Correr à chuva

Se perguntarmos a corredores se preferem correr sob altas temperaturas ou com o tempo frio, a grande maioria dirá que, a ter de escolher, preferirá fazê-lo sob tempo frio. Recorrendo à Ciência, explicamos-lhe o porquê desta ser a opinião dominante.

A verdade é que serão poucos os corredores que discordarão desta ideia: com tempo frio, tudo se resume a vestirmos a roupa adequada para nos sentirmos confortáveis. Já com temperaturas muito altas, nem mesmo optando pelo mínimo de roupa será suficiente para impedir que nos sintamos especialmente cansados.

Pistas sobre os motivos desta realidade surgem agora através de um estudo científico publicado no The Journal of Sports Medicine  and Physical Fitness, o qual, levado a cabo por investigadores no Brasil, centrou-se nas respostas fisiológicas de cinco corredores amadores do sexo masculino com idades a rondar os 30 anos numa corrida de longa distância disputada sob temperaturas quentes.

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Recorrendo a um aparelho metabólico portátil, o qual mediu o consumo de oxigénio durante a atividade, os investigadores rastrearam ainda as respostas cardiovasculares dos corredores, incluindo a frequência cardíaca mas também as temperaturas corporais. Neste caso, utilizando outro dispositivo, denominado sistema telemétrico de cápsula.

Co-liderado por Danilo Prado, do Ultra Sports Science Lab e da Universidade de São Paulo, no Brasil, foi o próprio investigador a explicar, em declarações à Runner’s World, que «o nosso estudo mostra que a temperatura quente, no ambiente externo, tem uma carga fisiológica».

Segundo o mesmo interveniente, «os resultados sugerem que o aumento da temperatura corporal está associado a um aumento da perceção de esforço, bem como no esforço cardiovascular e metabólico, que é influenciado por uma temperatura central mais elevada e desidratação. Isso pode degradar o desempenho aeróbio em ambientes quentes».

Apesar do tamanho pequeno da amostra utilizada neste estudo, outra pesquisa, liderada pela norte-americana Carol Mack, doutorada em Physical Therapy, veio concluir igualmente que o aumento da temperatura corporal eleva tanto o stress cardiovascular quanto o metabólico, algo que é verdadeiro tanto em climas quentes como frios.

Treinar com neve

Também em declarações à Runner’s World, Mack defende que a temperatura corporal pode ser um fator de fadiga e desidratação, resultando num ritmo mais lento.

Embora tal possa acontecer em qualquer tipo de clima, Mack acrescenta que correr em climas quentes aumenta o risco de desidratação devido à maior produção de suor. Perda que, mesmo quando em pouca quantidade – um por cento -, pode aumentar a tensão fisiológica, embora até mesmo uma perda de 0,5 por cento possa causar stress cardíaco.

A solução

Nestas situações, e ao contrário do que acontece quando vamos correr com tempo frio, refere Carol Mack, é preciso aumentar a ingestão de água, especialmente quando se trata de treinos mais longos, procurando beber entre dois e quatro copos de água durante a atividade e a mesma quantidade após os treinos (não deixando de adicionar outro copo para cada fase em climas mais quentes).

Já em treinos sob temperaturas muito quentes ou que durem mais de uma hora, a recomendação é de que se adicione uma bebida desportiva com 30 a 45 gramas de carboidratos e eletrólitos. Ou então beber água suficiente no dia anterior à corrida, geralmente cerca de um a dois copos de água a cada refeição.

Ao mesmo tempo, Carol Mack recomenda ainda diminuir a intensidade da corrida, em particular nos casos em que não se está habituado a correr ou treinar em climas quentes. Nesses casos, o melhor será optar por um ritmo que seja entre 60 a 90 segundos mais lento por milha (1,609 km).

«O corpo leva, pelo menos, uma semana para se aclimatar ao clima quente», refere a investigadora norte-americana, acrescentando que, «nesses ambientes, não é seguro esforçarmo-nos para atingir o ritmo normal. No caso de conseguir planear o seu trajeto, tente correr o máximo possível à sombra, tendo muito cuidado sempre que tiver de fazer exercício quando sob temperaturas acima dos 30 graus».