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Organizada por Armando Teixeira, um dos principais nomes do trail nacional, o Estrela Grande Ultra (85 km e 11.000 metros de desnível acumulado) teve a sua primeira edição no fim-de-semana, na Serra da Estrela. A honra de vencer pela primeira vez a prova coube a Miguel Baptista, que apenas teve a certeza de que venceria a prova nos metros finais.

 

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Esta foi a primeira edição do Estrela Grande Trail. Sente orgulho por ser o primeiro vitorioso da prova?
Claro que sim. Não só por ser o primeiro vencedor da primeira edição, mas por ter sido num evento desta envergadura, onde estiveram presentes atletas muito bons.

Mas, concretamente, o que significou para si a vitória no Estrela Grande Trail?
Significou que todo o esforço e trabalho que estou a fazer está a dar frutos e que estou a ser bem orientado pelo meu treinador Eduardo Santos, do Centro de Treino O Mundo da Corrida.

E imaginou algum dia vencer a prova? O que esperava, por exemplo, no momento da largada, quais eras as suas expetativas?
Jamais pensei em vencer a prova. No início, e além de querer chegar ao final sem mazelas de maior, as expetativas era ficar no Top 5.

miguel2Qual foi o seu segredo para o triunfo final?
Não houve segredo, foi apenas acreditar no trabalho que tenho vindo a fazer, nas horas e quilómetros que faço diariamente nos trilhos. E dar tudo por tudo na prova. Muitas vezes pensei que a minha namorada e o meu primo, o Miguel, que acompanharam a prova toda de abastecimento em abastecimento, deviam estar fartos de esperar a minha passagem. Portanto, tive de me despachar (risos)

Tem experiência em provas de trail. Já tinha vencido outras provas?
Sim, já tinha chegado em primeiro duas vezes, mas em provas com poucos atletas e onde a “concorrência” não era muita. Foi no I Ultra Trail da Arrábida, em 2013, em que cheguei ex aqueo com outro atleta, e, há duas semanas, numa prova perto de casa, o I Ultra Trail de Alcains.

Ou seja, esta foi a principal vitória do seu curriculum?
Sim, foi o ponto mais alto enquanto atleta desta modalidade.

Como foi a prova, desde a largada até ao final?
Como geralmente acontece, antes da partida existe sempre aquele nervoso miudinho, que passa logo após as primeiras passadas. Tentei seguir num ritmo ligeiramente confortável, pois sabia que a primeira parte do percurso era a mais exigente. Até à Garganta de Loriga seguíamos num grupo de 3 ou 4 atletas, mas como gosto de descidas, aproveitei e descolei. Neste momento, penso que estava em terceiro e assim se manteve até ao Alvoco da Serra, onde se seguiria a subida mais exigente de toda a prova, o Km Vertical. Como já conhecia aquela “parede”, decidi poupar as pernas e subir num ritmo ligeiramente mais lento. No início da subida fui ultrapassado pelo João Colaço, que, em pouco tempo, deu-me um bom avanço. Ao chegar à Torre, alimentei-me bem e saí com o objetivo de encurtar distância para os atletas à minha frente. Aproveitei a descida até ao Vale Glaciar e, ao chegar à subida antes de Poios Brancos, vi o Colaço uns 300 metros à minha frente.
Após a subida cheguei ao abastecimento e vi novamente o Colaço, mas um pouco mais distante. Acelerei e tentei alcançá-lo, o que aconteceu pouco antes do abastecimento de Vale de Amoreira. Ao chegar lá, a minha namorada informou-me que o primeiro classificado, o Luís Duarte, seguia uns cinco minutos à minha frente. Fiquei entusiasmado e acreditei que talvez fosse possível chegar ao primeiro lugar. Entretanto, chegou o Colaço, que se despachou mais rápido do que eu, e partiu segundos antes de mim. Via ele uns 100 metros à minha frente… Poucos minutos depois, inesperadamente e uns metros atrás de mim, ele diz-me que eu estava em primeiro, já que se tinha perdido, assim como o Luís Duarte.
Como estávamos numa subida complicada, tentei não baixar o ritmo, para manter a distância. Após a subida, olhei para trás e o João e o Luís estavam mais distantes. Pensei que aquele poderia ser o meu momento, tinha de dar tudo por tudo nos últimos 14/15km.
Entretanto, tive dois percalços: primeiro tropecei numa raiz e caí no trilho, ficando com algumas cãibras que desapareceram em segundos, e, uns minutos depois, senti um aperto no estômago e larguei tudo cá para fora. Sabia que faltavam uns dois quilómetros para a meta e procurei manter o ritmo.
Depois foi chegar à meta, dar um beijo à minha namorada e um abraço ao Armando Teixeira, o organizador do evento.

