Ricardo Dias lamenta Portugal não reconhecer em pleno o papel que o atleta militar pode ter na sociedade, já que, com os seus resultados e feitos, pode servir de exemplo para todos.

Sempre conseguiu conciliar a corrida e o Exército ou é algo complicado no nosso país?
No início não foi fácil, mas atrás de uma força de vontade e querer enorme, sempre focado no objetivo, consegui conciliar o desporto e a parte profissional.
A instituição Exército nunca esteve preparada para o Alto Rendimento em nenhum desporto. Provavelmente poderá ter estado na equitação. Mas duvido que alguém dos quadros permanentes do exército tivesse nas fileiras só dedicado ao desporto. Não conheço ninguém que tivesse esse privilégio. Daí conciliar isto tudo foi difícil.
No início, ao final de um ano de tropa, já tinha engordado uns quilos a mais. «Vim para a instituição para tentar ser atleta e está tudo a correr ao contrário», pensei.
Entrei para o exército a 28 de junho de 2004, estive um ano como contratado (sargento em regime de contrato) e, em setembro de 2005, entrei para a Escola de Sargentos do Exército. Em 2007 entro para os quadros do exército e sou promovido a 2.° sargento do quadro do exército.
Estive praticamente sem o treino direcionado para o Atletismo entre junho de 2004 e julho de 2006. Depois, quando tive oportunidade de voltar a treinar, meti na cabeça que tinha de voltar aos treinos e lutar pelo que tanto queria.
Assim, voltei a treinar à 07h00, antes das aulas, e depois as 17h00, depois das aulas. Ainda andei uns 3 a 4 anos sempre nestes horários.
Só após ganhar alguns campeonatos do exército e dar nas vistas em provas civis é que comecei a ter a liberdade para poder treinar no horário de trabalho, todos os dias das 08h30 às 10h30, que foi uma ajuda absolutamente importante. Foi quando os resultados começaram a aparecer.

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Em alguns países, como no Brasil, as forças armadas apoiam os atletas, que chegam inclusive aos Jogos Olímpicos e em Mundiais. Estamos muito longe dessa realidade?
Sim, infelizmente estamos muito longe desse cenário. Todas esses grandes atletas de países como o Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França e Polónia, entre outros, têm quadros especiais para Atletas de Alto Rendimento.
O atleta concorre ao programa e, após entrar, a missão dele é treinar, comer, dormir e representar o seu país. Consoante os seus resultados, o contrato é ou não renovado. Isso faz com que os atletas acabem por ser um exemplo para a sociedade e as forças armadas usam este mecanismo para recrutar mais pessoas. Quando acabam a carreira desportiva, os atletas têm a oportunidade de ficar nos quadros, fazem as provas de aferição e alguns seguem a carreira. Outros não conseguem ou saem por opção.
Estive em 2019 no maior evento desportivo militar, na China, e vi muito atletas militares que são campeões do mundo, da Europa e olímpicos medalhados. Esses militares estão inseridos num programa próprio, que os leva e ajuda a atingir esse patamar.
O desporto foi e sempre será uma forma de mostrar supremacia. As grandes potências querem ter os melhores soldados, mas também os melhores desportistas, por isso oferecem condições aos seus atletas.

Nos campeonatos desportivos militares, foi campeão 11 vezes do exército e sete das Forças Armadas. O que o militar Ricardo Dias pode falar destas provas e destes títulos?
São títulos que muito me orgulham. E sei que escrevi a minha história nos campeonatos militares e quero continuar a escrever.
Muitos podem pensar que é fácil ganhar as provas, mas nunca foi e jamais será fácil! Ganhei todas essas vezes mas houve anos que não consegui. O Exército teve sempre um lote de bons atletas que se destacaram em provas civis. Eu sempre planeei a época de maneira que, nessas datas, pudesse chegar sempre em forma para tentar lutar pela vitória. Felizmente tenho sido muito feliz.
Falando do campeonato nacional das Forças Armadas e Forças de Segurança, que tive a felicidade de ter ganho até ao momento sete vezes, devo admitir que fico muito feliz porque era um objetivo que queria muito, levei muitos anos a ganhar pela primeira vez.  Em 2005, quando estive envolvido pela primeira vez neste campeonato, fiquei fascinado com a qualidade dos atletas da GNR, onde tinham uma super-equipa. Os elementos dessas equipas corriam todos nas melhores equipas de Portugal e eram dos melhores atletas do país, alguns olímpicos. Posso dizer que foram uma inspiração. Nesse tempo, a GNR dava condições aos melhores, mas os seus atletas tinham muita qualidade e gozavam desse estatuto por direito próprio. Aliás, eles ganhavam tudo, em todos os escalões, foram os únicos campeões mundiais de corta-mato e ainda hoje se fala dessa equipa. E foi nesse dia, no ano de 2005, que prometi a mim mesmo que um dia ganharia aquela competição. Custou muito, perdi muitas vezes e em algumas ocasiões estive muito perto de ganhar. Finalmente chegou o meu momento e lá consegui ganhar, alcançando uma série de vitórias seguidas, que muito me orgulho.

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O que o Ricardo Dias retira de bom quando veste um fato militar? E uns calções e uma T-shirt de corrida?
São duas fardas, mas a mesma atitude e o mesmo foco, feitas e vestidas para cumprir missões. Quando visto a farda militar, automaticamente acarreta mais responsabilidade, sentimento que tenho que cumprir uma variedade de missões do âmbito militar, que é para isso que servem os militares, cumprir missões.
Quando visto uns calções e uma T-shirt, é um sentimento de liberdade mas também um sentimento que tenho muito que treinar para cumprir missões, as missões próprias, missões pessoais.

Mas, genericamente, um fato militar está associado a guerra, enquanto a corrida está ligada a liberdade. Concorda?
Sim, concordo. Se pensarmos na guerra  convencional, como a I e II Guerra mundial ou a Guerra do Ultramar, são sempre confrontos de militares e podemos afirmar que um fato militar é vestido por militares associados à guerra.
Mas os militares não existem só para “causarem” e estarem em guerras, a maior parte das vezes as missões atribuídas são para ajudar a manter a paz. A missão que vou executar com a minha unidade em breve na República Centro Africana é uma missão inserida nas Nações Unidas que tem como missão a manutenção da paz.

Na quinta-feira, Ricardo Dias aborda como é o seu dia-a-dia de treinos