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Especialmente nos dias de hoje, em que as redes sociais são já um vício, também entre muitos corredores a tentação de comparar aspectos, desempenhos e resultados de corrida pode tornar-se algo de extremamente negativo.

Um estudo recente levado a cabo por investigadores da Universidade de British Columbia  procurou apurar a forma como as pessoas utilizam o Facebook, o Twitter e o Instagram, assim como os impactos daí decorrentes, no seu bem-estar. Sendo que a conclusão a que chegaram é que, quanto mais as pessoas se comparam umas com as outras nas redes sociais, menos felizes são.

Segundo o principal autor deste estudo, Derrick Wirtz, assistir às realizações ou momentos positivos de uma outra pessoa nas redes sociais não garante o mesmo benefício, em termos psicológicos, do que quando se interage diretamente com essa pessoa. Por exemplo, através de uma simples conversa.

«O contato passivo, percorrendo os posts e atualizações de outras pessoas, não só envolve pouca interação recíproca, como acaba sendo uma oportunidade para uma comparação ascendente», refere o responsável pelo estudo, que adianta que, embora as redes sociais possam ser vistas como uma forma de passar o tempo quando estamos sozinhos, o tempo gasto nestas plataformas apenas leva a um aumento da sensação de solidão.

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Em declarações à Women’s Running, Lindsay Kite, co-autora do livro “More Than a Body: Your Body is an Instrument, Not an Ornament”, recordou que é nos períodos de férias que mais temos tendência para partilhar objecivos e experiências, entrando em inevitáveis comparação com os outros. Algo que devemos evitar, nomeadamente colocando em prática estas cinco dicas:

  • Opte pela compaixão em detrimento da comparação
    Sabendo todos nós, até por experiência própria, que aquilo que aparece nos posts ou nas fotos nunca é a totalidade da história, é preciso que, ao olharmos para as publicações de outras pessoas, o façamos não numa perspectiva de comparação, mas com compaixão. E «não apenas relativamente a nós próprios, à nossa própria imperfeição e humanidade, mas também relativamente àqueles com que nos estamos a comparar», defende Kite. Isto aplica-se inclusivamente às situações em que, comparando, achamo-nos melhores. «O antídoto para a comparação é a compaixão», sentencia a mesma interlocutora
  • Deixe de seguir ou silencie contas que lhe causam angústia
    Segundo uma investigação levada a cabo pelo The Ohio State University Wexner Medical Center, 20% dos participantes decidiu fazer uma pausa naquilo que qualificou como o stress causado pelas redes sociais. «Mesmo sabendo que não conseguimos controlar o que acontece nas redes sociais, é importante reconhecer a forma como tal nos afeta e dar passos de forma a limitar nossa própria exposição», afirma o director do Programa para o Stress, Trauma e Resiliência da Ohio State University (OSU). «Encare o cuidado com que deve relacionar-se com as redes sociais como uma forma de auto-proteção ou cuidado consigo próprio», acrescenta Kite, defendendo que não se trata de ver essas contas são boas ou más, «simplesmente elas não o estão a servir de modo correto»
  • Tenha atenção aos comentários que deixa noutras contas
    Como conclusão do seu estudo, Wirtz defende a utilização das redes sociais como uma forma de interação direta com outras pessoas, mas não de forma passiva. Igualmente é importante estar atento àquilo que comentamos nas contas e posts de outras pessoas. «Se você for daquelas pessoas que faz muitos comentários sobre a aparência dos outros, reconheça esses comentários como um reflexo daquilo que valoriza em si mesmo e nos outros», afirma Kite. «Se você valoriza mais do que a beleza, faça um pouco de esforço para mostrar isso na forma como elogia e se relaciona com as outras pessoas»
  • Seja intencional naquilo que publica sobre si próprio
    «Ao fazer a gestão da sua presença na internet e nas redes sociais, preste atenção ao conteúdo centrado no corpo», pois «num mundo que objetiva consistentemente os corpos das mulheres, aprendemos a usar essa mesma perspetiva em nós mesmas e os aplicativos baseados em imagens ampliam isso», comenta Kite. Assim, e embora não haja problema algum em publicar uma foto de si a correr, é importante que, antes de fazê-lo, analise os motivos por que decidiu fazê-lo, mas também os motivos por tomar uma determinada posição, aplicar um certo filtro ou cortar a foto de uma determinada maneira. «Se está a publicar apenas porque gosta da sua aparência ou procura validação para a mesma, o melhor será descartar o post e procurar a auto-satisfação através de outro aspecto na sua vida enquanto corredor».
    De resto, na opinião da co-autora do livro “More Than a Body: Your Body is an Instrument, Not an Ornament”‘, correr a pensar na foto que vai publicar no Instagram prejudicará igualmente não só o desempenho atlético, como terá repercussões ao nível da performance intelectual. «O objetivo das mulheres que gostam de correr nada deve ter a ver com a necessidade de manter-se bonita enquanto corre. Mesmo que isso seja difícil de encarar depois de toda uma vida a sermos educados de uma determinada maneira. Pelo que, para algumas pessoas, pode mesmo ser necessária a ajuda de um especialista em saúde mental ou comportamental para conseguir combater essa necessidade»
  • Vire a câmara para outro lado ou então guarde-a
    Refletir sobre a forma como treina é uma parte importante no processo de melhoria. Assim, ao invés de publicar uma selfie como forma de refletir publicamente sobre o seu treino – e, no processo, objetivar e permitir a sensação de comparação -, o melhor mesmo é considerar outras alternativas. A começar pela «objetificação, a qual reduz a nossa saúde e aptidão a algo que existe fora de nós, por vezes em números e medidas arbitrárias como peso, calorias queimadas ou tamanho do vestido. Isto em oposição a fatores internos mais pessoais, como a forma como nos sentimos ao mover ou a forma como a força e a resistência melhora», comenta Kite.
    Outra tática igualmente possível é apostarmos na atenção plena, focando a nossa atenção nos sentidos físicos em detrimento da imagem mental que temos de nós próprios. Isso ajudar-nos-á a manter a perspetiva sobre como nos sentimos e sobre o que estamos a fazer ao invés de como as outras pessoas olham para nós.
    Kite também sugere que filmemos ou fotografemos aquilo que vamos observando enquanto corremos e não a nós próprios. Estratégia que «ajudará a mudar a sua percepção, levando-a a olhar de dentro para fora em oposição a olhar de fora para dentro».
    Finalmente, e segundo uma outra pesquisa decorrente da pandemia, 13% dos americanos começaram este ano a meditar, ao passo que 9% começou a escrever um diário também como forma de lidar com o stresse. Sendo que, no entender da investigadora, estas são igualmente ótimas opções para expressarmos a nossa corrida de maneira bem mais saudável do que, por exemplo, através das redes sociais. Além disso, também é possível utilizar o mantra de Kite («O meu corpo é um instrumento, não um ornamento») enquanto medita, antes ou depois de uma corrida. Ou então utilizar o diário como forma de expressar como se sente após um treino.
    «Ao praticar a priorização dos seus próprios sentimentos e percepções relativamente ao seu corpo, vai estar a treinar o seu cérebro, contribuindo para entrar e permanecer num estado de fluxo mais fácil», defende Lindsay Kite. Dessa forma também colocará de lado quaisquer comparações prejudiciais.