No último dia d´«A Semana da Meia-maratona de Lisboa», Hélder Mestre recorda como alcançou o recorde do Mundo da classe T51/52 da distância e as dúvidas se vai ou não participar da Taça do Mundo da Maratona, em Londres, no próximo mês. Sobre o apoio para o desporto na área da deficiência, uma constatação preocupante: «Ainda está numa fase muito periclitante. A verdade é que a crise prejudicou bastante…».

 

Esperava superar o recorde do Mundo ou a ideia inicial era “apenas e só” vencer a prova?
Tinha confiança de que poderia fazer um bom tempo porque estava a treinar para a Maratona da Taça do Mundo, em Londres. Com essa ideia em mente, fiz uma partida rápida e mantive sempre um andamento forte, apesar do vento contrário. Aguentei bem o ritmo até ao primeiro retorno, no Cais do Sodré. Foi aí que tive consciência de que poderia alcançar uma boa marca.

Em relação a sua prova em concreto, qual foram as principais dificuldades? Qual foi a estratégia?
Resumidamente, a prova correu bem. Senti dificuldade com o vento, principalmente após o último retorno, pois estava já bastante cansado e podia deitar tudo a perder com uma perda súbita de ritmo. O objetivo foi começar com um ritmo intenso desde o início. Não me preocupei com os adversários porque sabia que, com um ritmo forte, a seleção far-se-ia naturalmente.

Quando faz o retorno na prova, evidentemente que tinha consciência de que poderia superar o recorde do Mundo. Como fez para superar um adversário até então inexistente, o vento?
O vento obrigou-me a cerrar os dentes. Sabia que a vantagem era confortável mas não podia facilitar, até porque tinha bem presente na memória o que se tinha passado em Sevilha. Concentrei-me mais no ritmo das braçadas e lutei para não fazer pausas.

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Como explica ter reduzido o recorde do mundo em 18 minutos?
Foi uma enorme surpresa! Posso dizer que reuniram-se todas as condições para que tal acontecesse. Como disse acima, senti sempre uma total disponibilidade para o esforço e nunca deixei de impor um ritmo muito forte.

Qual a opinião que tem da Meia-maratona de Lisboa?
É a prova que mais gosto de fazer, é muito boa! A organização tem muita experiência e tudo decorre sempre pelo melhor. O tempo, regra geral, faz quase sempre o favor de estar bom.

Sei que ainda não sabe se poderá participar da Taça do Mundo da Maratona, em Londres, no próximo mês. Em concreto, qual o problema?
O Comité Paralímpico Internacional definiu o tempo de 2h30 como mínimo de participação para a classe T52. Por arrasto, incluiu também a classe T51. Mas é muito improvável que um atleta T51 consiga fazer esses mínimos, que são pensados para uma classe com menos limitações, ou seja, são altamente exigentes. O problema deve-se ao facto de não haver um mínimo específico para esta classe em concreto.
A minha única hipótese de participação passa por um convite a ser feito pelo próprio Comité Paralímpico Internacional, o chamado wilcard. O Comité Paralímpico Português também pode fazer esse pedido.

Imaginemos que tudo corre pelo melhor em relação a sua participação na Taça do Mundo. Este triunfo e o consequente recorde do mundo na Meia-maratona de Lisboa o coloca em outro patamar para a prova?
Penso que não. Trata-se de outra prova, outro percurso, uma distância que é o dobro desta em que consegui o recorde.

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Mas, de certo modo, os seus rivais já não o considerarão como apenas mais um atleta a participar na prova, mas como um atleta a “abater”. Isso é benéfico para si?
Penso que não será benéfico, serei um atleta “marcado”. Obrigar-me-á a estar mais atento, não só às contingências do percurso, como também dos adversários.

E a pressão será maior…
Sem dúvida.

E qual o seu objetivo para a corrida?
Será lutar pela vitória.

Como analisa o desporto na área da deficiência no nosso país? Em termos governamentais e de empresas?
Ainda está numa fase muito periclitante. A verdade é que a crise prejudicou bastante. Existem umas quantas empresas que têm apoiado desde sempre o desporto, mas o panorama geral é de um grande desinteresse. A nível estatal tem sido feito um esfoço para proporcionar mais condições, mas não é o suficiente e os resultados desse investimento só terão reflexo daqui a alguns anos.

E qual o caminho a seguir? Há resultados, há aqui e ali algum apoio, mas a verdade é que a exposição não existe.
Bem, o caminho faz-se caminhando. Resta-nos fazer o nosso melhor e apelar às consciências deste país.