O que achou do trajeto? Como descreveria o mesmo? É muito técnico?
O trajeto é excelente! Tem duas partes distintas: a primeira, até Poios Brancos, é mais técnica e exigente em termos físicos; os restantes 35 kms são mais rápidos.
Gostaria de destacar no entanto três zonas. A primeira é o percurso entre Vale do Rossim e a Garganta de Loriga, sempre em subida ligeira. Uma paisagem fantástica, toda aquela imensidão de cores e nós ali tão pequeninos… Só apetecia parar e tirar fotografias; a segunda é o trilho da Garganta de Loriga, do melhor que já fiz. Vale a pena o fazer um dia, seja a subir ou a descer, a correr ou a caminhar; e, por fim, a subida de Alvoco da Serra para a Torre. Aquele Km Vertical é a subida mais dura que já fiz em Portugal, mas é um espetáculo.

Qual o momento que mais temeu durante a prova? E o momento mais complicado?
O momento que mais temi foi quando, na descida para Loriga, torci o pé duas vezes seguidas e fiquei cheio de dores. Temi que tivesse de abandonar a prova. Felizmente que, uns minutos depois, as dores passarem e não voltaram a incomodar.
O momento mais complicado talvez tenha sido na subida de Alvoco da Serra para a Torre. O calor era muito e, apesar de tentar subir num ritmo que não massacrasse muito os músculos, ia com os “bafos de fora”.

miguelQuando sentiu realmente que era possível vencer o Estrela Grande Trail?
Quando entrei em Manteigas e olhei para trás e não vi ninguém nos 300/400 metros atrás de mim.

Como analisaria a prova? O que gostaria de destacar? E o que acha que será necessário melhorar?
Penso que a prova e todo o evento correram bastante bem. Destaco o fantástico percurso e as paisagens, mas também a excelente organização e a preocupação com a segurança dos atletas. Vi bombeiros, ambulâncias, GNR de Montanha e muitos voluntários ao longo do percurso, isso é muito importante. Além disso, a simpatia e disponibilidade das pessoas que estavam nos abastecimentos. A chegada foi talvez a mais bonita que já vi.
A melhorar, penso que a cor das marcações. A vegetação da serra em poucos dias ficou amarela e, como as marcações eram desta cor, por vezes ficava-se um pouco confuso com tanto amarelo.

Como vê a prova no futuro?
Vejo o Estrela Grande Ultra como uma referência no Trail nacional e europeu, uma prova que tem pernas para crescer. Existe uma estrutura e matéria-prima excelentes. O querer e saber de um dos melhores ultra-maratonistas mundiais, que colocou todo o seu conhecimento em prol deste evento, que foi um sucesso logo na primeira edição, só faz prever coisas boas.

Depois de correr a prova, como explica a Serra da Estrela ser quase ignorada nas provas de trail nacionais?
Não vejo as coisas assim e sei que a Serra da Estrela não é ignorada nas provas de Trail. Por exemplo, só este ano tenho conhecimento de, pelo menos, três eventos de Ultra-trail. Por acaso estou na organização de um desses eventos, o “EstrelAçor Ultra Trail”, a decorrer nos dias 4, 5, e 6 de Setembro, que terá o seu “quartel general” em Linhares da Beira e irá percorrer as serras da Estrela e Açor durante 180 kms. Existem ainda as distâncias de 42 e 21 quilómetros.
No entanto, também é notório que a Serra da Estrela está distante dos grandes centros urbanos, o que pode afastar um pouco as organizações desta serra. Além disso, as portagens da A23 também não ajudam nada.

Próximos desafios e objetivos este ano?
O próximo desafio será o Louzan Trail, no dia 20 de Junho, e, posteriormente, o Ultra Trail du Mont Blanc, em finais de Agosto, o objetivo do ano.

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