Na segunda parte da entrevista, Ricardo Ribas recorda as pessoas que foram fundamentais no seu caminho, mas também o treino que mais detestava de fazer. E que nunca o fez…

Vamos regressar ao início. Como surgiu o interesse do Ricardo Ribas pelo Atletismo?
Desporto Escolar. Mas sou daqueles casos que, desde que me lembro de ser gente, sempre adorei correr e sempre sonhei em ir aos Jogos Olímpicos. Não é só no Quénia que existem casos assim. Era um transmontano em Malhadas… Como eu, existiam e existem centenas de crianças em vários outros desportos com muito talento, mas com poucas ou nenhumas oportunidades para darem nas vistas. Eu cheguei a enviar cartas para o Benfica, Sporting e Porto, com apenas 12 anos.

E quando teve perceção de que era algo profissional, algo a sério?
Quando explodi na pista, com 7m59s34 aos 3000m e 13m52s76 aos 5000m. Isto em 15 dias… O Maratona CP, com o Rafael Marques, apostou em mim e saí dos restaurantes, onde trabalhei durante 8 anos. Dediquei-me 800% ao Atletismo.
Tenho um amigo, Carlos Ferrão, que me disse: «Ribas, tu és bom a trabalhar no restaurante, isso já ninguém tem dúvidas e podes fazê-lo a vida toda. No Atletismo, é agora ou nunca. E esta opinião foi muito importante para mim.»

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Na ocasião, tinha uma referência no Atletismo?
António Pinto. E, de um momento para o outro, éramos do mesmo clube. Óbvio que, com 19 anos, sentia-me pequenino, mas tive a oportunidade de estar com os melhores do mundo e de sempre: Albertina, Carla Sacramento, Junqueira, Castros, Guerra, Ramos… Eu cresci com a nata das natas do nosso Atletismo.

Como analisa o crescimento do atleta Rocardo Ribas na modalidade?
Acredito ser daqueles casos de estudo, e por isso ser uma referência a nível nacional, não pelo meu valor desportivo, mas pela minha resiliência. Eu vou lançar aqui um dado impressionante que em Portugal ninguém tem: eu, desde 1987 até 2019, participei em todos os Nacionais de Corta-Mato. Juvenis, juniores e seniores. E apenas desisti no último, onde o tendão de Aquiles rebentou de vez.
O meu crescimento foi com calma, tranquilo e sem pressas. No entanto, e acima de tudo, nunca duvidei do meu valor, nunca fugi aos meus ideais e jamais passei por cima de alguém para alcançar o meu sucesso.

O que experiência no Atletismo vai trazer para o seu futuro?
A experiência vai ajudar-me a conseguir alcançar os  objetivos que tenho em mente. Sei que são ambiciosos, mas sempre fui um sonhador e continuarei a ser.

O treino que mais detestava fazer? E aquele de que mais gostava?
Detestava fazer a pirâmide com o treinador João Junqueira: 1000/2000/3000/2000/1000 metros. Nunca terminei este treino… Adorava fazer os 3x3000m.

Evidentemente que há vários nomes que foram fundamentais na sua carreira. Mas quais seriam o Top 5 do Ricardo Ribas?
Rui Silva, João Junqueira, José Ramos, Dulce Félix e Manuel Freitas Mendes.
O Rui Silva, desde o juvenil, sempre o admirei. Somos da mesma colheita e ele já era um monstro com 15 anos. Era aquele que, estando 6 degraus acima de nós, queria ser como ele e consegui. O Rui no patamar dele, eu no meu. A minha ida aos Jogos Olímpicos equivale à medalha olímpica do Rui Silva.

Com Junqueira e Ramos aprendi imenso, treinei milhares de quilómetros com eles. Acima de tudo, segui sempre os ideais deles, nunca me desviei um milímetro e tive muito sucesso com o que eles me ensinaram.

A Dulce e o Manuel, no pior momento da minha carreira. A maneira como ela treinava, a forma como ele via as coisas sendo um atleta com incapacidade física. Eu pensei: «Sou mesmo um sortudo. Ele sem um braço e nunca se queixa. E eu aqui com tretas.» Ajudaram-me imenso a sair de um buraco escuro da minha vida e carreira.

Na terceira e última parte da entrevista, na quarta-feira, Ricardo Ribas revela como surgiu a sua alcunha, mas também o Atletismo atual e o que define um corredor

Fotos fornecidas por Ricardo Ribas