Aos 40 anos, Paulo Paula alcançou os mínimos para os Jogos Olímpicos de Tóquio e o seu melhor tempo pessoal com os novos ténis da Nike na recente Maratona de Sevilha. Doping tecnológico?

Alcançou o seu melhor tempo pessoal com os revolucionários Nike Vaporfly. Até que ponto credita a sua marca aos novos ténis?
Não credito a minha melhor marca pessoal aos ténis. É verdade que eles fazem muita diferença em relação ao conforto durante a prova, preservam a musculatura da panturrilha, o que faz com que, no final, não sintamos dores. Mas a minha marca eu credito ao meu treinamento sério, ininterrupto e focado.

Mas qual a sua opinião sobre o denominado doping tecnológico?
Para mim não existe doping tecnológico, já que, se o atleta não estiver preparado, nenhuma ferramenta tecnológica vai fazer milagres.

Apesar da discussão, o que não se pode negar é que muitos atletas têm alcançado os seus melhores tempos com estas novas sapatilhas. Acredita que estes infindáveis melhores tempos que vários corredores têm alcançado acabam por retirar algum valor aos tempos dos atletas?
Acredito que a relação entre eles usarem os ténis e alcançarem os seus melhores tempos é por os ténis darem muito conforto durante a prova. Se o atleta se sentir confortável durante a corrida, ele consegue desenvolver uma melhor performance.

Mas, como atleta, esses comentário sobre os benefícios dos ténis deixam o Paulo Paula, no mínimo, triste?
Sim, fico triste, já que ninguém vê a luta diária para se alcançar um grande resultado. São treinos debaixo de chuva, frio e muitas renúncias feitas para conseguir ter êxito. E é triste ver todo um trabalho sendo apagado e a glória sendo dada a um ténis. As sapatilhas são uma ferramenta de trabalho. Se o operador desta ferramenta não estiver apto e preparado para desenvolver o trabalho, essa ferramenta de nada servirá.

Na natação, e depois de muita polémica, aliás como está a acontecer com os novos ténis, os fatos foram banidos de vez das provas. Acredita que o mesmo poderá acontecer no Atletismo?
Não acredito.

LEIA TAMBÉM
Paulo Paula colocou um pé em Tóquio 2020 depois de Sevilha

Pessoalmente, qual a opinião do atleta Paulo Paula sobre os ténis? O que tem de positivo e de negativo (se tiver algo…)?
Como já disse, não existe milagre para se fazer resultados, o que conduz aos resultados são os treinos, a preparação feita pelo atleta. Se me disserem que colocas o ténis no chão e ele sai sozinho do lugar, aí posso dizer que ele faz milagre!… Mas não é assim, quem corre sabe que, quando você “quebra” durante uma prova, não tem santo nenhum que te faça levantar. E o mesmo acontece com estes novos modelos. Se não estiveres preparado, meu amigo, podes esquecer que não adiantará em nada teres o mais recente ténis do mundo e toda a sua tecnologia. Não há milagres sem esforço e dedicação.
Corri com o Vaporfly Next% em uma São Silvestre aqui em Portugal e “quebrei” de uma forma que não teve ténis que me ajudasse naquele momento. A Maratona de Sevilha foi a primeira que corri usando esse modelo em particular. O que posso falar sobre o que senti é que as sapatilhas ajudaram no conforto muscular, ajudaram a não sentir as pernas pesadas. Com isso, o meu rendimento pode ser melhor aproveitado. Mas isso só é possível você estiveres bem preparado, já que, se não estiveres em condições, os ténis não te ajudarão a “ter pernas” suficiente para concluir a prova e muito menos alcançar bons tempos. O meu rendimento não é resultado dos ténis, são meses de treinos intensivos e bem feitos. Um bom ténis ajuda no conforto ao correr, isto é claro, mas ainda não faz milagre!
Se existe umas sapatilhas que oferecem conforto para correr, é claro que as devemos usar, tudo o que vier para somar é válido. Mas não se pode achar que somente os ténis são os responsáveis pelas vitórias. Sim, as Vaporfly Next% são boas, mas deixa de treinar para ver se vais conseguir algum resultado…

Defende muito a preparação, os treinos dos atletas. Este continua a ser o segredo dos maratonistas?
Sim. Os treinos são a parte fundamental para se correr bem uma Maratona. Sem treino duro, foco e determinação, não há vitória, mesmo com os melhores ténis do mundo.

LEIA TAMBÉM