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Luís Fernandes ainda vive o sonho do recente triunfo no MIUT115, embora tenha os pés assentes na terra, já que, refere, «a história do desporto é de altos e baixos». O CORREDORES ANÓNIMOS falou com o primeiro madeirense a vencer a prova e atual campeão nacional da modalidade.

 

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Humilde, Luís Fernandes não acreditava que poderia vencer a prova. Mas tudo mudou mais ou menos no quilómetro 70, pelo menos quando sentiu que poderia alcançar o pódio. E quem sonha alcançar o pódio, sonha com o primeiro lugar. O madeirense revela nesta entrevista quem ele acreditava que iria vencer a prova, além de dizer o momento mais complicado que passou ao longo dos 115 km.

 

Foi o primeiro madeirense a ganhar o MIUT. O que significa isso para si?
Desde logo pela qualidade dos inscritos e pela competitividade da prova, foi evidentemente uma vitória marcante! Ser o primeiro madeirense a ganhar o MIUT115 é, para mim, um grande orgulho, sendo ainda mais especial por o ter conseguindo no primeiro ano que fiz a prova principal.

E para a região?
Ao fim de sete edições, conseguir que o título de vencedor do MIUT 115, além do título de campeão nacional de Utra Trail Endurance, tenha finalmente ficado cá na ilha é muito bom, ainda mais sendo o MIUT115 provavelmente a prova mais internacional realizada em Portugal. Transmite uma imagem forte da qualidade dos atletas de Trail running da nossa região.

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Mas acredita que os madeirenses sentiram essa vitória como se fosse deles?
Claro, sem dúvida! A chegada a Machico foi “brutal”, vi o público a vibrar e senti a enorme alegria de todos, que tornou aquele momento em uma grande festa! Ao longo da prova, quando eu passava nas zonas de público, sempre senti muito apoio. A receção à chegada foi uma verdadeira festa madeirense.

Como foi o dia seguinte? Foi reconhecido pelas pessoas, por exemplo?

O dia seguinte foi realmente especial, foi o dia da entrega de prémios. O momento em que recebi o troféu de vencedor foi um único. Recebi os parabéns de muitas pessoas, pelas que cruzava nas ruas, pelas que acompanharam o evento online, pelo meu clube, pelos meus patrocinadores, que foram fundamentais para este triunfo, pelos meus colegas de trabalho… Foi algo muito especial!

Para o seu triunfo final foi essencial ser da Madeira?
Tinha alguma vantagem no conhecimento do percurso, que é algo muito bom, mas não é tudo. Alguns atletas candidatos à vitória, mesmo não sendo de cá, também conheciam o trajeto.

Nos treinos que fez percorreu os locais do MIUT?
A minha zona de treinos é normalmente a parte final do MIUT, na zona do Porto da Cruz. Fiz um treino para conhecer a zona da encumeada Curral das Freiras e Pico Ruivo. A parte inicial da prova já conhecia de provas anteriores, mas havia os trilhos entre o Rosário e a encumeada que nunca tinha passado por lá, foi só mesmo em prova. Apesar da ilha ser pequena, ainda se gasta muito combustível para andar a treinar em todas as zonas.

Quando participou no MIUT pela primeira vez?
A minha primeira participação foi em 2012, nos 55 km. Sofri uma lesão grave três semanas antes da prova e, na véspera, estava decido a não a fazer, mas o Leonardo Diogo incentivou-me, disse para ir e desfrutar do ambiente da partida! Comecei a prova a passo, a tentar fazer uns 20 km. A certa altura decidi começar a correr e ver se o pé aguentava ou ficava de uma vez por ali. Como o pé já estava bem quente, aguentei-me bem até ao fim e alcancei o terceiro lugar da geral com três unhas negras num pé e quatro no outro.
Em 2013 fui operado e tive apenas duas semanas de treino para a prova de 40 km. Ainda assim fiquei em quinto da geral e quarto do meu escalão.
O ano passado foi o grande salto para uma prova mais longa, de 85 km. A primeira que participei a sair à meia-noite! Consegui vencer com o tempo de 11h16.
Este ano decidi fazer a prova principal…

Em termos de performance, qual a diferença dos outros anos para este?
Depois dos 85 km comecei a ser treinado pelo Paulo Pires e felizmente tive uma grande evolução, sentindo os efeitos do excelente trabalho que tenho desempenhado ao longo do último anos.

