Kipchoge lebres

Ainda hoje uma marca por quebrar de forma oficial, o feito conseguido por Eliud Kipchoge de correr os 42,195 km da Maratona em menos de duas horas continua a surpreender. Um estudo levado a cabo por um investigador norte-americano da Universidade de Exeter, com base naquela que foi a primeira tentativa Sub-2h00 (falhada) em Monza, revela agora a importância do equilíbrio entre três princípios para o conseguir.

Ainda hoje uma fasquia surpreendente para qualquer corredor, o feito conseguido pelo melhor maratonista da atualidade, Eliud Kipchoge, que conseguiu cumprir os 42,195 km da Maratona em menos de duas horas, continua a ser motivo de estudos e investigações científicas. Nomeadamente com o objetivo de conseguir revelar a combinação específica de aspectos fisiológicos que permita a um ser humano fazer uma tal marca.

O mais recente estudo do género foi divulgado nas páginas do Journal of Applied Physiology e teve como principal responsável o professor Andrew Jones, da Universidade de Exeter, nos EUA. Baseando-se em dados exaustivos recolhidos junto de vários atletas que participaram no projecto Breaking2 da Nike, incluindo o próprio Kipchoge, o estudo veio agora revelar algumas conclusões interessantes, como aquela que poderá ser a chave para termos um atleta de excepção na Maratona.

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«Os requisitos para correr uma Maratona em duas horas foram já amplamente debatidos, embora o mesmo nunca tenha acontecido com as reais necessidades fisiológicas para tal», afirma o responsável por este estudo, que também trabalhou intensamente com Paula Radcliffe ao longo da sua carreira, em particular na preparação para a Maratona de Londres de 2003, em que a atleta britânica conseguiu o recorde mundial na distância.

No entender de Jones, os melhores corredores mundiais da Maratona revelam um «equilíbrio perfeito» entre três fatores e a combinação destas três qualidades, mais do que uma só em particular, é a chave para o sucesso.

«Alguns dos resultados obtidos ao longo do estudo, e em particular o VO2 máximo, acabaram por não ser tão elevado como esperávamos. O que constatámos na fisiologia destes atletas foi um equilíbrio perfeito de características para um melhor rendimento na Maratona», explica o investigador.

Eis, então, as três principais qualidades:

  • Conseguir respirar melhor
    Segundo os dados obtidos na sequência da investigação do professor Andrew Jones, tanto Eliud Kipchoge como os outros atletas de topo analisados mostraram ser capazes de absorver oxigénio duas vezes mais rápido a um determinado ritmo na Maratona, que os restantes corredores com a mesma idade. Assim, o estudo conclui que, para manter um ritmo na Maratona de 21,1 km/h e terminar em duas horas, um corredor de 59 kg deverá ingerir cerca de quatro litros de oxigénio por minuto, mantendo «o que chamamos de VO2 num patamar estável», explica o investigador. «Isto significa que esses atletas conseguem satisfazer todas as suas necessidades energéticas aerobicamente ao invés de dependerem da respiração anaeróbica, que esgota as reservas de carboidratos nos músculos mais rapidamente e conduz mais rapidamente à fadiga.»
  • Vencer a fadiga
    A segunda característica-chave, segundo este mesmo estudo, é a capacidade de economizar energia, ou seja, a eficiência que o organismo revela na ingestão de oxigénio, tanto internamente como durante uma ação de corrida efetiva. Parte desta característica é também «o ponto de inflexão do lactato, ou seja, a percentagem de VO2 máximo que um corredor consegue manter antes do início da respiração anaeróbica. Sendo que, quando tal acontece, os carboidratos existentes nos músculos passam a ser consumidos a um ritmo elevado, levando a um esgotar rápido das reservas de glucógeno», explica Jones.
  • O ritmo perfeito
    Segundo o trabalho desenvolvido pelo professor Andrew Jones, esta é outra caraterística em que os atletas de Elite se destacam, sendo que «os corredores que estudámos, um total de 16, dos quais 15 oriundos da África Oriental, parecem saber intuitivamente como correr logo abaixo da chamada velocidade crítica muito perto do ponto de inflexão do lactato, sem que, no entanto, o atinjam», explica o investigador. O qual acrescenta que «isto é particularmente difícil, mesmo para os corredores de Elite, já que o ponto de inflexão cai ligeiramente ao longo de uma Maratona e não pode ser medido em laboratório. Dito isto, suspeitamos que os melhores corredores deste grupo, e em particular Eliud Kipchoge, apresentam uma notável resistência à fadiga».