Pagar 1000 por uma bicicleta é exagerado? Talvez não… Estamos no segundo dia d´«A Semana “O Livro da Bicicleta”», de Miguel Barroso e editado pela Esfera dos Livros.

 

MAS QUANTO CUSTA?

É cada vez mais fácil comprar uma bicicleta, com os preços das mesmas a chegarem a valores que nos deixam a questionar como é possível vender uma bicicleta por tão pouco dinheiro? Não é! E por isso há quem diga que quando compramos algo demasiado barato, acabamos por ter de comprar duas vezes, pois essas coisas que custam menos de 100 euros, dificilmente permitem uma utilização regular e fiável. Será uma bicicleta pesada, com componentes de má qualidade que mais cedo ou mais tarde ficará inutilizada (ou a precisar de intervenções tão caras, que mais valia ter comprado logo algo melhor). 

Não, isto não é conversa de um maluquinho das bicicletas que acha que para se ter uma máquina decente é preciso gastar muito dinheiro. Precisamos de olhar com calma para o que se pretende comprar, e pensar quanto custa na realidade produzir uma bicicleta, a montagem, o transporte e a comercialização. Frequentemente, quando me perguntam o preço da minha bicicleta (ou de uma bicicleta qualquer) e eu digo quanto custou, a contrarresposta costuma ser a mesma: acham sempre muito cara. Considerar uma bicicleta cara ou barata, irá depender não só do poder de compra de cada um mas também da perceção que temos do real valor das coisas. É útil fazer comparações com outros bens de consumo, e relativizar de acordo com a utilização.

Comparar o preço de uma bicicleta com o de um automóvel, para muitos não faz sentido. Convenhamos que é realmente uma comparação exagerada (mas pode ser feita). Sim, há modelos a custar vários milhares de euros, mas vamos falar apenas de bicicletas utilitárias. E a comparação pode ser feita também com outras coisas:

O Livro da Bicicleta
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• Na compra de um carro, há sempre muitos extras em relação ao modelo base — alguns desses extras podem atingir valores elevadíssimos e têm uma utilidade questionável.
• Quanto custa um telemóvel, um smartphone razoável, nem falo dos topos de gama?
• Ou quanto custa por ano uma subscrição de canais de cabo para ver futebol?
• E uma televisão grande de mais para a nossa casa?
• E tantos outros gadgets que nos tentam vender, como algo revolucionário, mas que depois acabam esquecidos numa gaveta qualquer…

Com os valores envolvidos nestes exemplos, é possível adquirir uma bicicleta razoável ou até mesmo muito boa. Com pouco mais de 200 euros já se arranja uma utilitária, de fabrico nacional por exemplo, com qualidade suficiente para garantir que todos os dias podemos contar com a bicicleta para nos levar ao nosso destino. Claro que, de acordo com o nosso gosto, exigências e necessidades,
podemos investir em modelos muito mais caros. E atenção, que por este valor a bicicleta deve ser simples — sem suspensões, travões de disco e outras coisas mais sofisticadas. Se vamos aumentando
a nossa exigência, temos de estar dispostos a subir o orçamento para valores mais elevados.

O mesmo sucede para quem queira ter uma bicicleta com assistência elétrica — o orçamento terá de subir inevitavelmente. Sim, há ofertas a partir de poucas centenas de euros, mas mais uma vez estaremos a deitar dinheiro fora. A tecnologia empregue em tais modelos é manifestamente má e, para se ter uma bicicleta deste tipo minimamente fiável, aconselho a que se invista um valor já mais próximo dos mil euros. Sim, são caras, mas falaremos delas mais adiante.

Haverá sempre a possibilidade do mercado de usados, mas só recomendo esta opção a quem tenha conhecimentos para avaliar o estado e o valor pedido, tenha um amigo que ajude nisto, ou então comprando numa loja de confiança que ofereça alguma garantia.

Por fim e para concluir este tema do valor, é sempre bom relativizar de acordo com o uso e a realidade de cada caso. Uma bicicleta de 1000 euros que é utilizada todos os dias em deslocações que de outro modo seriam feitas de automóvel, é “relativamente mais barata” do que uma de 200 euros, que nunca sai da arrecadação. Como qualquer investidor concordará, o RDI (Retorno do Investimento) varia de acordo
com diversos fatores. Numa família com dois automóveis, a compra de uma bicicleta para deslocações no dia a dia poderá permitir a venda de um deles. Já no capítulo anterior se viu que, em Portugal,
possuir um automóvel custa por mês em média mais de 300 euros; perante este cenário, em dois ou três meses é possível amortizar uma bicicleta de boa qualidade. Mas até no cenário em que não se aliena uma viatura, só a redução do seu uso pode representar uma poupança significativa em combustíveis, estacionamento e manutenção, o que permite amortizar a compra da bicicleta em menos de um ano.

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