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Sinceramente, esperava alcançar a vitória, estava nos seus planos o triunfo?
Sinceramente não esperava alcançar a vitória porque, em distâncias longas, só tinha realizado os 85 km do MIUT e os 109 km do UTAX, mas as duas provas não apresentavam um nível tão competitivo e tão exigente e dura como os 115 km, ainda mais com o MIUT a decidir o campeão nacional. Como as distâncias mais longas não tinham corrido muito bem, estava sempre concentrado em fazer uma boa gestão para concluir a prova. Consoante o desenrolar da mesma, o objetivo inicial era tentar ficar nos entre os 10 primeiros.

Poderia fazer um pequeno resumo de como foi a prova? Desde a largada até ao final?
Comecei a prova ao meu próprio ritmo, que achava ser o razoável para a poder concluir. Nessa etapa inicial era importante verificar como o meu corpo reagia. De abastecimento a abastecimento, verifiquei que os resultados que estava a obter eram muito bons, além do corpo reagir muito bem às exigências. Como estava presente um grande número de excelentes atletas, foi sempre um enorme prazer correr ao lado deles, como foi o caso do grande Nuno Silva, com quem corri alguns quilómetros. À chegada ao Curral das Freiras estava nos primeiros lugares, mas junto com um grupo de atletas. A grande subida da prova terminava no Pico Ruivo, seguindo-se um constante sobe e desce até ao Pico do Arieiro, onde consegui ganhar alguma vantagem que consegui manter até o fim.

Qual o momento que mais temia antes da prova?
Não receava nenhum momento em particular, apenas a dúvida de como iria reagir o corpo ao longo da prova.

E qual foi o momento mais complicado?
O mais complicado talvez tenha sido o início da subida do Curral das Freiras. Como tinha comido bem, o sono começou a surgir. Só passado uns quatro quilómetros a subir é que comecei a reagir melhor.

Quando sentiu realmente que era possível vencer?
Nos últimos 17 km senti que poderia ganhar, mas ainda faltava muito, a mínima falha podia ser fatal, por exemplo, uma queda. Mas também o Nuno Silva, que estava em segundo, poderia ter uma ponta final melhor do que a minha… Por isso, tentei gerir da melhor forma possível a etapa final para poder segurar o resultado, o que acabou por acontecer.

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Qual o principal rival que temia antes da corrida?
Havia cerca de 15 atletas mais ou menos ao mesmo nível. Mas o principal candidato, e quem eu achava que iria vencer a prova, era o Nuno Silva. Antes da prova nunca me imaginei a vencer.

Algo que, em determinado momento, mudou…
Mudou ao chegar aos 70 km, em que, pelas reações do meu corpo, senti que poderia chegar pelo menos ao pódio da geral.

Ao mesmo tempo conquistou o título de campeão nacional com o triunfo no MIUT. Acredita que a sua carreira pode mudar com este título?
Talvez possa, já que foi um enorme resultado. Mas quero ser realista e estar com os pés bem assentes na terra. Foi apenas uma prova e a vida hoje em dia está complicada, a história do desporto é de altos e baixos. Agora é continuar a trabalhar e tentar melhorar, já que as dificuldades sempre aparecem.

O trail é conhecido pelo seu espírito de companheirismo. Isso acontece também entre os corredores de elite, os que assumem os primeiros lugares?
Sim, é assim também. Por acaso, eu comecei a dar o salto para as grandes provas através do meu amigo Leonardo Diogo. Apesar de andarmos ao mesmo nível, temos uma excelente amizade. Sinto que devo muito da minha performance a este grande veterano madeirense, de 48 anos. Também há o caso do Armando Teixeira, o Nuno Silva, o Luís Duarte… Apesar de competirmos, temos um bom espírito de companheirismo, partilhamos experiências e procuramos sempre ajudar uns aos outros.

Sentiu esse “sentimento” enquanto esteve nos primeiros lugares?
Sem dúvida. Nos primeiros quilómetros conversámos um pouco, por exemplo. Sempre que alguém precisa de ajuda e estamos por perto, ajudamos uns aos outros.

 

 

Em termos gerais, como analisa a prova deste ano?
A prova estava muito bem organizada, com uma excelente marcação de percurso, com muito público, principalmente junto dos abastecimentos. Ao longo do dia a prova apresenta paisagens deslumbrantes, passamos por lugares únicos e é isso que me fascina no trail.

E qual acredita ser a importância da prova para a região da Madeira?
Para a Madeira é muito bom porque divulga a região. O MIUT recebe muitos continentais e estrangeiros, que também aproveitam para fazer alguns dias de férias com a família, para conhecerem a nossa ilha, que tem locais lindíssimos!

Próximos desafios e objetivos este ano?
O Azores Trail Run, a Ultra Skymarathon Madeira e a Ultra Pirineu. Talvez surja outra prova, mas ainda não está confirmada…