Kipchoge lebres

O feito de Eliud Kpichoge ter corrido a Maratona em menos de 2h00 foi comemorado um pouco por todo o lado, mas também levantou um debate no Mundo da Corrida. Tudo devido aos ténis utilizados pelo queniano. O nosso especialista, Fernnando Alves, revela o seu ponto de vista sobre a questão que hoje marca a modalidade: poderá o doping tecnológico ter chegado ao Atletismo?

Eliud Kipchoge fez recentemente um tempo 1h59m40 na Maratona que, se formos fazer valores médios, podemos verificar que dá um ritmo de 2m50 ao km ou 17 segundos por 100 metros. Se tivermos em conta que o recorde do mundo dos 100 metros é de 9s58, e o mesmo é efetuado no máximo de velocidade, então podemos dizer que estes homens da Maratona são fenómenos da natureza ou seres de outro planeta. Fazer 17 segundos por 421 vezes é obra…

Contudo, para se quebrar a barreira das 2 horas, foi preciso muito planeamento e, principalmente, muito dinheiro. Já em maio de 2017, no autódromo de Monza, se tinha tentado esse objetivo, mas sem sucesso. Eliud Kipchoge ficou pelas 2h00m25 e os dois companheiros Zersenay Tadese e Lelisa Desisa não aguentaram o ritmo e ficaram bem atrás.

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Entretanto, Jim Ratcliffe, o dono da INEOS, “não ficou contente” e voltou ao desafio Sub-2h00, mas, desta vez, foi tudo planeado ainda mais ao pormenor.

O local escolhido foi um parque na cidade de Viena, com um circuito com cerca de 10 km, plano, curvas muito suaves e com marcação no chão a indicar o melhor caminho.

A festa de Kipchoge
A festa de Kipchoge

Foi delineada uma janela de tempo entre 12 e 20 de outubro, esperando-se as melhores condições meteorológicas. As condições ideais deveriam rondar entre 5 e 10º C de temperatura e 60 a 80% de humidade. No dia da corrida, às 8h15, estavam 9º C, vento quase nulo e 90 % de humidade.

A organização colocou uma equipa de 41 dos melhores atletas do mundo para fazer de lebres. Eles trocavam em grupos de 7, sendo que 5 se colocavam à frente em formato de V e mais dois atrás de Kipchoge. Todos para protegerem o queniano do vento. Na frente, um carro que, além de proteger do vento, ainda tinha um laser que indicava na estrada o ritmo (de 2m50 ao km) que todos deveriam manter.

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A hidratação foi entregue em mãos, ao invés de ser o atleta a levantar de uma mesa.

No mesmo fim-de-semana, curiosamente, Brigid Kosgei superou o recorde do mundo de 2h15m25 que pertencia a Paula Radcliffe e que muitos diziam inalcançável. Mas Kosgei pulverizou e estabeleceu o novo recorde, agora em 2h14m04, ou seja, retirando 1m21 ao anterior registo.

Ténis da Nike levanta acesa polémica no Mundo da Corrida

Entretanto, além dos feitos de Kipchoge e Kosgei, um dos grandes debates que se criou foi sobre uma possível vantagem que ambos os atletas poderão ter tirado dos ténis fornecidos pela Nike. O protótipo que o queniano calçou em Viena apresentava, por exemplo, além de ter um drop maior, 3 placas de carbono e 4 almofadas de ar.

Kipchoge ofereceu um troféu a cada uma das suas lebres
Kipchoge ofereceu um troféu a cada uma das suas lebres

O protótipo desenvolvido pela Nike, e de nome Alphafly, são a terceira geração deste tipo de sapatilhas, após os Vaporfly 4 e os Vaporfly Next%. Segundo a marca norte-americana, esta tecnologia da placa de carbono tem uma melhoria de 4% na economia de corrida (não é 4% no tempo). Vários estudos independentes mostram valores diferentes, mas com valores pertos dos referidos pela marca.

Em outros testes, e para um atleta amador que corre a Maratona a rondar as 3h00, cientistas estimam que os ténis podem “oferecer” perto dos 2m00 de melhoria para a mesma energia que despenderia se utilizasse outro calçado.

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Esse benefício traz à nossa memória o fato de banho que imitava a pele de tubarão e que melhorava o rendimento em 3%, mais tarde proibido pela FINA. Mas também a posição da UCI no ciclismo, que começou a utilizar Raios X para detetar doping mecânico.

Mas, afinal, que tecnologia é esta dos novos ténis?

Em primeiro lugar, o protótipo de Kipchoge são bem diferentes do modelo anterior, os Next%. As diferenças são bem visíveis: o drop (diferença de altura entre a ponta do pé e o calcanhar) passa de 8mm para 9mm, aumentando 10mm na biqueira e 11mm no calcanhar.

Mas a grande diferença não está no drop… Fazendo a analogia com os carros, temos de levantar o capô: é aqui que estão as grandes alterações, quatro caixas de ar colocadas em dois blocos e três placas de carbono.

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As caixas de ar têm como objetivo amortecer o impacto provocado pelas passadas, utilizando parte desta energia na progressão para a passada seguinte. Já as placas de carbono têm o objectivo de absorver e usar esta energia da passada. Toda esta combinação promete “empurrar” o atleta para a frente. Ou seja, o que faz com que corra mais rápido. Segundo alguns sites (não oficiais), esta combinação pode melhorar o rendimento em 6%.

A tecnologia é baseada num princípio físico, o da conservação do momento linear no choque de dois corpos elásticos. Quando dois corpos elásticos de massa diferente, colocados um em cima do outro, colidem com o solo, o corpo com maior massa (A) toca primeiro o solo e salta com a mesma velocidade que levava, colidindo com o de menor massa (B), que ainda cai: este, portanto, salta com uma velocidade maior da que trazia.

O princípio físico dos novos ténis da Nike
O princípio físico dos novos ténis da Nike

Em suma, o corpo A, após bater no solo, colide com o corpo B enquanto este ainda cai. Ao chocarem, o corpo B é empurrado para cima com uma velocidade superior à que trazia.

Poderá o doping tecnológico ter chegado ao Atletismo?

A minha opinião é que sim, pois toda esta tecnologia favorece o atleta. Não é uma questão de ser mais leve, de respirar melhor ou de proteger as articulações, por exemplo, é mesmo uma questão de beneficiar o atleta, uma vez que transforma a energia em um “empurrão”.

Por exemplo: se colocarmos dois atletas com condições físicas e marcas semelhantes mas um com os ténis Nike perfeitamente normais e outro com os Nike AlphaFly. Quem acham que ganha?

Uma coisa é certa: mesmo com a evolução dos treinos, técnicas e da própria recuperação, a Nike, nos últimos anos, arrasou o mercado e contra factos não há argumentos. Estão sete Vaporfly no Top 10 masculino e quatro no feminino nas mais recentes melhores marcas na Maratona. Apenas esse dado demonstra os benefícios que os ténis trouxeram para os atletas.

É bom para o espectáculo? Talvez.

É bom para o marketing? De certeza…

Contudo, e volto ao início, «estes homens da Maratona são fenómenos da natureza ou seres de outro planeta. Fazer 17 segundos por 420 vezes é obra.»

O calçado ajuda, mas a verdade é que o atleta precisa ter “perninhas” e muito treino para fazer estas marcas.

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