Até ao momento com um total de mais de 107 mil mortos e mais de 3,6 milhões de contágios devido à pandemia da Covid-19, o Reino Unido decidiu encerrar as suas instalações desportivas. Consequência desta situação, várias atletas de topo britânicas vieram já queixar-se de assédio, fruto da obrigação de treinarem na rua.

Impedidas de treinarem no recato e proteção das suas pistas habituais, assim como em grupo, já que é obrigatório correr sozinho, algumas das principais atletas de topo britânicas, como a internacional galesa dos 400 metros Rhiannon Linington-Payne ou a velocista Hannah Brier, decidiram fazer ouvir a sua voz e denunciar a situação que estão a passar. Em declarações ao britânico The Guardian, as atletas revelaram ser alvo de assédio e comentários machistas quando treinam nas ruas e parques das suas cidades.

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Aliás, e no caso de Gales, o Governo já teve inclusivamente que suavizar as restrições de forma a permitir que as atletas conseguissem treinar com uma companheira sem que vivam juntas de forma a sentirem-se seguras. Sendo que, em simultâneo, a Associação Galesa de Atletismo está já a trabalhar com a Polícia do Sul de Gales com o objetivo de tornar as ruas mais seguras para as corredoras.

Dos comentários aos assobios e ao assédio

«Já recebi comentários sobre o meu corpo, sobre o meu equipamento ou até mesmo sobre o meu fato de corrida, que é muito apertado», revelou Rhiannon Linington-Payne ao The Guardian. «Também já me assobiaram e carros chegaram a reduzir a velocidade ao ver-me passar.»

No entanto, e segundo a mesma atleta, «esta não é uma situação que esteja a acontecer apenas em Cardiff ou em Gales, mas em todo o Reino Unido, pois já fui contactada por atletas de Londres e de Manchester. Aliás, este é um tema que vai além do desporto. Trata-se de respeitar todos os seres humanos, independentemente de quem sejam ou do seu aspeto. Todos temos direito a podermos fazer as nossas coisas sem ser molestados. Mas, embora seja algo que vai além do desporto, também parece ser algo já comum no desporto».

Destacando que, quando treina na pista, esse é «um ambiente fechado, com atletas iguais a nós» onde existe maior proteção contra o assédio, Linington-Payne, mesmo representando internacionalmente o Reino Unido, não tem permissão para fazer os seus treinos no ambiente onde corre. Algo que, no caso particular de Gales, apenas os desportistas considerados de Elite podem agora o fazer.

«Cheguei a ter de chamar o meu pai»

Pela mesma experiência está a passar outra velocista galesa e também internacional pela Grã-Bretanha, Hannah Brier, a qual afirma-se, inclusivamente, «surpreendida por completo com quantidade de comentários inapropriados» que recebe.

Hannah Brier. Foto: Twitter

Confessando que, antes do encerramento, nunca havia treinado fora da pista ou no ginásio, Brier recorda inclusivamente «uma ocasião em que, devido ao calor do Verão, treinava com calções quando um carro que passava abrandou e alguém que estava lá dentro gritou um comentário sobre os meus calções, arrancando em seguida. Depois, ao chegar ao final da rua, o condutor deu meia-volta e voltou a passar por mim, gritando novamente comentários inapropriados».

«Isto aconteceu três ou quatro vezes seguidas e eu acabei a sentir-me muito incomodada. Cheguei mesmo a ter de chamar o meu pai para que me acompanhasse, uma vez que não me sentia segura treinando ou regressando a casa sozinha após o treino.»

«Demasiado à mostra»

Finalmente, outra atleta, Lauren Williams, especialista nos 400 metros barreiras, também assume sentir-se hoje em dia incomodada e insegura devido a comentários que recebeu, acusando-a de o seu equipamento deixar «demasiado à mostra».

Lauren Williams. Foto: Twitter

No Twitter, Williams referiu que espera que, ao falar publicamente sobre o assunto, «tal leve a mudanças e as mulheres possam sentir-se mais seguras quando saem para a rua para treinar».