Rui Martins, do Centro de Marcha e Corrida de Odivelas, participou recentemente das 12 Horas de Barcelona. No total, deu 242 voltas a uma pista de 400 metros (e mais alguns metros…), correndo um total de 102,5 km e obtendo a 19.ª posição.

Como teve conhecimento da prova e o motivo por correr em Barcelona?
Esta prova é conhecida como a última hipótese de apuramento para a Spartathlon na Grécia, por isso ter tantas nacionalidades, cerca de 35 este ano.

Na sua opinião, qual o cuidado que devemos ter na preparação para uma prova com estas caraterísticas?
Na minha preparação tive um foco especial com a parte psicológica, visto que são voltas de 400 metros e, psicologicamente, é superdesgastante. É uma prova diferente e, na minha opinião, é muito mais fácil fazer um Trail de 100 km do que 100 km numa pista. Mas não estou a falar só na vertente psicológica, mas também na física. Não ter a variante de esforço de subidas e descidas é mais maçador para as pernas.

Como foram os seus treinos? Quando começou, km por semana, treinos longos, etc. Poderia fazer um resumo da sua preparação?
Utilizei provas longas como treino, como por exemplo os 100 km de Abrantes, a Meia- maratona de Abrantes, mas também muitos treinos longos em pista, em Odivelas, uma pista mais pequena mas que deu perfeitamente para trabalhar a parte psicológica.
Resumidamente, a minha semana foram de 100 km de corrida, 4 km de natação e 25 km de bicicleta. Esta preparação começou a ser trabalhada em agosto.

Antes de Barcelona, Rui Martins somou um treininho de 50 km em Odivelas
Antes de Barcelona, Rui Martins somou um treininho de 50 km em Odivelas

Na prova de Barcelona, havia alguma regra em especial para os competidores?
Sim, as 12 horas, devido a ser uma prova de apuramento para a Spartatlhon, na Grécia, tinham muitas regras da IUA. A que mais senti diferença foi a de não ter, nas 12 horas, direito a abastecimento de comida, só o que tínhamos connosco. Já a prova das 24 Horas tinham sopa, esparguete, etc. Enfim, alimentos quentes

Na sua opinião, qual a principal filosofia de uma prova de 12 Horas?
A filosofia é ter a capacidade de ultrapassar todas as fraquezas psicológicas que vamos tendo durante a prova. E não são poucas… Correr a volta quase sempre no mesmo local é muito desgastante.

A massagem, numa prova de 12 Horas, é obrigatória
A massagem, numa prova de 12 Horas, é obrigatória

E o que há de desafiante neste tipo de provas?
O psicológico, sem dúvida, o conseguir ultrapassar todos os pensamentos menos bons. Todos os atletas os têm, só alguns os conseguem contornar.

Mas quais os principais cuidados a ter durante a prova? O descanso? A alimentação? O ritmo?
A alimentação e a hidratação são o principal. Mas também é importante trabalhar os ritmos em treino para saber e estruturar a nossa prova. Em relação ao descanso, cada um tem a sua estratégia. O meu objetivo foi não parar mas, infelizmente, não foi isso que aconteceu. Tive de parar mas felizmente sempre recuperei o tempo perdido.
Os motivos das paragens deveram-se a parte alimentar. Como referi, pensava que iria ter os abastecimentos sólidos e quentes, mas não foi isso que aconteceu. Devido a essa minha falha, tive de fazer as últimas 4 horas com uma sandes de presunto, gomas e amêndoas.

A ansiada medalha de Rui Martins
A ansiada medalha de Rui Martins

E havia outros objetivos?
Tinha dois: passar os 100 km e ficar nos 20 primeiros colocados. Procurei ao longo da prova correr de acordo com os meus ritmos de treino e andar dentro dos 25 primeiros sem me deslocar muito. Aos poucos, com o desgaste dos meus adversários, fui subindo e alcancei o 19.º lugar, que estava dentro dos meus objetivos.

Qual foi a principal dificuldade sentida ao longo das 12 horas?
Foi mesmo a gestão dos meus abastecimentos. Tive uma falha muito grave na leitura do regulamento e levei só 4 sandes de presunto e gomas. Tive de gerir essa comida pelas 12 horas… Foi difícil, desafiante e tive a clara a noção de que poderia ter estragado a minha prova.

Rui Martins com outros competidores nacionais nas 12 Horas de Barcelona
Rui Martins com outros competidores nacionais nas 12 Horas de Barcelona

E, das 12 Horas, qual a hora mais complicada?
As últimas quatro, precisamente devido a alimentação

Conseguiu manter o seu ritmo de treino? Como foi a sua gestão de ritmo?
O objetivo era estar sempre a correr numa velocidade confortável, mas infelizmente tal não foi possível. Para andar nos primeiros 25 atletas, no início, chegamos a estar a 4m30 ao quilómetro durante quase 20 km, o que me estava a assustar, ainda mais por ninguém falar com ninguém. No entanto, aos poucos, fomos ficando menos no grupo e a intensidade baixou.

Acredita que as 12 Horas são uma prova mais psicológica do que física?
Sem dúvida.

E como fez para evitar o sono?
Não tive. (risos)

Este foi o seu maior desafio até hoje?
Não, já fiz uma prova de 48 Horas, num percurso de 1600 metros, onde consegui correr 250 km.

Acredita que poderia ter corrido mais?
Os 100 km eram o meu objetivo, mas senti que posso fazer muito mais.

O que poderia falar sobre o convívio na prova?
Na minha prova, e visto que estavam 35 nacionalidades, foi muito bom. Após um início silencioso, acabámos por falar uns com os outros e cada um, à sua maneira, se fez entender. Foi uma grande experiência!

Já voltou a correr?
Sim, já, estou a preparar um novo desafio para Janeiro…

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