Diogo Simão Tor des Glaciers 2019

Ultramaratonista experiente, Diogo Simão foi o único português a terminar o Tor des Glaciers, a mais longa prova de Trail em alta montanha já realizada em todo o mundo. Experiência que o consultor de profissão aceitou agora reviver, em entrevista exclusiva ao Corredores Anónimos.

Pensada como a mais longa prova de Trail em alta montanha do mundo, o Tor des Glaciers foi concebida como um evento único, espécie de celebração pelos 10 anos de existência do Tor des Geants, uma prova de 330 quilómetros e 24 mil metros de desnível positivo, também ela realizada nos Alpes italianos, e que é o evento de referência em provas de alta montanha no mundo.

No entanto, e porque se tratava de um evento único e sem repetição, os seus organizadores decidiram elevar ainda mais a fasquia. Fixando, no caso do Tor des Glaciers, um trajecto de 450 quilómetros, com 37 mil metros de desnível positivo. E que o português Diogo Simão acabou completando, apesar das tempestades de neve e temperaturas que chegaram aos 20 graus negativos em apenas 182h43m.

Apesar de não ser atleta profissional, Diogo Simão conta já com um extenso currículo em termos de ultradistâncias
Apesar de não ser atleta profissional, Diogo Simão conta já com um extenso currículo em termos de ultradistâncias

Com esta marca, o português foi um dos 40 atletas de um total de 100 que se apresentaram à partida e conseguiram cortar a linha de chegada.

Este é o testemunho, na primeira pessoa, dessa conquista…

O Diogo acaba de tornar-se no primeiro português a terminar a mais longa prova de Trail em alta montanha do mundo, o Tor des Glaciers. Qual é a sensação? E, quando terminou, lembra-se do que se sentiu?
Uma prova começa muito antes do momento da partida. Para conseguir correr 450 quilómetros com 37 mil metros de desnível positivo – os números que que constam do roadbook do Tor des Glaciers – são necessárias uma preparação cuidada e uma grande experiência acumulada.
Quando terminei a prova, lembrei-me dessa caminhada. Dos muitos treinos feitos com os amigos, dos treinos feitos sozinho, dos sacrifícios pessoais e profissionais, das pessoas com quem me cruzei, das pessoas que fazem parte da minha vida, dos momentos maravilhosos que vivi nestes meses.

O Tor des Glaciers é um ultra-trail sem marcações, que obriga a ter conhecimentos de orientação
O Tor des Glaciers é um ultra-trail sem marcações, que obriga a ter conhecimentos de orientação

Mas além disso, lembrei-me das dificuldades que ultrapassei durante a prova, especialmente da que vivi aos 300 quilómetros quando o amigo Jorge Serrazina teve de abdicar de continuar por razões médicas. Queria chegar ao fim e queria oferecer-lhe essa alegria.
Sinto-me um privilegiado por ter a capacidade de realizar desafios de ultra endurance, por me procurar superar nos desafios a que me proponho. Há muitas pessoas que estão limitadas, por razões médicas ou físicas, e que não conseguem partir nestas aventuras. Há outras que atravessam momentos complicados na vida e estão a lutar pela sua sobrevivência e que olham para nós como exemplo. A melhor maneira que tenho de respeitar todas estas pessoas, de honrar o seu sacrifício, é entregar-me nestes desafios e procurar dar-lhes motivos para sorrir.

As diferenças do trail em alta montanha

Agora que já passaram alguns dias, que avaliação faz da sua participação na Tor de Glaciers – quais foram as maiores dificuldades, o que foi sentindo ao longo dos 450 km, a resposta às condições meteorológicas e altitude, a táctica que utilizou…
O Tor des Glacier é uma prova diferente das tradicionais provas de trail. Antes de mais pela sua distância, altimetria e altitude. Depois, porque é uma prova sem marcações, que obriga a ter conhecimentos de orientação, e porque é realizada em autonomia, com poucos pontos de abastecimento. Geralmente, a distância entre refúgios é superior a 20 quilómetros, o que por vezes significa mais de 8 horas sem ter acesso a comida ou líquidos.

A distância, a altimetria e a altitude, são três das principais especificidades de um trail em alta montanha como o Tor des Glaciers
A distância, a altimetria e a altitude são três das principais especificidades de um trail em alta montanha como o Tor des Glaciers

Outra dificuldade resulta da distância e posicionamento das bases de vida, ou seja, dos locais onde podemos ter acesso ao nosso saco de apoio, com as nossas coisas. No Tor des Glaciers são apenas três, sendo que a primeira está localizada cerca do quilómetro 160. Isso levou a que tomasse a decisão de carregar tudo o que poderia precisar para percorrer essa distância em autonomia total. Resultado? Mais de 13 quilogramas na mochila.
No entanto, a principal dificuldade para mim é sempre a altitude. A prova tem 10 picos acima dos 3.000 metros de altitude e mais de três dezenas de grandes montanhas, todas superando os 2 mil metros de altitude, sendo a altitude média da prova superior a 2.200 metros. Geralmente demoro cerca de dois dias a acomodar os efeitos e só a partir do terceiro dia é que consigo ter um rendimento mais consentâneo com as minhas capacidades. Este ano, procurei ir para a zona da prova mais cedo, de forma a facilitar a adaptação. Isso trouxe resultados pois permitiu que sentisse os efeitos da altitude apenas a partir dos 2.500 metros, quando o habitual é que tal aconteça a partir dos 2.000 metros.
Já quanto à gestão da prova, acho que a experiência é um grande aliado neste tipo de desafios. Fiz o trabalho de casa e procurei perceber as grandes dificuldades e os ritmos que eram necessários para concluir a prova. Nesse trabalho fiquei com a noção clara que os tempos de corte eram muito exigentes, especialmente o último antes da meta, aos 400 quilómetros. O que se veio a confirmar, pois foram vários os atletas barrados neste ponto.

