Ricardo Dias acredita que o Atletismo e o Exército têm elos em comum, mas também fronteiras bem distintas entre o desporto e a tropa. No entanto, em ambas, o atleta encontrou os valores que regem a sua vida. 

O Ricardo Dias, quando era mais novo, sonhava com a tropa ou com o Atletismo?
Quando jovem nunca me passou pela cabeça ir para a tropa. Aliás, tenho muitos familiares que tiveram na Guerra do Ultramar, mas aquilo nunca me fascinou. Aquilo que aprendi a querer seguir era ser profissional de Atletismo, que era muito difícil em Portugal.
Contudo, com o passar dos anos, tive a sorte de ser sempre bem-aconselhado pelas pessoas que orientavam a minha carreira. Destaco o professor Mário Cunha e o Amadeu Gomes, meus treinadores nas camadas jovens, que me educaram e foram sempre diretos. Eles diziam que nem todos conseguiam chegar ao Alto Rendimento e que a minha preocupação principal tinha de  ser os estudos para depois organizar a minha vida profissional e ganhar estabilidade financeira.
Acabei o 12.° ano e fui trabalhar para uma empresa têxtil em Barcelos (SILSA). Tive a sorte de conviver com dois amigos que acabavam de chegar da tropa. Ttinham cumprido os quase 10 anos de vida militar nos paraquedistas, em Tancos.
Como viam a treinar de manhã e a tarde, a ir e a voltar do trabalho, que ficava a 12 km, eles disseram para eu concorrer à tropa. «Depois da recruta e a formação base, tu, como és bom corredor, rapidamente vais fazer parte da seleção do Exército e depois vai ser só correr, lá tens tempo para treinar», disseram.
Como a minha vida era acordar muito cedo para treinar, trabalhar entre 8 e 10 horas por dia, voltar a treinar e dormir cedo, falei com o meu treinador, que disse ser uma hipótese. Fiquei convencido e, ao final de oito meses, dei-me como voluntário no Centro de Recrutamento de Braga. Passado algum tempo, fui chamado e começou a minha aventura na instituição militar. Mas não foi nada como eles disseram…

Acredita que a experiência militar, que exige disciplina e resiliência, foi fundamental para a progressão do Ricardo Dias no Atletismo?
Acredito que a disciplina e a resiliência são fundamentais para qualquer pessoa que quer muito conquistar algo. Logo nos primeiros anos no Atletismo foi-me incutido que tinha que ser disciplinado e resiliente, um verdadeiro sofredor para conseguir concretizar os meus objetivos. Esses aspetos não foram incutidos pela instituição militar, mas o desporto. O desporto é uma escolha de virtudes e valores fundamentais para todos os jovens e, na minha opinião, deveria ser obrigado a todos os jovens praticarem um desporto como atividade extracurricular. Eu, se hoje sou aquilo que sou, devo ao desporto. Se não fosse o desporto não seria militar. No desporto uma criança aprende  a ser aplicada, disciplinada, resiliente, etc. E logicamente que vou aplicar esses valores em tudo que envolve a vida.

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Mas também são dois atributos fundamentais numa instituição militar, ou não?
A resiliência e disciplina, na instituição militar, são fundamentais para conseguir concretizar os primeiros passos, principalmente na instrução base e complementar. Na instituição aprendi muitas outras coisas e explorei outros atributos. O Atletismo é um desporto individual, enquanto na instituição militar, sozinho, não vais a lado nenhum. Onde um vai, vão todos e ninguém pode ficar para trás. Por exemplo, aprendi o verdadeiro significado da palavra camaradagem, que consiste em adotar comportamentos que privilegia a coesão, a solidariedade e a coordenação de esforços individuais de modo a consolidar o espírito de corpo e a valorizar uma equipa ou um conjunto de pessoas como fosse uma só. Na instituição militar aprendi o verdadeiro sentido das seguintes virtudes: camaradagem, lealdade e obediência. Aliás, valores que a sociedade civil está a perder.

E o que o Ricardo Dias encontra em comum entre o Atletismo, em concreto a corrida, e o exército?
‌Os atributos que qualquer desportista de Alto Rendimento precisa ter andam praticamente todos de mãos dadas com os atributos de um verdadeiro militar. Em ambos devem ser educados, disciplinados, resilientes, dedicados, focados, corajosos, inconformados, determinados e apresentarem um enorme espírito de sacrifício.

Na quarta-feira, Ricardo Dias aborda a dificuldade em ser um atleta-militar