Ricardo Dias revela que, mesmo na pandemia, jamais deixou de treinar, referindo que, em 2020, treinou mais de 5000 km, mesmo em tempo de pandemia.

Resumidamente, como é o seu dia a dia Exército-Corrida? Treina de manhã, desempenha as suas obrigações militares e volta a treinar, por exemplo?
Tirando estes últimos 7 meses, já que estive numa preparação para uma missão da ONU, o meu dia a dia é o seguinte: saio de casa às 7h00 da minha casa, que fica em Castelo de Neiva, e chego ao Porto por volta das 8h00 no Regimento de Transmissões, a minha atual unidade. Às 8h30 tenho a formatura de início de trabalho.
Felizmente, como ganhei nos últimos anos o campeonato do Exército e das Forças Armadas, estou dispensado pelo comandante de unidade para realizar o meu primeiro treino até às 10h00. Depois, às 10h30, estou pronto para desempenhar as minhas tarefas de acordo com as minhas funções. Tenho o posto 1.° sargento, sou da Arma de Transmissões e sou Técnico de Equipamento Eletrónico Rádio.
Saio da unidade às 17h00, vou para casa e realizo o meu segundo treino. Isto todos os dias.
Mas, nos últimos sete meses, como estive no Regimento de Comandos, na serra da Carregueira, em preparação para uma missão da ONU na República Centro Africana com início a 26 de outubro com os Comandos, não mantive essa rotina de treinos.

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E que tal a experiência de estar inserido numa tropa de Elite, nos Comandos? Está preparado para a sua missão?
Os Comandos são uma força especial muito capaz, direcionada para o combate e idealizada para este tipo de missões específicas. É um privilégio enorme treinar com eles. Estou encantado e entusiasmo. Sobre estar preparado, tal como na preparação para as competições depois de muito treino, consolidação de rotinas e procedimentos, sentimos que conseguimos corresponder ao exigido. Mas só após acabar a missão é que sabemos se realmente fomos capazes. Sinto que estou preparado porque, além de atleta, tenho já alguns anos dedicados à parte operacional e vou desempenhar aquilo que sempre desempenhei e ao qual fui formado.
Eu vou inserido no Módulo de  Comunicações, que tem um oficial, três sargentos e quatro praças. Neste módulo todos têm a sua missão e tarefas específicas, mas, no geral, a nossa missão é garantir o ininterrupto exercício do comando e controlo ao comandante da força e aos comandantes das companhias de manobra e apoio.
Na prática, temos que instalar, explorar e manter os meios de comunicações e sistemas de informação necessários ao comando e o controlo da força. Estamos a falar de meios e equipamentos, tais como rádios, satélites, routers, servidores, etc.

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Depois de um 2020 conturbado, recentemente o Ricardo Dias treinou para o Nacional de Estrada, mas não conseguiu participar por ser destacado para essa mesma missão militar na República Centro Africana, em outubro. De certo modo, ficou frustrado? E esta foi uma situação recorrente na sua carreira desportiva ou uma exceção?
Estes últimos meses têm sido difíceis para todos. A pandemia, a escassez de provas e outras marcadas mas depois canceladas ou adiadas dias antes da data prevista. No entanto, os atletas nunca pararam de treinar, eu nunca parei de treinar. Aliás, no ano de 2020, fiz mais de 5000 km durante o ano todo, não treinei 7 ou 8 dias.
Depois, no início deste ano, surgiu a oportunidade de intregar a 10.ª Força Nacional destacada para a República Centro Africana. Já adiava este desafio há algum tempo devido ao foco no Atletismo. Contudo, devido à situação da Covid, onde as provas eram uma incerteza, mas também por ter como objetivo integrar uma missão desta envergadura, aceitei o desafio e integrei o Módulo de Comunicações, iniciando o aprontamento a 05 de abril deste ano.
Contudo, nesta preparação, nunca parei de treinar. Sempre treinei forte e tive a esperança de participar nas provas importantes do calendário nacional, como os campeonatos nacionais.
Mas, por motivos e encargo operacional, não foi possível participar no último Nacional de Estrada em setembro. Desde que iniciei a preparação no Regimento de Comandos, deixei de ser atleta e militar e passei a ser militar e só depois atleta. A prioridade era o treino operacional e, na data do Nacional de Estrada, coincidiu com um exercício militar em Alcochete. Foi frustrante porque, apesar de tudo, estava num bom momento e queria pôr em prática os meus treinos, já que houve muita dedicação e empenho da minha parte, além de tentar retribuir todas as pessoas que me ajudaram, o meu clube, os meus patrocinadores e colaboradores, que também, de certa forma, investem em mim para poder estar forte nas provas mais importantes. Mas a prioridade era a preparação e certificação da força.
Durante a minha carreira militar já tive alguns episódios como este, ou seja, preparar a competição e não a poder correr devido aos compromissos de última hora.
Falhei o Nacional de Estrada mas estava convencido de que aproveitaria a preparação para fazer no Nacional Militar, onde iria lutar pelo meu 12.° título. Mas infelizmente nem isso vou poder fazer porque foi adiado para uma data onde já não vou estar em território nacional. É assim, mas foi esta a vida que escolhi.

Evidentemente que esta preparação para a missão militar na República Centro Africana acaba por colocar a sua preparação para as corridas em segundo plano. Mas como lida com essa situação, o lado psicológico de não estar a treinar?
Arranco no dia 26 de outubro para a República Centro Africana, vou ficar sete meses longe da família, sem competir, mas o foco é cumprir a minha missão e o treino passa para segundo plano. No entanto, vou aproveitar todos os momentos que tiver para treinar. Sei que vai haver alturas que não vou conseguir, mas também sei que vou ter tempo para poder fazer o meu treino. Tenho que esforçar e nunca perder o foco. Um dos objetivos principais é tentar não ganhar peso para poder voltar a um bom nível físico o mais rápido possível.

Na sexta-feira, Ricardo Dias aborda como será os seus treinos na República Centro Africana

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