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O que me surpreendeu foi a tecnicidade de muitas zonas do percurso. Se as vias ferratas era algo com que já contava, pois já conhecia algumas das zonas mais técnicas que percorri na PTL de 2017, muitas das zonas que desconhecia apresentavam muitas dificuldades de progressão. Os pisos eram muitas vezes instáveis e impossíveis de correr, dada a neve, o gelo, os caos de blocos, as cordas e correntes… Chegámos a demorar quase 1 hora para percorrer um quilómetro e meio apenas.
Esta situação tornou-se ainda mais complicada com o mau tempo dos primeiros dois dias de prova, onde tivemos de enfrentar a neve e o frio que superou aos 10 graus negativos. Uma das consequências foi ao nível dos pés, que ficaram muito massacrados com gretas logo nos primeiros 150 quilómetros, resultado do molhar e secar, do frio e do calor.
Face à previsibilidade destas situações, a minha estratégia de prova passava por ganhar uma margem de segurança para as barreiras horárias na fase inicial, para depois fazer a gestão da prova com segurança e, a partir das últimas montanhas, poder pensar na questão da performance. Junto com o Jorge, conseguimos ganhar essa margem de segurança e implementar a estratégia de gestão de prova. Essa gestão passa muito pela questão do sono. A minha opção passa sempre por não dormir na primeira noite e, nas noites seguintes dormir entre 1h30 e 2 horas, preferencialmente no período entre a uma e as cinco da manhã. Durante o dia, no caso de ter sono, o “segredo” é fazer uma power nap, ou seja, uma “sestinha” de 15 minutos que permite uma recuperação do corpo e da mente.

Uma proposta irrecusável

Já agora, porquê o desafio do Tor des Glaciers?
A questão é mais: como não? O Tor des Glaciers era uma oportunidade única! Era uma edição especial, reservada a 100 atletas muito experientes de todo o mundo, passando por locais inóspitos em alta montanha, com um percurso altamente técnico que conjugava distância e altimetria, permitindo disfrutar da montanha por uma semana… Para quem gosta de ultra desafios, de montanha, de natureza no seu estado puro e de provas técnicas – como eu – era uma proposta de valor irrecusável.

Cumprido totalmente nos Alpes italianos, o Tor des Glaciers obriga os atletas a fazerem 450 km, num traçado sem marcações e com um desnível positivo de 37 mil metros
Cumprido totalmente nos Alpes italianos, o Tor des Glaciers obriga os atletas a fazerem 450 km, num traçado sem marcações e com um desnível positivo de 37 mil metros

Tenho pena que só 40 tenham conseguido completar o desafio, pois o percurso é magnifico, desde o ponto de partida até à chegada.

Antes da prova propriamente dita, que tipo de preparação fez, e durante quanto tempo?
A preparação foi a possível. Tive pequenas limitações físicas que me impediram de treinar como gostaria e de forma consistente até ao início de maio. Aliás, quando fiz o exame médico desportivo anual, por essa altura, tinha mais 6 quilos do que aquando dos exames um ano antes.
Por isso, tive de fazer uma preparação acelerada. Fiz uma saída de alta montanha para Sierra Nevada, de forma a fazer uma adaptação à altitude, fiz o Estrela Grande Trail e participei na Ronda Del Cims, em Andorra, como intuito de prosseguir com essa habituação e treinar subidas e descidas duras e longas.
Já mais próximo da prova fiz duas saídas para a Serra da Estrela, que é o sitio em Portugal que apresenta características mais semelhantes às que encontramos neste tipo de provas em termos de altimetria. Já tenho um percurso modelo que faço três semanas antes das provas e foi isso que mais uma vez aconteceu.

“no Tor des Glaciers terei perdido cerca de 6 a 7 quilos. Ou seja, estamos a falar de 1 quilograma por dia.”

Entretanto, com o meu amigo Hélio Fumo, definimos um plano de treino com o intuito de, num prazo curto, recuperar forma e perder peso, ao mesmo tempo que fazia treino específico para a prova. Foram semanas intensivas onde a carga chegou a 140kms e mais de 8.000 metros de desnível positivo em apenas 6 dias.
O trabalho compensou, pois na prova senti os benefícios do esforço realizado.

Alguns cuidados com a alimentação? 
Desta feita tive de ter cuidado com a alimentação na fase de preparação, dada a necessidade de perder peso. No entanto, procuro ir para estas provas com mais peso do que o normal. É impossível repor o gasto calórico diário durante a prova, pelo que é fundamental ter reservas energéticas e de glicogénio em alta. A partir do quarto dia de peso o corpo começa a sofrer mutações e a perda de peso começa a ser evidente. Para ter uma ideia, no Tor de Glaciers terei perdido cerca de 6 a 7 quilos. Ou seja, estamos a falar de 1 quilograma por dia.

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Mas falando de alimentação, e de alimentação durante as provas, procuro ao máximo ingerir comida normal. Coisas a que o meu estômago e corpo estão habituados. Não ingiro géis nem barras, optando por produtos não processados. Nas bases de vida e refúgios de montanha onde era possível, comi refeições normais, sempre focado em refeições ricas em proteínas. Durante estas provas longas a destruição muscular é elevada pelo que devemos repor reservas de proteína que favoreçam a recuperação muscular.
Nas horas entre refúgios favorecia a ingestão de alimentos energéticos, como chocolates bolachas e frutos secos. Nos troços mais longos consumi também wraps mistos de queijo e presunto, de forma a aportar proteína em maior quantidade.