Matias Novo confessa que, nas corridas, tem por vezes dificuldade em tirar fotografias, já que, por desejar fotos os mais naturais possíveis, os corredores não facilitam a sua vida.

Qual a principal dificuldade da fotografia na corrida?
Por incrível que pareça, e sendo um fotógrafo que gosta de momentos o mais natural possível dentro da corrida, controlar os atletas (risos) é uma dificuldade acrescida (fazem pose, fixes, etc.). Contudo, também tenho consciência de que esses momentos são importantes e fazem parte do evento.

O que está nos bastidores de uma fotografia que as pessoas não veem?
A pré-prova, muito planeamento, estudo pormenorizado de tracks, horários, distâncias, minutos e km entre spots, mas também muitos treinos para me manter bem fisicamente e muitos sonhos dos tais momentos fotográficos que tanto procuro. Após as provas, são horas de edição, quase fotografia a fotografia de forma a potenciar aquele momento captado e torná-lo único e mágico. Obviamente que, por atrás de uma fotografia, estão anos de trabalho árduo e um forte investimento no equipamento fotográfico, bem como de computadores.

Na sua opinião, o que um corredor procura no foco de uma câmara?
Desde o início que uso uma técnica que é colocar-me na pele do atleta e tentar perceber como é que eu gostaria de ser fotografado. Assim, penso que o atleta procura que eu capte a sua essência, todo o seu foco e a emoção do momento. Para isso é fundamental ir de cabeça fresca e focada para cada evento.

E o que o fotógrafo procura, com o seu foco, no corredor?
Procuro fotografar essencialmente momentos fotográficos invisíveis a olho nu, planos fechados e expressivos e enquadrar cada paisagem típica de determinada região do país com o atleta.

Qual a prova que o Matias Novo mais gostou de fotografar os corredores?
Muito sinceramente, todas as provas que fotografo são especiais, com caraterísticas próprias, trilhos e organizações diferentes. É impossível eleger a minha preferida. Por falar em momentos especiais, em 2019 surgiu uma parceria fundamental parta a minha preparação, concretamente com uma concessionária de enorme prestígio no país e no mundo dos carros Volvo, a Triauto, com sede em Viana do Castelo. Uma parceria que muito tem colaborado para que as viagens se tornem mais fáceis, seguras e muito confortáveis.

E a prova mais complicada de fotografar?
A mais complicada é o PT281+, por ser uma prova de 281 km non-stop e onde eu vivo muito o espírito e sacrifício do atleta, prova essa que começa às 18h00 de quinta-feira e só acaba no domingo, ao meio-dia. Pelo meio tenho várias paragens para fazer a edições de algumas fotos, muitas poucas horas de sono e sempre mais de 1000 km feitos de carro em 4 dias.

Acompanhou recentemente os 160 km do João Andrade e a PT281+. Como foi o regresso após o confinamento? Quais foram as dificuldades sentidas? O seu olhar estava enferrujado?
Confesso que o Douro 100 milhas foi um enorme desafio e um treino para o PT281+. Foram quatro meses sem fotografar desporto, mas que me correu de feição, conforme o plano que tinha traçado. Relativamente ao olhar enferrujado, procurei, durante o confinamento, manter-me ativo, não com o equipamento fotográfico, mas com o telemóvel, fotografando as minhas filhas e postando na minha página do Facebook e Instagram diariamente. Como sempre faço fotos de provas, o que tenho feito é refletir um pouco sobre elas.

Como O Matias Novo vê a importância do fotógrafo na comunicação de uma corrida, com as imagens únicas que os fotógrafos conseguem obter dos corredores?
Nos tempos que correm, com tantos eventos desportivos a decorrerem em simultâneo, é fundamental uma boa imagem da prova, sempre com enorme rigor e qualidade, até porque, como diz o ditado, uma imagem vale mais do que 1000 palavras.


E acredita que as organizações olham para vocês, fotógrafos, de um novo modo nos dias de hoje?
Sim, mas é verdade que, inicialmente, eram poucas as organizações que apostavam no trabalho fotográfico. Atualmente, do meu ponto de vista, é fundamental para o sucesso de um evento.

Como analisa a fotografia no Mundo da Corrida no nosso país? Estamos ao nível do que temos no estrangeiro, por exemplo?
Sem dúvida que sim. Aliás, até me parece que estamos um pouco acima, isto dito por imensos atletas internacionais que fazem as nossas provas e que ficam fascinados com as nossas provas e trabalhos fotográficos.

Qual a prova de sonho do fotógrafo Matias Novo?
A minha prova de sonho é sempre a próxima a fazer. Evidentemente que, sem olhar a nomes de provas, não escondo o desejo de visitar as ilhas e também provas internacionais por esse mundo fora.

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Qual acredita ser a razão por ser tão respeitado, tantos pelos atletas como pelas organizações?
Talvez pela pessoa bem disposta que sou e por ver em mim um tipo genuíno. Cresci numa aldeia em que, apesar da proximidade de Viana (8 km), raramente ia à cidade. Preferia a natureza, o campo, o rio, o monte e andar de bicicleta com os meus amigos, mas também ter longas conversas com os velhinhos.
Fui escuteiro, fiz a catequese toda, andei no coro (risos) e até ajudava à missa (risos)…
Foram anos onde aprendi muito, nomeadamente princípios muito importantes da vida como a honestidade, integridade e a importância de ter palavra e amizade verdadeira sem interesses.
Relativamente às organizações, penso que passa muito pela entrega que dou a cada prova que me proponho fotografar, dando tudo de mim em prol da mesma e, claro, dos atletas e da região em questão.