Nuno Rocha acredita que o corredor muda quando faz provas de grandes distâncias. Por isso, um dos sonhos da sua vida é fazer a Marathon des Sables.

Numa altura em que Portugal, a exemplo de outros países, esforça-se para deixar para trás o longo confinamento, de que forma o atleta Nuno Rocha viveu essa fase?
Portugal fez e faz um trabalho excelente, os nossos governantes estão de parabéns.
Sou um apaixonado pelo desporto e quando ficamos limitados, sem fazer aquilo que mais gostamos, isso deixa-nos ansiosos e frustrados. Isso aconteceu-me, por não conseguir fazer em pleno tudo o que tinha planeado e pelos objetivos que tinha para este ano e que vi não se concretizarem.
Consegui treinar de uma forma limitada, dos muitos quilómetros que fazia  (entre 150 a 200 km semanais), reduzi para menos de 80 km. Corria na área da minha residência e, como muitos, treinar dentro de casa era a rotina, optando por ir fazendo outro tipo de trabalho complementar que não era habitual e tornou-se rotineiro. Assim, mais uma vez o desporto, num momento tão difícil para todos nós, foi a tábua de salvação, pois, em termos mentais, ajuda muito a encarar as coisas de uma forma mais positiva.

Agora que, como dissemos, está na fase de desconfinamento, quais são os próximos planos, em termos desportivos?
Para já estou inscrito na Maratona de Barcelona, em outubro. Será a minha estreia na Maratona, mas, sinceramente, com o evoluir das medidas que estão a ser colocadas em prática nos vários pontos do globo, estou na dúvida que provas com estas dimensões serão realizadas.
O adiamento será a palavra mais usada. Se não se realizar, vou apontar para um Ultra Trail, ofertas há muitas e se existirem condições de segurança para realizar lá estarei. São Silvestres são outras das minhas paixões e objetivos, a de Lisboa terá a minha presença caso se realize.

Mas existe alguma prova que mantenha como sonho a realizar?
Costumo dizer que a próxima prova é a melhor e a de sonho. Felizmente já tive a oportunidade de participar em várias de sonho. Existem imensas provas de sonho em Portugal, mas quem não gosta de se desafiar lá fora?  Para nós, das distâncias longas, correr nos Pirinéus ou nos Alpes é um sonho e eu já tive essa oportunidade. Como os sonhos são para se concretizar, e como não existem impossíveis, o homem sonha, a obra nasce.
Adoraria um dia correr na Marathon des Sables (MDS), uma prova por etapas em autonomia total, um desafio certamente memorável e incrível. Mudamos quando fazemos grandes distâncias. Na MDS a perspetiva da vida irá melhorar, certamente!

Nuno Rocha é um apreciador das grandes distâncias
Nuno Rocha é um apreciador das grandes distâncias

Que análise faz da corrida em Portugal, nestes tempos difíceis?
São tempos desafiantes para atletas, mas principalmente para as organizações. O futuro de todos é uma incerteza, terão que ser muito resilientes. Acredito que muitas provas vão desaparecer, outras irão surgir, possivelmente num novo formato e adaptado a uma nova realidade.
A corrida tem que regressar de uma forma segura, com regras apertadas e sem dúvidas de contágios (se é que isso é possível). Uma coisa e por já si complexa é encerrar um país, outra é voltar a fechar tudo e voltarmos atrás, seria terrível para todos. Estamos ansiosos por competir, mais ainda as organizações, que algumas delas vivem deste mundo organizativo. Tudo tem de ser bem planeado entre as autoridades de saúde, dar confiança a quem participa e regressar naturalmente a este mundo que é apaixonante.

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E, para terminar, que tipo de conselhos o Nuno Rocha deixaria a quem se quer aventurar nas grandes distâncias e na corrida? E, já agora, no Ultra Trail?
Costumo dizer que devemos treinar para correr. Sei que aquilo vou dizer é chapa 5 mas é super importante: procurem alguém formado e qualificado para iniciar os treinos, alguém que vos possa orientar no mais básico que seja, a forma de correr, as cargas, o descanso, os volumes, as intensidades de treino… O planeamento de provas deve ser adaptado ao atleta.
Eu posso dar o meu exemplo: antes de 2014 nunca tinha sido treinado por ninguém. Ia ao Google, pesquisava e adaptava o treino. Por vezes treinava em grupo e o treino que era para um servia para todos. Hoje vejo os erros que cometia, erros grosseiros que podiam colocar em causa a minha saúde, trazer lesões e, claro, não notava qualquer evolução.
Hoje os meus treinos são feitos com método e com toda a segurança. Devemos adaptar o corpo ao stress da corrida e isto tem que ser feito com muita rotina, disciplina e por quem sabe. Para o Ultra Trail, para além do que disse atrás, acrescento que as distâncias muito longas em termos fisiológicos e físicos têm um impacto brutal no nosso corpo. A preparação é a parte mais difícil para qualquer prova, mas atenção, o pós prova, a recuperação, se não for bem-feita, mais tarde ou mais cedo o impacto desse erro vai surgir. Divirtam-se com um sorriso na cara, com gosto e sem sacrifício.