Rodrigo Machado percorreu Portugal de bicicleta no telhado da sua casa. No total, foram cerca de 1700 km, numa média de 55 km/dia. Um desafio para atenuar a malfadada quarentena…

Quais as “regiões” mais complicadas por onde pedalou? Algarve, Norte, Beira interior?
Norte, seria sempre a Norte pelo desnível. Simulei toda uma travessia da Serra do Gerês, que conheço bem, e aí sim metia muita carga e esforço na pedalada de forma a simular a travessia da Serra. Voltei a fazer o mesmo na zona da Serra da Estrela.

Sentia algo especial quando “passava” por uma localidade que tem um especial carinho?
Sim, claro, foi uma das coisas que me levou a querer este tipo de experiência. Já que não podia viajar na realidade, iria viajar nas minhas memórias. A certa altura da minha vida profissional andei por muitas cidades do país a organizar eventos de corrida para uma marca desportiva e assim fui fazendo amigos das corridas por todo o lado. Nesta experiência, ao passar nas suas cidades, recordava-os, os momentos que tivemos juntos. Entrava em contato com alguns e conversávamos, estando assim mais próximos. Aveiro e toda a sua zona de costa e ria é-me particularmente especial, pois é onde sempre faço férias desde que nasci. Por essa razão, foi o meu primeiro terreno de aventuras, onde tanto cresci e aprendi e onde tenho bons amigos.

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Ficou surpreendido com a qualidade da sua bicicleta?
Para ser sincero é uma bicicleta estática bem simples mas muito funcional. Acima de tudo muito fiável, leve para o género mas muito estável. No entanto, achei por bem fixá-la à estrutura com cintas de segurar carga de forma a não ter alguma surpresa durante os treinos, tal como o conjunto se desmoronar comigo em cima.

E costumava utilizá-la em casa ou estava encostada a um canto do sótão?
Já tenho esta bicicleta há bastante tempo, é dobrável e por isso mais fácil de arrumar e tê-la em casa mais à mão. Foi uma das caraterísticas principais na escolha do modelo precisamente por essa razão, se não é prático acabamos por raramente usar. Eu treino nela com alguma regularidade, mas digamos que é por fases. Ou seja, durante toda a época de Verão e bom tempo, dificilmente a utilizo. Em épocas em que a meteorologia é péssima ou em alturas de trabalho muito intenso e pouco tempo disponível, então pedalo normalmente uma hora, que dá à volta de 30 km.

Como foi a resposta, nas redes sociais, desta aventura? Ficou surpreso com a receção?
Não foi tão participativa como já tive em outras viagens ou aventuras, o que considerei normal e estava dentro das minhas expetativas. Estava muito limitado no espaço de forma a poder partilhar conteúdos úteis e de interesse. Era necessário bastante criatividade, mas a altura era boa, uma vez que estávamos a iniciar o confinamento e havia sempre seguidores online e a quererem interagir. A certa altura lancei um passatempo com o apoio da empresa de caminhadas com quem colaboro como guia, oferecendo um voucher no valor de 30€ a quem acertasse ou mais se aproximasse do número total de quilómetros que no final teria percorrido, número este que nem eu mesmo sabia uma vez que ia decidindo o trajeto dia após dia. Isto trouxe mais seguidores e pessoas a apoiar a minha experiência.

Há alguma história especial que tenha ocorrido ao longo desses dias relacionada com este desafio?
Especial mesmo foi ir-me apercebendo ao longo deste período que estava a servir de exemplo e a motivar outros a não se deixarem dominar pelo desânimo e facilmente permitir que a inercia e tédio os invadisse num período longo de confinamento, que é algo novo para todos nós.Era bastante motivante e divertido quanto seguidores e/ou amigos entravam no jogo com o espírito desta viagem virtual e conversavam comigo como se eu realmente estivesse a rolar na estrada. Convidavam-me para passar nas suas casas a almoçar, outros queriam pedalar juntos comigo a etapa da zona onde residem. Assim o divertimento e a boa disposição ajudavam na etapa, mas principalmente a todos em época de muitas limitações e parados no tempo.

Por dia, qual foi a média de quilómetros e tempo? Poderia deixar aqui as parciais?
A média ficou à volta de 55 km diários, em um treino entre a 1h30h e 2h00h É preciso ter em conta que, apesar de simular subidas e alterar a carga e força na pedalada exercida ao longo de cada etapa, este tipo de exercício em estática acaba sempre por levar menos tempo do que se realmente estivesse a pedalar na estrada.

10 aprendizagens que o Rodrigo Machado retirou deste desafio no… telhado?

  • Ajuda muito ter objetivos para treinar e assim manter a boa forma física
  • O tempo é dos bens mais preciosos que temos e por vezes desperdiçamos tanto…
  • Uma hora de exercício físico, logo pela manhã, dá-nos um bom ânimo para o dia
  • Estar sozinho não significa solidão, depende tudo da forma como encaramos e agimos
  • Temos uma capacidade imensa de adaptação que, por vezes, desconhecemos
  • Desistir não deve fazer parte da equação
  • Ser criativo traz-nos vantagens na vida
  • Ter desafios é importante e faz-nos crescer
  • É importante termos tempo para estar com nós mesmos
  • Superarmo-nos e dar o nosso melhor traz-nos bem-estar e um sentimento grande de realização

As etapas da Volta a Portugal no Telhado de Rodrigo Machado

DiaEtapaKmTimeDiaEtapaKmTime
1Lisboa – Ericeira41,401:20h16Viseu – Nelas20,760:42h
2Ericeira – Baleal52,901:41h17Nelas – Covilhã65,232:16h
3Baleal – Praia de Paredes60,201:58h18Covilhã – Castelo Branco61,632:18h
4Praia de Paredes – Figueira da Foz67,302:32h19Castelo Branco – Alter do Chão83,782:57h
5Figueira da Foz – Aveiro60,302:03h20Alter do Chão – Évora Monte63,342:20h
6Aveiro – Porto63,002:03h21Évora Monte – Viana do Alentejo62,042:02h
7Porto – Famalicão33,001:07h22Viana do Alentejo – Beja43,301:32h
8Famalicão – Viana do Castelo64,202:07h23Beja – Almodôvar64,042:02h
9Viana do Castelo – Valença49,001:38h24Almodôvar – Faro73,312:42h
10Valença – Castro Laboreiro52,501:45h25Faro – Portimão63,261:54h
11Castro Laboreiro – Cabril68,431:56h26Portimão – Vila do Bispo44,351:15h
12Cabril – Cabeceiras de Basto36,501:08h27Vila do Bispo – Odemira72,212:40h
13Cabeceiras de Basto – Vila Real47,201:30h28Odemira – Sines53,331:58h
14Vila Real – Ponte de Rio Balsemão45,021:30h29Sines Troia66,502:03h
15Ponte de Rio Balsemão – Viseu48,041:31h30Troia/Setúbal – Lisboa43,302:10h