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Quando uma criança deve começar a praticar desporto com regularidade? Esta dúvida atormenta frequentemente a mente dos pais, já que não é fácil “entregar” os jovens às exigências da corrida, por exemplo. O nosso especialista Belino Coelho, diretor técnico da Elite Assessoria Esportiva, do Brasil, responsável pelo treino e orientação de mais de 150 atletas, aborda o tema.

 

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A cada ano que passa vejo muitas crianças começando a especialização precoce em alguma modalidade esportiva. No Brasil, por exemplo, é muito comum ver crianças sendo matriculadas em escolinhas de futebol ou em outro esporte que tenha crescido no cenário nacional, como é o caso do voleibol, da ginástica artística, da natação, etc…

É considerada especialização precoce no esporte quando uma criança passa a treinar regularmente, de forma sistematizada e intensa, a mesma modalidade, fugindo das suas reais necessidades e indo de encontro aos objetivos do adulto.

Acredito que essa especialização, pelo que vejo e ouço, na sua maioria ocorre devido a pressão dos pais, que almejam a fama e a melhora da situação econômica, tanto do filho quanto da família, inclusive com alguns familiares a se intrometerem no trabalho do professor ou do treinador, querendo, a todo custo, que o filho se torne um atleta competitivo. Muitas vezes inscrevem os mais novos numa modalidade que o jovem não gosta ou não tem talento, esquecendo-se totalmente que o filho é ainda uma criança, cuja real necessidade não é a competição e a cobrança dos resultados, mas a diversão, o lazer, a brincadeira e a descoberta.

Recentemente saiu em destaque na mídia o impressionante resultado de uma menina de 12 anos que correu uma prova de 5km no tempo de 16m44 (3m21 por km – 17,93km/h). Ou essa menina tem um super talento nato ou foi exposta a uma especialização precoce para justificar tal resultado. Sem dúvida que já é uma promessa na corrida, mas a minha pergunta é a seguinte:

Será que, na vida adulta, ela conseguirá, na corrida, ter o mesmo rendimento que na infância e na adolescência?

Sinceramente, tenho as minhas dúvidas.

No Brasil, por exemplo, há alguns anos, os atletas das categorias de base da natação eram os que mais recordes alcançavam em relação a outros países. No entanto, as então promessas não conseguiram ter o mesmo rendimento quando chegaram à categoria principal (adulta). O meu diagnóstico é o seguinte: esses atletas estavam esgotados, estafados, saturados e lesionados por terem sido exigidos na hora errada. Alguns já não conseguiam ter rendimento satisfatório, outros acabaram desistindo do esporte.

Toda criança é um ser que está em plena formação, seja estrutural, cognitiva, afetiva ou social. Quando submetida ao estresse de um treinamento específico para um adulto, poderá, mais tarde, apresentar alguns problemas, tais como:

• Má formação óssea, (grande parte do tecido ósseo na criança ainda é de tecido cartilaginoso)
• Limitações da sua capacidade motora
• Problemas posturais
• Dores
• Formação escolar deficiente (muitos desses jovens atletas acabam abandonando a escola para se dedicarem ao esporte ou simplesmente frequentam o ensino escolar sem nenhum interesse em aprender)
• Desistência do esporte
• Isolamento social, frustração, depressão, insegurança, medo, agressividade (o jovem acaba se sentindo um inútil, com medo do erro e do fracasso, e pode se tornar um adulto com sérios problemas comportamentais)

Os problemas enumerados acima são apenas alguns que preocupam não só a mim, mas a todos os profissionais que estão envolvidos direta ou indiretamente com o esporte, profissionais que têm conhecimento dos malefícios que o jovem poderá apresentar na vida adulta.

A criança, antes de entrar numa especialização esportiva, precisa atingir a sua maturação física e psicológica, a qual acontece de forma individual. Ou seja, cada criança tem o seu tempo de maturação e portanto não é possível dizer qual a idade correta para a especialização num esporte. Deste modo, saber qual o momento adequado para a especialização é função de fundamental importância do professor de Educação Física ou do treinador.

Iniciar a criança no esporte é necessário porque os benefícios são inúmeros em relação ao seu desenvolvimento. No entanto, desde que seja de forma lúdica, prazerosa, divertida, de integração social, permitindo contato com os mais variados tipos de esportes e brincadeiras. Se a criança possuir algum talento esportivo, ela pode ser direcionada para o esporte correto e não para aquele que seja da vontade de outros.

A criança precisa de viver como uma criança e não ser forçada a levar uma vida de adulto.

Ficou com alguma dúvida ou tem alguma sugestão de tema que gostaria que fosse abordado. Escreva para o seguinte endereço (belino.coelho@eliteesportiva.com.br) ou telefone (+55 11 5518-3409)

  • Este texto é escrito em português do Brasil