Na hora do triunfo e da glória, Paulo Barbosa, novo campeão nacional de Corta-mato curto, não esqueceu quem tornou isso possível, como o treinador Bruno Jesus. O atleta do Maia AC falou ainda da importância da modalidade, para si e para a História do Atletismo de Portugal.

Na sua página do Facebook, fez questão de salientar a importância do seu treinador, Bruno Jesus. Qual a sua real importância?
Em primeiro lugar, este título não é só meu, mas de todas as pessoas que estão por trás, pessoas onde estão incluídas o Bruno Jesus, todo o meu grupo de treino, a minha namorada (que acaba por ser uma das pessoas que mais se destaca em todo o apoio que tenho) e até da minha própria família.
Poderia dedicar esta vitória a qualquer uma das pessoas mencionadas acima, mas nesta prova em questão acho que o Bruno era a pessoa que merecia este destaque, já que ele foi o verdadeiro responsável por este título.
Conheço o Bruno há imensos anos e até já fomos colegas de treino, era eu ainda júnior. Entretanto, na minha época de transição dos júniores para os séniores, surgiu a proposta de ingressar numa equipa que a mim me é muito querida, que é o Santiago, precisamente a convite do Bruno Jesus. Foi então que surgiu a ligação entre atleta e treinador e onde começámos a desenvolver um trabalho em conjunto, não a pensar no momento, mas a pensar numa carreira a longo prazo, com o Bruno sempre a acreditar em mim, mesmo quando muitos diziam o contrário.
Entretanto, os resultados foram aparecendo e as exigências aumentando, com o Bruno a me pedir uma medalha, fosse ela de ouro, prata ou bronze. No ano passado, acabo por não lhe dar esse prémio por escassos metros, ficando no quarto lugar no Nacional na Marinha Grande.
Este ano cheguei ao Nacional com essa ambição, de lutar por essa medalha de bronze perdida no ano anterior, mas nunca imaginaria que seria capaz de ganhar o Nacional…
Com o decorrer da prova vi uma pessoa que estava em cada reta, em cada curva, uma pessoa que esteve em todo lado como se estivesse ali a correr ao meu lado e que acreditou na vitória mais do que eu mesmo.
No final da prova, o Bruno merecia este título tanto ou mais do que eu, não só pelo apoio, mas também pelo trabalho que tem tido comigo, pela pessoa que tem sido como um segundo pai.
Acabo assim por dedicar a ele este título, também por saber o gosto que o Bruno tinha em vencer esta prova enquanto atleta e onde, numa das edições, acabou por ser vice-campeão nacional, perdendo o ouro no sprint final com o Rui Silva. Agora sim ele pode dizer que já o ganhou, não como atleta, mas como treinador.
Todo este destaque que dei ao Bruno Jesus é merecido e devo-lhe um enorme OBRIGADO.

Paulo Barbosa gosta de correr o Corta-mato, 
muito devido ao passado alcançado pelos portugueses
Paulo Barbosa gosta de correr o Corta-mato,
muito devido ao passado alcançado pelos portugueses

Corta-mato é a sua modalidade de eleição? Sente-se bem a correr neste tipo de terrenos?
Sim, podemos dizer que o Corta-mato é uma das minhas modalidades de eleição, não porque fui agora campeão nacional, mas porque, desde que iniciei a prática do Atletismo, sempre houve um gosto especial por correr nestes terrenos, fossem eles muito acentuados, planos ou até mesmo com imensa lama. E é uma modalidade que já nos deu muitas medalhas no Atletismo e uma modalidade com imensa história. Este gosto passa também por aí, por ver muitos daqueles que foram grandes e por querer ser como eles.
No início gostava mais de correr o Corta-mato curto porque achava ser a prova que, no meio da elite nacional, ser a única onde conseguiria correr no meio deles e acompanhá-los. Mas, com o passar dos anos e com o crescer da experiência, o gosto acabou por ficar dividido entre ambos, fosse o Corta-mato curto ou longo. Hoje é difícil escolher entre um deles sinto em ambos uma satisfação e um prazer enorme em correr cada Corta-mato que faço.

E o que o Corta-mato tem de especial?
Na minha opinião, o que torna o Corta-mato de especial, é toda a glória que Portugal já conquistou nesta modalidade, de termos sido uma das maiores potências internacionais no Corta-mato.

E quais os segredos para sermos bons corredores de Corta-mato?
O segredo é que nós, portugueses, sempre fomos pessoas trabalhadoras e atletas com ideias fixas, que sempre soubemos aquilo que queremos e por aquilo que lutamos. E, no Corta-mato puro, todo o atleta precisa de ser persistente e de ter um espírito de sacrifício que permita ser mais forte que as adversidades que o Corta-mato proporciona. E nós, portugueses, sempre o fomos.

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Mas acredita que o Corta-mato nacional atravessa o seu momento mais complicado em termos históricos?
Se formos comparar com as épocas em que tínhamos atletas como Paulo Guerra, Fernando Mamede, Carlos Lopes, entre muitos outros, acredito que sim, até porque os resultados falam por si.
Mas, em termos de atletas com valor, acredito que temos atletas capazes de contrariar essa tendência. Os maus resultados, na minha opinião, acontecem por existir uma falta enorme de apoios aos nossos atletas que naquela altura existia. Hoje temos vários atletas com valor e que não são capazes de o demonstrar porque muitos deles são obrigados a dividir o seu tempo entre os empregos e o treino, acabando por não terem a preparação correta e a não descansarem o suficiente por falta de tempo. Os nossos atletas não têm os apoios certos que os permitem focarem-se a 100% na modalidade, como acontecia no passado.

Qual a sua distância preferida?
A minha distância preferida é sem dúvida os 5000 metros ou os 10000 metros por serem distâncias que me permitem desfrutar mais da corrida e porque a preparação para ambas, além de me fascinarem, permitem-me explorar mais os limites do corpo, quer na componente da velocidade, quer na componente da resistência. Sempre foram as minhas distâncias preferidas e onde trabalho diariamente para ser um dos melhores.

Próximos objetivos?
Os próximos objetivos para esta época passam por preparar bem o que resta da época de Inverno e procurar correr a um bom nível. No nacional de Corta-mato longo, a 15 de março, vou procurar lutar por um Top 5.
Quanto a época de Verão, logo no início vou tentar estar presente na Taça da Europa dos 10000 metros, em Londres. Depois vou tentar lutar por um lugar na seleção, que irá marcar presença no Campeonato da Europa de Pista, em Paris.

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