Com o Estado de Emergência em vigor no território nacional e apesar da pandemia de coronavírus, muitos são os portugueses que continuam a fazer a sua atividade física ao ar livre. Mas e os atletas de referência como o triatleta Sérgio Marques ou o maratonista brasileiro Paulo Paula? Como estão a viver esta nova realidade, também na corrida? Continuam a fazer os seus treinos ao ar livre?

SÉRGIO MARQUES

Qual a sua opinião sobre correr ou não ao ar livre?
Não sou contra, mas todos devem considerar as circunstâncias especiais que estamos a viver. Certamente há quem exagere no que diz respeito ao pedido pelo Estado, está à vista de todos, nisso não estou de acordo.

Como está a passar a sua quarentena? Tem treinado?
A minha quarentena é verdadeiramente parcial. Continuo a trabalhar na rua como de costume, apenas o trabalho de escritório é feito em casa. No que diz respeito aos treinos, estou a fazer praticamente tudo em casa, corrida e ciclismo. A natação foi substituída por exercícios com elásticos. Saio para correr ou pedalar de madrugada, antes de ir trabalhar, onde é claramente a altura do dia em que não se vê ninguém na rua. Por exemplo, é chato ir pedalar às 5h00 da manhã com luzes, mas, nestas semanas, só saí para a rua três vezes. Faz-se o possível mas, neste momento, há coisas mais importantes. No entanto, não é por isso que deixarei de treinar. Pessoalmente aguento bem o treino indoor mas privilegio sempre o treino outdoor, onde lá voltarei quando a situação regularizar. Agora, a bem de todos, transpiro dentro de casa.

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PAULO PAULA

Qual a sua opinião sobre correr ou não ao ar livre?
Desde que o atleta corra ao ar livre com alguns cuidados, tanto para ele como para os outros, acho que não se deve proibir, mas, repito, desde que tomem os cuidados necessários. Por exemplo: sabemos que o risco de contaminação aumenta em zonas com muitas pessoas. Portanto, devemos evitar esses locais. As pessoas que gostam de correr devem procurar sítios vazios, mas também, no meu entender, correr sozinhas. Se tomarem essas precauções, não acho que o atleta amador deva parar de fazer atividade física, mas sempre em locais vazios ou com um número muito reduzido de pessoas. E sozinho! Trabalho e corro com alguns atletas em Portugal, atletas amadores que treinam habitualmente ao ar livre. Eles sempre treinaram em grupo, mas agora estão a treinar isolados. É o que peço a eles, para treinarem em locais isolados e sozinhos. Mas cada um sabe “onde aperta o calo”. Somos todos maiores de idade e devemos ser conscientes dos riscos que temos em correr, tanto para nós como para outros.
No entanto, para atletas de Alto Rendimento, temos uma outra situação. O meu treinador, que mora na China, disse que lá a indicação era reduzir o volume de treino, já que o treino intenso poderia baixar o sistema imunitário. Ou seja, não se deve parar de treinar, mas deve-se diminuir o volume de treino, não se deve manter os treinos como antes da pandemia. Em relação a população em geral, a recomendação era fazer exercício físico.

O brasileiro Paulo Paula tem aproveitado a quarentena para descansar, garantida que está a qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio… em 2021

Como está a passar a sua quarentena? Tem treinado?
Estou a aproveitar a quarentena para descansar. Aliás, para que treinar se não vai haver competições no primeiro semestre? Estou a descansar e a fazer atividade física de outra forma, principalmente tendo em vista o reforço muscular. O objetivo é evitar eventuais lesões que possam ocorrer devido ao elevado número de provas que teremos no segundo semestre. É verdade que há atletas de Alto Rendimento a treinar forte, mas, sinceramente, não compreendo os motivos, já que não há provas nos próximos meses, pelo menos até setembro… A quarentena é portanto o momento ideal para as pessoas fazerem o trabalho de base para, no segundo semestre, começarem a treinar com força, tendo em vista as mais variadas provas do calendário. Pessoalmente, não estou a fazer treino nenhum. Até agora, foram duas semanas a descansar, algo que acaba por preservar a minha carreira como atleta. Eu não cheguei aos 40 anos a correr o que estou a correr hoje em dia massacrando a minha musculatura. Se sei que hoje há esta crise, evito correr ao ar livre, faço algo que também é treino, que faz parte da minha rotina, como o descanso, mas também o trabalho de bike, alongamento e reforço muscular, por exemplo. Pelo que vejo em Portugal, os atletas amadores é que estão a correr ao ar livre, os profissionais do Alto Rendimento estão mais resguardados, fazem trabalho de reforço muscular e treinam em casa. Não podemos ignorar que ainda ninguém sabe qual o sintoma real que o coronavírus pode deixar no organismo da pessoa. Uma pessoa que corre por lazer, se ficar com alguma sequela, se calhar nem vai notar. No entanto, nós, atletas de Alto Rendimento, que vivemos do esforço físico, se formos infetados pela Covid-19 podemos ter muito a perder. Por exemplo: e se ele afetar o sistema pulmonar? Isso seria o fim da nossa carreira… A verdade é que hoje ninguém sabe ao certo o que vírus provoca no sistema pulmonar. Por isso, e se for possível evitar, o melhor é não arriscar.

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De referir que, em Portugal, é possível correr ao ar livre. Como podemos ler na resolução do Conselho de Ministros que definiu os contornos do Estado de Emergência, as «deslocações de curta duração para efeitos de atividade física» são permitidas, «sendo proibido o exercício de atividade física coletiva, considerando-se, para este efeito, mais de duas pessoas».