Paulo Paula procurou correr a Maratona de Valência e de Fukuoka, curiosamente agendadas para o dia 6 de dezembro, para testar a sua performance. Por diversas razões, principalmente a pandemia da Covid-19, não o conseguiu. Estivemos à conversa com o brasileiro, com índice olímpico para Tóquio 2020, para entender o que isso influi na sua preparação para os Jogos.

Vive um dos melhores momentos da sua carreira mas não consegue correr uma prova. Até que ponto isso é desmotivante?
Logicamente que ficar sem correr não é bom, mas mundialmente todos os atletas estão sem participar de provas. Espero que toda esta pandemia passe o mais rápido possível para podermos fazer o que mais gostamos, que é voltar a treinar e competir em condições normais, sem restrições.

Procurou participar na Maratona de Fukuoka e de Valência, mas não conseguiu ser convidado. Qual a importância de uma prova na preparação para um objetivo, no seu caso a sua terceira participação nos Jogos Olímpicos? É algo essencial?
Em relação a essas provas que serão realizadas, é verdade, fiquei triste. Na minha modesta opinião, os organizadores dessas grandes maratonas não se preocuparam com os atletas da elite em geral. Por exemplo, em Valência, optaram por levar somente atletas de grandes marcas e atletas com os melhores tempos do mundo.
Já Fukuoka optou por atletas locais e também alguns atletas com os melhores tempos do mundo. No entanto, no caso do Japão, é algo justificável, pois o país organizará uns Jogos Olímpicos no próximo ano e os problemas atuais levantados pela Covid-19 não são fáceis de resolver em termos orgnizativos.
Mas seguirei a trabalhar. Pela minha experiência e vivência na corrida, e conseguindo treinar sem problemas, acredito que regresso a minha melhor forma física rapidamente, o que me colocará em condições de fazer uma excelente prova nos Jogos Olímpicos. Se se confirmar a minha classificação, obviamente…

No seu caso, qual o limite para correr uma Maratona antes dos Jogos Olímpicos? Três meses antes? Cinco?
Acredito que três meses antes é um bom prazo, mas devo correr uma Maratona até o prazo máximo para obtenção do índice, que é 1 de maio.

Acredita que a Maratona dos Jogos será uma das mais imprevisíveis de sempre, muito devido a essa falta de provas?
Acredito que será atípica pelo condicionamento físico de todos os atletas. E, mesmo sendo realizado os Jogos, os atletas não estarão competitivos, pois as provas preparativas que nos dão esse lastro para competir não ocorrerão como de costume, retirando assim a preparação e a lapidação do condicionamento físico de todos.

Como encontra motivação para treinar com um objetivo tão longe e sem objetivos intermédios? Os treinos são suficientes?
A motivação de um atleta bem focado e que ama o que faz surge da constância em sempre estar a se aperfeiçoar. Sendo um atleta de Alto Rendimento, sei que, se estiver sempre bem preparado, as oportunidades aparecerão. Como amo o que faço, os treinos servem até como um equilíbrio para a minha vida. Apesar de vivermos este período, não perco o foco da preparação.

Por falar em treinos e performance, como estão a ser as sessões de trabalho de Paulo Paula ?
O meu treino tem sido de segunda à segunda, onde faço 16 quilómetros em um único período entre segunda e quinta. Na sexta-feira, um semi-longo de 20 quilómetros e, no sábado, 15/16 quilómetros num ritmo confortável para fazer volume numa espécie de descanso ativo. No domingo, 30 quilómetros.

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Com a escassez de provas e com a pandemia a não abrandar, pelo contrário, acredita que a World Athletics terá de rever a qualificação olímpica para a Maratona? Por exemplo, dando liberdade às federações de escolherem os seus atletas, evidentemente caso estas não tenham atletas qualificados através do índice?
Acredito que a World Athletics possa rever o sistema de qualificação olímpica para Tóquio 2021. No entanto, dar liberdade de escolha às federações no que se refere aos atletas que as representarão nos Jogos não pode e nem deve ser sinónimo de levar atletas abaixo das três primeiras classificações do ranking do país em causa. O que quero dizer com isto é o seguinte: se a federação tiver liberdade para escolher os seus atletas que ainda não obtiveram o índice exigido tanto pela World Athletics como pela federação, deve-se sempre escolher em função do ranking atualizado, ou seja, os três primeiros atletas do ranking de cada país.

Alcançou em Sevilha 2020 o seu recorde pessoal, 2h10m08, aos 40 anos. O seu anterior melhor tempo era Pádua 2012, 2h10m23. O que foi determinante nestes oito anos de diferença?
A experiência e o trabalho dos treinos são fundamentais para alcançar objetivos. Sempre coloquei isso na minha mente e cultivei esse pensamento ao longo da minha carreira, razão pela qual cheguei a obter essas marcas entre dois Jogos Olímpicos. Sempre acreditei no meu potencial, sempre acreditei que era possível baixar os tempos.
Manter as condições físicas, a mente focada e encontrar as condições corretas nas maratonas. O resultado dessa soma só pode ser igual ao sucesso.

Mas, ao nível de treinos, o que O Paulo Paula não fazia antes e faz hoje tend em conta a sua performance. Onde está a grande diferença?
Ao longo da minha carreira desportiva nunca fui um atleta de fazer longas rodagens. Na minha primeira Maratona rodei no máximo 160 km/semana.
Depois dos Jogos do Rio percebi que faltavam quilómetros nos meus treinos. Foi quando tirei os meus treinos de séries e aumentei o volume para 210 km/semanais.
Agora, além de mais o volume, utilizo competições bases para testar aquilo que pretendo para cada prova.
Com essas mudanças, e a minha experiência, a minha corrida ganhou muito. Mesmo com a minha idade, sinto-me muito bem e acredito que ainda posso bater recordes pessoais e alcançar muitos bons resultados.