, é com naturalidade que vemos a resposta de Ercília Machado aos ataques que foi alvo no seu mais recente post, como deixa claro logo no dois primeiros parágrafos, com a atleta a fazer questão de mostrar que os seus argumentos têm os factos como base de sustentação e não o «número de likes no Facebook ou no Instagram»:

«Venho aqui esclarecer a minha opinião face aos critérios de seleção dos atletas ao longo destes anos, sendo que os quais não são, obviamente, escolhidos pelo número de likes no Facebook ou no Instagram.

No momento em que se questiona na praça pública e nas mais diversas modalidades o valor dos atletas, venho apresentar aqui alguns factos concretos que importam ser discutidos para que se possa analisar as situações de forma concreta, os quais dizem respeito a situações decorridas em épocas desportivas anteriores.»

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E, de imediato, Ercília Machado apresenta dois factos e um bónus para justificar a sua indignação:

«1. Na época de 2017, realizaram-se 3 provas de observação para escolher a seleção para o Campeonato da Europa de Corta-mato (Barcelos, Torres Vedras e Amora). Nesse ano, no meu caso concreto, participei no Corta-mato de Torres Vedras, obtendo um 2º lugar a 35seg. da 1ª classificada, Inês Monteiro, atleta que foi selecionada. Dois dias antes da prova principal das seniores femininas, Corta-mato da Amora, notifiquei o Presidente da FPA da minha entrada no hospital nesse mesmo dia pelo que não poderia estar presente na corrida, facto este que não foi tomado em consideração. Na semana seguinte estive presente num Corta-mato em Espanha, onde fui a 2ª portuguesa a 18 seg. da 1ª atleta portuguesa, Catarina Ribeiro, atleta que também foi selecionada. Nessa época (2017), a FPA abriu uma exceção ao levar uma atleta que não fez nenhuma prova de observação. No total, levaram 5 atletas ao Campeonato dos 6 lugares disponíveis.
RESUMINDO… Não fui selecionada mesmo mostrando nas provas estar em bom momento de forma.

2. Na época de 2018, participei na prova principal de apuramento para integrar a seleção para o Campeonato da Europa de Corta-mato (Torres Vedras), ficando em 2º lugar a 1min11seg. da 1ª classificada, Inês Monteiro, atleta já selecionada. Tinha lugar de apuramento; no entanto, a FPA decidiu selecionar a atleta que ficou em 2º lugar na prova de 1500m (estafetas mistas).
RESUMINDO… Não fui selecionada mesmo mostrando estar em bom momento de forma.

Fica aqui mais um facto concreto relativo ao Campeonato Europeu de Pista ao Ar-Livre de 2002, em Munique:

1. Neste Europeu, as lesões impediram a participação de alguns atletas com direito a estarem presentes, casos dos maratonistas António Pinto e Luís Novo (os quais tinham as melhores marcas nacionais), o que fez com que Portugal levasse outros atletas com marcas inferiores nesse ano porque sabiam desde o início que só havia três seleções com o mínimo de quatro atletas, logo bastava todos terminarem para conseguir uma medalha.

2. A equipa escolhida por Jorge Vieira (Diretor Técnico Nacional na altura) para participar na Maratona foi constituída por José Santos (2h20.55), Manuel Pita (2h23.41), Alcídio Costa (2h27.09) e António Sousa (2:27.09), sendo que um dos atletas nem sequer estaria inscrito como atleta federado. António Sousa participou como atleta nesta competição, numa altura em que também exercia a função de Técnico Nacional da Federação para a área da Maratona, tendo sido o principal responsável pela presença da equipa nesta competição.

3. Neste caso em concreto, verificou-se uma grande disparidade de resultados (cerca de 6 min.), o que dá que pensar. Então na altura não interessava se eram atletas de elite, atletas de “pelotão”, se estavam na melhor forma para representar Portugal??? Será que o oportunismo (legitimamente equacionado) desta situação se sobrepôs aos critérios, que agora são impostos com tanto veemência??? Provavelmente e devido à distância temporal transcorrida, já se esqueceram destas situações que se verificaram no passado.»

