Professor Catedrático de Fisiologia na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, José Soares escreveu Running – Muito Mais do que Correr, editado pela Porto Editora. No livro são abordados vários temas sobre o Mundo da Corrida, como a dor de burro e se é melhor treinar menos tempo e mais vezes ou o contrário?

O que é a «dor de burro»?
Estou convencido que não há praticamente ninguém que não tenha sentido a famosa dor de burro. Quando começamos a correr ou a fazer um exercício mais intenso, ela surge quando menos se espera. O que é, qual a origem e será que a poderemos evitar?
É uma dor localizada num dos lados, imediatamente abaixo das costelas. Esta dor pode ter intensidades muito diferentes, sendo possível manter o exercício quando é ligeira. Quando se torna muito forte obriga frequentemente à interrupção do esforço. Normalmente desaparece alguns minutos depois de o atleta parar, ainda que possa manter-se por algum tempo. Esta latência é tanto mais prolongada quanto mais intensa tiver sido a dor.
A corrida, particularmente quando associada a movimentos do tronco, é a forma mais frequente de despertar a dor.
Sabe-se também que é mais frequente quando se inicia a atividade física de forma brusca ou em ambientes mais frios.

Causas
As causas não são ainda completamente conhecidas, mas existem algumas hipóteses. Uma das justificações pode ser a redução do fluxo sanguíneo no diafragma. Com o esforço, o sangue tem tendência a redistribuir-se, com um redirecionamento preferencial para os músculos ativos, levando a que as partes menos envolvidas recebam um menor fluxo. Poderá ser o caso do diafragma.
Outra teoria assenta na ideia de que com o esforço há uma pressão exagerada nas estruturas que suportam os órgãos que estão ligados ao diafragma – fígado, baço e estômago. A corrida, por exemplo, implicará um stress intenso nos ligamentos que mantêm estes órgãos junto do diafragma e isso despertará dor.
A hipótese mais recente refere a irritação de uma membrana que envolve a cavidade abdominal (peritoneu parietal) como a causa mais provável. Em esforço, com a distensão do estômago ou a redução de lubrificação, ocorrerá a estimulação das terminações nervosas dessa membrana e, deste modo, a dor será induzida.

Como pode ser evitada?
• Evite comer ou beber muito antes do exercício. As comidas com muita gordura e com gás despertam mais facilmente a dor;
• Opte por bebidas desportivas e água que, por terem um rápido esvaziamento gástrico, diminuem o risco de dor;
• Aumente a intensidade gradualmente. O início do esforço a alta intensidade é também um fator desencadeante, por isso, comece lentamente e faça um bom aquecimento prévio.

Nota importante
Este tipo de dor, normalmente, não está relacionada com qualquer problema de saúde. Todavia, se for demasiado intensa e frequente deverá consultar o seu médico.

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É melhor treinar menos tempo e mais vezes ou o contrário?
Se não é um atleta, a minha recomendação é: treine de forma a que no início da sessão seguinte esteja recuperado. Deve começar os seus treinos com a sensação de que não está fatigado. Lembre-se que não é um atleta! Ou seja, mais importante do que o tempo é a intensidade. Imagine que treina 15 minutos, mas o faz de forma muito intensa. É claro que, apesar do curto período de tempo, as «marcas» que esse treino irá deixar no seu corpo vão ser mais limitadoras do que um treino de 45 minutos a ritmo muito lento. Por exemplo, sabe-se que alguns tipos de contração muscular provocam mais dores retardadas do que outros. Um caso muito concreto é o das descidas. Correr a descer induz maior stress muscular do que correr a subir. Uma subida provoca dores musculares mais imediatas. Correr a descer, aparentemente, é menos fatigante, mas nos dias seguintes as nossas pernas ressentem-se mais. Este fenómeno é designado por miopatia do exercício. Em resumo, o treino só deve recomeçar quando se sentir bem. Se sentir as pernas «pesadas», dores musculares ou um desconforto significativo, adie o treino ou, melhor ainda, faça algo muito, mas mesmo muito ligeiro.

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