Boston Marathon

Trata-se da distância por excelência no Atletismo, a quilometragem que qualquer corredor almeja um dia poder fazer. Mas e o leitor, faz alguma ideia porque é que a Maratona tem exactamente 42,195 km?…

Distância olímpica considerada o desafio último para qualquer corredor, a Maratona é também uma das provas mais antigas no panorama do Atletismo, cuja origem, reza a história, reside há muitos séculos.

Mas se a forma como a Maratona nasceu tem, indubitavelmente, muito de lenda, já a distância que a marca os 42,195 quilómetros é algo sobre o qual a grande maioria dos corredores desconhece o motivo.

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Sempre foi assim?… Mudou ao longo dos tempos?… É culpa dos gregos?… Ou será dos ingleses? A resposta vem já a seguir!

A culpa dos antigos gregos

Comecemos com um pouco de História: reza a lenda que a Maratona terá nascido em 490 a.C. (Antes de Cristo), durante as chamadas Guerras Médicas.

Altura em que Fidípedes, um soldado ateniense que desempenhava igualmente as funções de mensageiro no seio do exército de Atenas, terá corrido a distância entre o campo de batalha de Maratona e Atenas, que seria qualquer coisa como 42 quilómetros, para avisar os cidadãos atenienses de que o seu exército havia vencido os poderosos persas.

Uma missão, de resto, culminada por Fidípedes com a entrada em Atenas aos gritos «Nenikékamen!…» (em português «Vencemos!…»), mas que também terá resultado na morte do mensageiro… por exaustão.

Fidípedes, o soldado ateniense que terá servido de inspiração para a criação da Maratona, terá, no entanto, corrido bem mais do 42,195 km...
Fidípedes, o soldado ateniense que terá servido de inspiração para a criação da Maratona, terá, no entanto, corrido bem mais do que 42,195 km…

A versão de Heródoto

No entanto, e apesar da suposta morte do protagonista, a estória não terá morrido aí, pois Heródoto, geógrafo e historiador grego nascido nos inícios do séc. V a.C., terá decidido eternizar a façanha de Fidípedes, inscrevendo-o no seu “As Histórias de Heródoto” – um testemunho escrito, precisamente, sobre a invasão persa da Grécia Antiga.

No seu testemunho, Heródoto fala de Fidípedes como tendo sido o soldado ateniense destacado, mas para correr até Esparta e pedir a ajuda dos exércitos espartanos na guerra contra os persas.

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A força da poesia inglesa

Já mais tarde, em 1897, um inglês, Robert Browning, decidiu igualmente recuperar a figura de Fidípedes, num poema a que deu, precisamente, o nome deste herói grego.

Poema em que, diga-se, Browning apenas procurou exaltar o momento, pouco se preocupando, por exemplo, com a chamada exatidão histórica – não só quanto ao verdadeiro autor da corrida até Atenas, mas também sobre a distância percorrida…

Poeta e dramaturgo inglês, Robert Browning decidiu enaltecer a lenda do soldado ateniense que correu cerca de 42 km, para avisar Atenas da vitória sobre os persas, atribuindo-a a Fidípedes
Poeta e dramaturgo inglês, Robert Browning decidiu enaltecer a lenda do soldado ateniense que correu cerca de 42 km para avisar Atenas da vitória sobre os persas, atribuindo-a a Fidípedes

A entrada em cena de Plutarco

De resto, importa aqui dizer que o próprio Pai da estória, Heródoto, terá assumido essa mesma pouca exactidão no contar dos factos, salientando que se tratavam de registos e histórias contadas de pai para filho.

De resto, esta assunção permitiu que, mais de 400 anos depois de Heródoto, em 45 d.C., nascesse um filósofo de nome Plutarco, que, recorrendo ao trabalho feito por outro filósofo, Heráclides do Ponto, nascido apenas 100 anos depois de Heródoto, viesse falar, pela primeira vez, da famosa corrida entre a planície de Maratona e Atenas… No entanto, alterando o protagonista!

Historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo, Plutarco, que foi também um discípulo de Platão, ainda tentou terá tentado colocar os pontos nos iis quanto à autoria de corrida entre Maratona e Atenas, mas não conseguiu...
Historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo, Plutarco, que foi também um discípulo de Platão, ainda terá tentado colocar os pontos nos iis quanto à autoria de corrida entre Maratona e Atenas, mas não conseguiu…

Segundo Plutarco, terá sido um tal de Eucles, e não Fidípedes, a levar a boa-nova até Atenas e a fazer os tais 42 quilómetros. Ao passo que Fidípedes, mensageiro experimentado, terá sido responsável por levar o pedido de ajuda de Maratona até Esparta. Perfazendo, assim e de uma só vez, um total de… 246 km!

Então, porque é que Fedípedes é, ainda hoje, apontado como o herói ateniense que terá entrado em Atenas a gritar «Nenikékamen» para morrer em seguida? Porque Robert Browning, o poeta inglês, ao resgatar a lenda, decidiu misturar protagonistas e corridas!…

A história não acaba aqui, mas a segunda parte dos 42,195 km da Maratona vamos publicar amanhã…