Foi preciso a pandemia para Nuno Rocha finalmente concretizar o seu objetivo: correr entre Lisboa e Fátima. Foram 183 km cumpridos em cerca de 26 horas.

Começava por perguntar como foi que surgiu esta ideia de ligar Lisboa a Fátima a correr.
Esta era uma ideia que já fazia parte dos meus planos há alguns anos, contudo, uma vez que tenho sempre um calendário competitivo definido normalmente logo ao início do ano, tratando-se este percurso Lisboa- Fátima de uma longa distância, acabava por ir ficando em standby, dando prioridade às provas já definidas, as quais exigem treinos muito específicos.
Sendo este um ano atípico, em que fiquei sem competições a médio prazo, foi a altura certa para realizar este percurso, pois foram surgindo muitas saudades das longas distâncias.

Foram 183 km, cumpridos em 26 horas. Apesar de ser um atleta habituado a longas distâncias, quais foram as principais dificuldades que sentiu neste desafio? E a que altura do percurso surgiu a certeza de que sairia vitorioso desta prova?
A maior dificuldade foi não me ter preparado com o devido tempo para a distância, valeu-me a experiência das ultras, com toda a certeza.  Mas diria que a maior de todas foi a parte inicial, até Santarém, por serem mais de 100 km de retas intermináveis, o que me levou a optar por correr quase sempre durante todos esses quilómetros com poucas paragens. O facto de não ver ninguém também não ajudou…
O objetivo era chegar a Santarém fisicamente bem. Dali até Fátima já era mais o meu terreno, um sobe e desce constante, sendo esta a gestão a que me adapto melhor.
Chegando à Serra D´Aire e Candeeiros foi uma incógnita pelo desconhecimento do percurso, mas tinha a confiança de que estaria tudo mais ou menos marcado. Realmente estava, mas a minha concentração diminuiu pelo frio que se começou a fazer sentir e aí perdi-me várias vezes, valendo-me o track que tinha no relógio.

Nuno Rocha teve como objetivo acender velas por quem não podia estar em Fátima
Nuno Rocha teve como objetivo acender velas por quem não podia estar em Fátima

Já agora, regressava um pouco atrás e perguntava de que forma se preparou para este desafio? O Nuno Rocha tem algum cuidado com a alimentação, por exemplo?
Como disse, não existiu nenhuma preparação, foi uma decisão em pouco mais de semana e meia. Valeu-me a experiência das longas distâncias. A distância de mais 100 km não é novidade para mim e, como treino todos os dias seguido por um fantástico treinador (Tiago Aragão) e apesar de ser um desafio exigente, foi tudo bem premeditado para que a missão fosse cumprida.
Mas é verdade, tenho cuidado com a alimentação, mas acho que todos nós, independentemente de sermos atletas ou não, também o deveríamos ter. Nós somos o que comemos e, em competição, comer o certo ou o errado pode fazer a diferença. Como de tudo, sou transversal e de boa boca, mas em pequenas quantidades, muitas vezes ao dia e todo o tipo de comida, preferencialmente mediterrânica. A minha alimentação é personalizada (sou seguido pelo Dr. Tiago Almeida) e pesada todos os dias.

Durante o desafio entre Lisboa e Fátima, que tipo de apoio teve o Nuno Rocha? E, já agora, de que forma e com o quê manteve as forças?
Foi um percurso feito em solitário, a única companhia era a minha sombra. Diariamente treino sempre sozinho, o que me terá ajudado muito, mas não só: ao pensar ir a Fátima pensei em criar um evento que envolvesse as pessoas em que eu fosse útil a elas e assim consegui.
Recebi dezenas de mensagens… Parece pouco, mas, quando estamos no meio do nada, uma mensagem daquela pessoa dá um energia incrível. Acreditem, é mesmo assim, quem faz ultras sabe bem do que falo, é um boost inacreditável. Depois tinha a obrigação de chegar ao Santuário de Fátima, as pessoas confiaram em mim, seria impensável não chegar ao destino e não concluir a minha missão: colocar velas em nome das pessoas.

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Para quem pretenda fazer uma loucura assim, que conselhos e recomendações dá?
Estas loucuras são mesmo isso, de uma brincadeira sai um sacrifício, mas quem tem pouca experiência deve ponderar. É um desafio perfeitamente possível de realizar, seja num dia ou preferencialmente durante mais dias. Pouco desnível, plano, sem qualquer exigência técnica, mas os quilómetros e as horas são muitas para fazer numa só tirada, logo tem que se gerir as emoções e a parte física. Como qualquer ultra, quanto a mim, precisa de ser bem planeada. Apesar de ser relativamente fácil acaba por ser demasiado violento, mas acredito que qualquer um tem capacidade para a fazer, desde que bem planeado/treinado.