Único português a atingir o marco que foi a mais longa prova de Trail em alta montanha do mundo, o Trail des Glaciers, em plenos Alpes italianos, Diogo Simão tem, no entanto, já um extenso currículo no Ultraendurance, onde devemos dar uma boa ênfase a parte mental. Algo que, no entanto e em entrevista ao Corredores Anónimos, o economista, de certa forma, desvaloriza, garantindo acreditar que «qualquer pessoa pode fazer aquilo que eu faço…».

A participação no Tor des Glaciers foi apenas a última etapa do Diogo na ultradistância. Porquê esta preferência? Como é que aconteceu esta paixão?
Efectivamente é verdade. Tenho uma paixão por desafios de Ultra distância. Seja no Trail, onde já completei as mais emblemáticas provas non stop de Trail em montanha, seja no Utra triatlo, onde, no ano passado, organizei e completei o desafio solidário Portugal Ultra Triathlon, que consistia em 11,4 km de natação, 540 km de ciclismo e 126,6 km a correr.
O porquê desta paixão é um conjunto alargado que junta a minha história de vida e as minhas características, princípios e valores.
Em primeiro lugar, porque sou um amante da natureza no seu estado puro. A minha infância foi muito passada na serra, nomeadamente em Sintra, onde realizava diversas atividades de escuteiros, e na zona das serras do Açor e da Lousã, onde passava férias. Além disso, morava quase dentro de Monsanto, que era o meu playground. Era ali que brincávamos e vivíamos o nosso dia a dia.
Em segundo, porque adoro desporto. Todos. Quando era pequeno participei em provas de Atletismo, depois estive no futebol e acabei por ir parar ao mundo da escalada e do montanhismo. Parei de praticar desporto quando iniciei a minha vida profissional, mas consegui regressar a este mundo com o BTT, o Trail e o Ultra triatlo, que são desportos que permitem um contacto muito próximo com a natureza.
Em terceiro, porque gosto de desafios que me levem a questionar se tenho a capacidade ou não de os completar. Não gosto de competir contra um relógio, até porque não sou das pessoas mais rápidas. Gosto, isso sim, de me procurar superar, enfrentando desafios que coloquem a minha capacidade de resistência à prova, seja pela dureza do percurso, pela sua dimensão e duração.
Em quarto, porque são desafios de gestão, onde a tomada de decisões é permanente e onde o desafio é físico, mas principalmente mental. Costumo dizer que, para completar uma prova de Ultra endurance, é necessário ter a parte física bem preparada, mas o mais importante é parte psicológica. Diria que o rácio é 35% físico e 65% mental. Muitas vezes as pessoas desistem nestes desafios não por questões físicas, mas por um colapso mental que leva a uma má gestão de prova e a decisões erradas mesmo no momento da decisão. 
Por fim, porque tenho uma vida profissional intensa e estes desafios ajudam a criar um equilíbrio de mente sã em corpo sã. Durante as provas consigo desligar do mundo e aproveitar apenas aqueles momentos, as pessoas, as paisagens, os trilhos.

A parte mental é essencial para a conclusão das provas de Ultraendurance para Diogo Simão
A parte mental é essencial para a conclusão das provas
de Ultraendurance para Diogo Simão

É fácil conjugar as exigências desta especialidade com as obrigações de uma profissão ou até familiares? De que forma?
É um grande desafio que só é possível por contar com a compreensão da família e dos amigos. Eles são a prioridade da minha vida e quando tenho de optar não há dúvida que é neles que me centro. Felizmente que a família me apoia nestas aventuras – sabendo os sacrifícios que acarreta para todos – e que os meus amigos são também maioritariamente amantes do desporto e da natureza, pelo que treinamos e estamos juntos diariamente. Inclusive neste tipo de desafios. Temos um grupo – os Bora Bora – que é provavelmente o grupo de amigos que reúne maior número de praticantes de Ultra desafios a nível mundial. 
Por outro lado, não sou profissional de desafios de Ultra endurance, muito longe disso. Sou economista e diretor da BA&N, uma consultora focada na área da comunicação que é a referência na área da comunicação institucional e financeira em Portugal. Tenho o privilégio de aconselhar, assessorar e colaborar com algumas das maiores empresas nacionais e internacionais presentes no nosso país, em áreas muito dinâmicas e que requerem uma grande exigência, dedicação e capacidade de realização. Mais uma vez, o trabalho sobrepõe-se à prática desportiva, pelo que entre treino e trabalho, não há dúvida sobre a opção.
Esta hierarquização de preferências manifesta-se nos treinos. 
Geralmente, durante a semana o primeiro treino é feito às 6 horas da manhã, com duração até 2 horas, de forma a não afetar a disponibilidade profissional. Se a vida profissional e familiar permitir e se estiver alinhado com o plano, há nova sessão de 1 hora ao final do dia. Quando estou objetivos de Ultra triatlo tenho de repartir este tempo pela prática dos três deportos, quando estou focado no Trail torna-se mais simples.
Já ao fim de semana, treino sempre de manhã, começando geralmente muito cedo. Nos períodos de carga os treinos são de 6 a 8 horas, o que obriga a um grande sacrifício para conseguir encaixar o treino.

No Ultraendurance, Diogo Simão salienta que devemos treinar a parte mental

Que conselhos daria a um atleta que também queria aventurar-se nas Ultradistâncias? Como é que alguém se prepara para enfrentar esse tipo de desafios?
Eu acredito que qualquer pessoa pode fazer aquilo que eu faço. Mas para isso precisa de querer e crer muito. A vontade de realizar um desafio e a crença nas capacidades são fundamentais para superar todo o trabalho que é necessário fazer.
Como disse, para conseguir superar este tipo de desafios a parte mental é crucial, pelo que deve ser trabalhada e potenciada tal como se treina o corpo. Ou seja, o princípio da mente sã em corpo são.
A preparação do corpo deve começar com a realização de um exame médico desportivo, para garantir que está tudo bem e que não existe restrições físicas para embarcar na aventura. Depois, deve ser definido um plano de treino que esteja alinhado com as características do desafio. 
Entretanto, devem procurar falar com pessoas que já têm experiência nestes desafios e que partilhem o seu conhecimento, nas suas mais variadas vertentes. Coisas tão simples como saber que no Ultratrail os pés normalmente incham após o 4 dia de prova e que devem ter no saco de apoio (quando existe) umas sapatilhas um número acima daquele com que geralmente correm para minimizarem o desconforto da situação.

E no caso específico do Diogo, qual é o próximo desafio?
Ainda estou a definir o que vou fazer em 2020, mas é possível que volte a ter um objetivo de Ultra triatlo e outro de Ultra trail ou Alpinismo. Gostava de voltar a realizar uma nova edição do Portugal Ultra Triathlon e regressar aos Alpes para novas aventuras.
Seja como for, na preparação é previsível que participe em algumas provas de trail, em eventos de ciclismo e BTT e em desafios de águas abertas.