fetal

A corrida é a forma mais comum de exercício físico, remontando à antiguidade como meio de defesa (fuga) dos eventuais perigos, evoluindo entretanto como meio de transporte/trabalho (vulgares mensageiros) até à sua ulterior versão desportiva. A especialista Carla Martins assina este artigo.

Para entendermos a fisiologia e patologia subjacentes à corrida, devemos primeiro explorar um pouco o exercício físico em geral.

Exercitarmo-nos é um processo tão natural que começamos a fazê-lo logo durante a gestação. De facto, o feto movimenta-se de várias formas desde o primeiro trimestre e parece fazê-lo como parte integrante de um sistema que assegura a sua homeostasia. E, neste ponto, somos logo invadidos por uma questão:

– Será que a quantidade/intensidade dos movimentos efectuados pelo feto influenciam/predizem a performance de um futuro atleta?

Apesar de se movimentar como um ser humano extra-uterino, fisiologicamente o feto é diferente, pois não tem autonomia para regular todo o seu complexo sistema de órgãos, dependendo sobremaneira da circulação uteroplacentária como fonte energética/nutricional e como sistema regulador do seu equilíbrio ácido-base.Ou seja, nesta fase da vida é a mãe que assume um papel relevante.

Mas será que a mãe pode interferir ao ponto de modificar os factores intrínsecos preditores de uma boa performance num futuro atleta?

Depois de ultrapassar todo o tempo de gestação, o ser humano tem que vencer uma primeira provação – o parto. Este é o processo fisiológico que permite expelir o feto do útero materno para o mundo exterior. Para que esta primeira prova seja bem-sucedida, o organismo materno sofre uma série de alterações fisiológicas, metabólicas e anatómicas seriadas ao longo de dias, preparando-se para o grande evento. Do mesmo modo, quando este ser humano for um atleta (de competição ou não), também terá que se preparar metodicamente com antecedência para permitir que a sua fisiologia se adapte, potenciando os factores intrínsecos de performance.

Mas será que o tipo de parto também poderá influenciar essa performance?

Enquanto criança é fundamental que um indivíduo seja estimulado a participar numa qualquer actividade física regular de modo a promover um estilo de vida saudável desde tenra idade, pois sabe-se que isso traz benefícios para a sua saúde musculoesquelética, cardiovascular e para o controlo da sua adiposidade.

Mas será que se deve incutir uma qualquer actividade? Que tipo de exercícios será mais aconselhado? E em que quantidade? E, por fim, será que esta atitude influencia a fisiopatologia do exercício físico num futuro atleta?

Durante o exercício físico é fundamental ocorrer uma interacção coordenada da ventilação, com débito cardíaco e com as circulações sanguíneas sistémica e pulmonar, de modo a assegurar as necessidades metabólicas dos músculos que se contraem. A estes três componentes há ainda que acrescentar um adequado fornecimento energético. Em conjunto, estes factores deverão manter os níveis de oxigénio e dióxido de carbono arteriais dentro de limites críticos face ao aumento exponencial da taxa metabólica típica do exercício físico vigoroso, sendo os factores cardiovasculares os agentes limitativos da performance de um atleta.

Todavia, nem tudo é fisiologia e, se o exercício físico em geral é efectivamente saudável, o mesmo não se passa com o nível de exercício físico típico do desporto. Aí ultrapassamos o limiar dos processos fisiológicos dum organismo e o atleta evolui inexoravelmente para a disfunção/lesão. Na corrida, o grosso da patologia refere-se às lesões musculo-esqueléticas, contudo existe muito mais comorbilidade associada a um corredor, seja ele profissional ou amador, e que é preciso analisar para poder controlar. Por outro lado, existem patologias (independentes do exercício físico) que podem acometer potenciais atletas e que podem comprometer a sua performance.

Aqui fez-se uma pequena sinopse dos parâmetros mais relevantes da fisiopatologia subjacente ao exercício físico característico da corrida, aflorando alguns temas e levantando certas questões pertinentes que serão explorados numa série de artigos, a publicar nas próximas semanas.