Campeão do recente Ultra Trail do Marão, Jérôme Rodrigues esteve muito perto de desistir no quilómetro 44. «Nunca senti tanto frio», refere, recordando ao mesmo tempo que já tinha feito provas com neve. Tal não aconteceu devido a umas calças impermeáveis e ao material obrigatório imposto pela organização. Este é o segundo dia d´«A Semana “O que é que estou a fazer aqui?”».

 

Poderia resumir a sua corridano Ultra Trail do Marão? Os momentos mais complicados, os abastecimentos, quando pensou em desistir, como deu à volta a cabeça, etc.
A prova começou de forma normal, com a boa disposição habitual dos participantes, embora conseguíssemos denotar alguma apreensão relativamente às condições que pudéssemos encontrar. Os primeiros 16km, com cerca de 1000m de desnível positivo, foram feitos ainda de um modo que considero normal, sem grande impacto para o corpo. O frio só viria a tomar conta de mim por volta do km 44, altura em que decidi desistir. Aprendo com outras pessoas que se submetem a estes desafios e com as minhas próprias experiências. A participação nesta prova viria a ser enriquecedora nesse aspeto, na aprendizagem. Nunca senti tanto frio. Já tinha feito provas com neve, recordo a edição 2016 do Ultra Trail de Conímbriga – Terras de Sicó, mas nunca experienciei uma sensação térmica tão comprometedora. A três quilómetros da Base de Vida do Alto do Espinho, ao km 47, os músculos estavam de tal modo contraídos pelo frio que não me era possível um simples trote em estradão plano.
Foi nessa altura que equacionei a possibilidade de abandonar a prova. Sabia que teria uma equipa de apoio na base de vida, que me seguia em todos os abastecimentos desde o início da prova, constituída pelo Zé Filipe Almeida e Célia Azevedo Meira. A capacidade de relativização é um trunfo nestas alturas mais complicadas. Decidi parar e vestir as calças impermeáveis, que me viriam a aquecer e a devolver a mobilidade na pequena descida para a Base de Vida. Embora debilitado pelo desgaste que o frio me provocara, na ausência pontual da minha assistência naquele posto, decidi continuar em prova até ao abastecimento seguinte. Os quilómetros que se seguiram fizeram-me constatar a importância do material obrigatório exigido muitas vezes pelas organizações. Para além de poder salvar vidas, em condições extremas, pode ditar se continuamos ou não em prova. E, no meu caso, as calças impermeáveis permitiram-me continuar em prova. Só viria a retirá-las a cinco quilómetros da meta.

Mas a luta pelo triunfo foi mais complicada do que imaginava no Ultra Trail do Marão? Como descreveria os seus principais rivais?
Não vejo as provas como uma competição cerrada com outros atletas. Obviamente que medimos forças, mas nem sempre os outros participantes constituem o nosso principal rival. No Compressport UTM não estavam presentes rivais. Tinha os amigos habituais de outras equipas. O principal rival foi mesmo a imponência da Serra do Marão e as condições que se abateram sobre ela. Ali estávamos todos em pé de igualdade, ninguém era melhor do que ninguém, todos lutavam simplesmente para chegarem ao fim daquele desafio.