Ercília Machado em pleno treino
Ercília Machado em pleno treino

Ercília Machado conclui o seu post deixando claro que resolveu levantar este elefante no meio da sala não só e apenas por motivos pessoais, mas por questões muito mais abrangentes que assolam o Atletismo nacional, perguntas que a atleta deixa inclusive no seu novo post.

«Neste momento não se trata de um problema apenas relativo à atleta ERCÍLIA MACHADO, mas sim um problema do nosso atletismo em Portugal. Onde estão as/os atletas? Que apoios têm e quais as medidas para ultrapassar as inúmeras dificuldades existentes?
Boa sorte a todos os atletas que foram selecionados e nos vão representar.»

Antonio Sousa responde…

Responsável técnico da federação, António Sousa já tinha revelado a sua incompreensão com a polémica levantada por Ercília Machado:

«Temos 37 atletas a competir no Campeonato da Europa de Corta Mato, entre eles uma das melhores atletas juniores da Europa, o Campeão da Europa de juniores em 1500m, duas das melhores maratonistas da Europa da última época, uma delas várias vezes medalhada em grandes competições, um punhado de jovens com muito talento… e o destaque das notícias é… sobre a indignação de alguém que devíamos todos ficar indignados por ela achar que podia fazer parte da equipa nacional!
Este mundo está a ficar um local muito perigoso para se viver.»

Em trocas de opiniões nas redes sociais, António Sousa chegou a comentar ironicamente um dos argumentos de Ercília Machado, que não compreende por qual razão Portugal apenas apresenta três atletas femininas seniores numa prova realizada no país.

«Seniores Femininas: 21 países/68 atletas (média:3,2 por país)
Áustria 1
República Checa 1
Finlândia 1
Alemanha 3
Grécia 1
Luxemburgo 1
Malta 1
Noruega 3
Suíça 3
Suécia 1
Ucrânia 3

Em conversa com o responsável pelas classificações, ele garantiu-me que ainda não seria desta vez que iriam ter na chegada alguém a perguntar aos participantes o que é que treinam, nem a que horas treinam e que, provavelmente injustamente, nada disso iria fazer alterar a classificação após a chegada.
“…ás vezes em vez de mandarem bitaites se tivessem o cuidado de tentarem pelo menos saber das coisas como elas são na verdade, não faziam certas figuras…” tristes!»

E agora, pouco tempo depois de Ercília Machado ter publicado o seu nome post, António Sousa respondeu de imediato, também com um novo post:

«Ranking nacional da maratona

2001
1.º Antonio Pinto, 2h09’36, Londres (22.04);
2.º Luís Novo, 2h10’28, Viena (20.05);
3.º António Sousa, 2h13’10, Roterdão (22.04);
António Sousa, 2h15’26, Veneza (28.10);
4.ª Delfim Conceição, 2h17’18, San Sebastian (25.11)…

2002
1.º Antonio Pinto, 2h09’10, Londres (14.04);
2.º Alberto Chaica, 2h12’12, Berlim (29.09. após a data do Campeonato/Taça da Europa da Maratona);
3.º António Sousa, 2h13’00, Hamburgo (21.04);
4.º João Lopes, 2h13’03, Paris (7.04);
5.º Domingos Castro, 2h13’23, Berlim (29.09. após a data do Campeonato/Taça da Europa da Maratona);
6.º Alcidio Costa, 2h14’25, Hamburgo (21.04);
7.º José Santos, 2h14’31, Hamburgo (21.04)…

Os atletas serão sempre selecionados pelo que fizeram e nunca pelo que vão fazer.

Não é só a Joacine que devia escolher outro assessor!

Um vintém é um vintém, um cretino há-de ser sempre um cretino…” Manuel Machado»

Definitivamente, a polémica está instalada